A organização da Copa do Mundo de 2026 enfrenta obstáculos que vão além da infraestrutura esportiva e do tamanho dos estádios. Apesar da percepção global de que os Estados Unidos possuem um funcionamento logístico impecável, a realidade impõe algumas dificuldades operacionais que chamam a atenção da Fifa.
No Maquinistas, podcast da Máquina do Esporte, Tiago Paes, head de operações dos estádios da Fifa na Copa do Mundo de 2026, ponderou algumas das dificuldades que deverão ser superadas pela organização do torneio.
“No Brasil, a gente pensa que nos Estados Unidos tudo é perfeito, tudo funciona. E não é bem assim. Eles têm muitos problemas, têm dificuldade de mão de obra. Dependendo do horário do jogo, a gente corre risco de ter falta de pessoal para trabalhar, porque muitos dos trabalhos são o segundo trabalho das pessoas”, apontou.
A necessidade de mobilizar milhares de colaboradores com horas de antecedência em dias de semana exige uma logística de recrutamento bem arquitetada. Ainda assim, Tiago Paes, que trabalha na organização de Copas do Mundo desde a edição de 2014, realizada no Brasil, nega a possibilidade de apagões.
“Isso é um problema que eles estão tendo de conseguir ter uma mão de obra ou uma quantidade, um grupo de pessoas que sabe o que eles vão ter que tirar para aquele dia no jogo. De um grupo de 10 mil pessoas, eles vão precisar de 5 mil trabalhando. Será que tem isso? Vai ter que buscar em outra cidade? Então, não é que tudo é fácil ou está pronto para acontecer”, alertou o executivo.
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Clima
Além da força de trabalho, as condições meteorológicas apresentam um desafio constante para o cumprimento do calendário apertado da competição. A incidência frequente de tempestades e raios em diversas regiões dos Estados Unidos obriga a organização a monitorar protocolos distintos para cada estádio.
A Copa do Mundo de Clubes da Fifa, disputada em julho de 2025, serviu de laboratório para a entidade se preparar melhor para essa possibilidade.
“Sabíamos que poderia acontecer. Eu já tinha colado na parede uma tabela com as informações do tempo de cada estádio. Se tem uma tempestade e tem que dar anúncio de alerta, qual a distância que tem que parar? Quanto tempo do último raio até o próximo que você pode recomeçar o jogo?”, detalhou o executivo.
“Tem que esperar às vezes 30 minutos sem ter nenhum raio e pode recomeçar, mas em outro estado você tem que esperar 15 minutos”, prosseguiu.
A complexidade aumenta com a necessidade de planos de contingência detalhados para jogos interrompidos, especialmente os noturnos. A viabilidade legal de continuar partidas após a meia-noite ou a logística de transferir jogos para os dias seguintes em estádios cobertos são variáveis que estão sendo mapeadas para evitar colapsos na tabela do torneio.
“A gente tem uma tabela pensada para, se cada jogo tiver que parar, o que acontece. Que horas a gente reinicia no mesmo dia? Talvez um jogo que começa meio-dia, uma hora da tarde, a gente consiga reiniciar e terminar no mesmo dia. Agora, se o jogo começa às dez da noite e para, para por uma hora, duas horas, pode ser continuado legalmente após a meia-noite? As equipes vão querer jogar depois da meia-noite? E para onde esse jogo vai poder ser jogado no dia seguinte?”, concluiu Tiago Paes.
O podcast Maquinistas, apresentado por Erich Beting e Gheorge Rodriguez, com a participação de Tiago Paes, head de operações dos estádios da Fifa na Copa do Mundo de 2026, estará disponível a partir desta terça-feira (27), às 19h (horário de Brasília), no canal da Máquina do Esporte no YouTube:
