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Após flexibilizar regra em Tóquio 2020, COI proíbe ucraniano de competir em Milão-Cortina 2026

Decisão contra Vladyslav Heraskevych reacende debate sobre manifestações políticas e aplicação da Regra 50.2 da Carta Olímpica

Vladyslav Heraskevych com o capacete que o impediu de competir em Milão-Cortina - Reprodução / Instagram @heraskevychvladyslav

Vladyslav Heraskevych com o capacete que o impediu de competir em Milão-Cortina 2026 - Reprodução / Instagram (@heraskevychvladyslav)

⚡ Máquina Fast
  • Vladyslav Heraskevych foi proibido de competir em Milão-Cortina 2026 por usar capacete com imagens de vítimas da guerra na Ucrânia, violando a Regra 50.2 do COI.
  • Atos de manifestação política e religiosa em Tóquio 2020 e Paris 2024 foram tolerados pelo COI, em contraste com a punição aplicada ao atleta ucraniano.
  • O COI enfrenta críticas por agir com rigor similar ao repressivo episódio dos Jogos de 1968, ao vetar protestos contra a guerra e manter a regra olímpica de neutralidade.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

O ucraniano Vladyslav Heraskevych foi impedido de competir no skeleton nos Jogos de Inverno de Milão-Cortina d’Ampezzo 2026 após insistir em utilizar um capacete com imagens de atletas de seu país mortos durante a Guerra da Ucrânia.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) considerou que o equipamento violava a Regra 50.2 da Carta Olímpica, que proíbe manifestações políticas em áreas oficiais dos Jogos.

Contraditoriamente, sob a mesma regra, o próprio COI havia deixado de punir outras manifestações ocorridas nos Jogos de Verão de Tóquio 2020 e Paris 2024. À ocasião, foram permitidas manifestações antes das provas, mas o veto foi mantido em pódios e cerimônias.

Tóquio 2020

Episódios com atletas, porém, esgarçaram a corda de proibições. A norte-americana Raven Saunders, que conquistou a medalha de prata em Tóquio, ergueu os braços em forma de xis no pódio do arremesso de peso, gesto que simbolizava “o cruzamento onde todas as pessoas oprimidas se encontram”.

À ocasião, o COI não aplicou punição, alegando respeito às circunstâncias pessoais da atleta.

Outro caso ocorreu com as chinesas Bao Shanju e Zhong Tianshi, medalhistas de ouro, que usaram broches de Mao Tse-Tung na cerimônia de pódio da prova de velocidade do ciclismo de pista. O COI recebeu explicações do Comitê Olímpico Chinês e encerrou o processo sem sanções.

Paris 2024

Em Paris 2024, a grande polêmica envolveu a brasileira Rayssa Leal, que fez uma manifestação religiosa ao conquistar a medalha de bronze no skate street. Usando a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a skatista declarou: “Jesus é o caminho, a verdade e a vida”.

A mensagem viralizou nas redes sociais e abriu um debate sobre possíveis punições, já que manifestações religiosas também estão incluídas na lista de restrições olímpicas. O COI, porém, decidiu não punir a atleta.

Milão-Cortina 2026

Com Heraskevych, o COI ofereceu a alternativa de o atleta usar uma braçadeira preta na competição, em sinal de luto. Outra possibilidade seria exibir o capacete fora da competição, na zona mista, momento em que os atletas concedem entrevistas à imprensa.

Diante da recusa do ucraniano, houve uma reunião entre representantes da Federação Internacional de Bobsled e Skeleton (IBSF) e a delegação ucraniana. O COI, decidiu, então, retirar a credencial de Heraskevych, que foi impedido de competir.

Encontro

Kirsty Coventry, primeira mulher e africana presidente do COI, teve uma reunião com o atleta após a punição ser aplicada. A dirigente, que assumiu no ano passado, afirmou que o clima foi respeitoso e pediu para que a credencial de Heraskevych fosse devolvida.

“Ninguém discorda da mensagem. É uma mensagem poderosa de lembrança”, ponderou Kirsty.

“Não se trata da mensagem em si; trata-se literalmente das regras e regulamentos. Temos que garantir um ambiente seguro para todos. Infelizmente, isso significa que não é permitido enviar mensagens no campo de jogo”, acrescentou.

Em suas redes sociais, Heraskevych postou uma foto com o capacete polêmico e a mensagem: “Este é o seu caso. Este é o preço da nossa dignidade”.

México 1968

No passado, o COI já se caracterizou em reprimir protestos políticos de maneira exemplar. O caso mais controverso aconteceu nos Jogos da Cidade do México 1968. À ocasião, Tommie Smith e John Carlos, medalhistas de ouro e bronze nos 200m no atletismo, levantaram o punho, munidos de luvas negras, durante a execução do hino dos EUA.

O gesto era uma referência aos Panteras Negras, grupo que lutava contra o racismo em seu país. É uma das imagens mais poderosas da história olímpica. Smith e Carlos foram banidos dos Jogos e desligados da delegação norte-americana.

Ao punir um atleta que protestava contra os absurdos da guerra, condenada pelo próprio COI ao afastar a Rússia do Movimento Olímpico, o Comitê Olímpico Internacional se aproxima muito mais do clima repressor dos anos 1960, do que do hiato de liberalidade que viveu nas duas últimas edições dos Jogos de Verão.