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Globo tem dança das cadeiras no alto escalão e muda área de direitos de transmissão

Alterações anunciadas nesta sexta-feira (4), pelo diretor-presidente Paulo Marinho, buscam ampliar a presença do grupo em diferentes plataformas

Equipe da Globo para a cobertura da Copa do Mundo 2026 - Divulgação

Parte da equipe da Globo para a cobertura da Copa do Mundo de 2026 - Divulgação

⚡ Máquina Fast
  • Pedro Garcia deixa a Globo após 45 anos e Fernando Ramos assume a nova estrutura integrada de distribuição e direitos.
  • Globo reforça que a saída de Manuel Belmar foi planejada há dois anos, negando ligação com direitos da Copa do Mundo de 2026 cedidos à CazéTV.
  • Renegociações dos direitos da Copa do Mundo ocorreram em 2021 devido à pandemia e à estratégia financeira da Globo, com abertura para streaming e plataformas digitais.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

A Globo oficializou, nesta sexta-feira (4), mudanças em seu alto escalão. O anúncio veio em comunicado assinado pelo diretor-presidente da emissora, Paulo Marinho.

“Queremos preservar o que nos torna únicos: a força do nosso conteúdo, e ampliar a presença em diferentes plataformas, mantendo a relevância da TV Globo e acelerando nosso crescimento no digital para gerar ainda mais valor para consumidores, anunciantes e parceiros. Esse momento também exige uma atuação ainda mais integrada de tecnologia, dados e Inteligência Artificial aos negócios para acelerar decisões e inovação”, afirmou o executivo.

Na área do esporte, a principal notícia envolve a saída de Pedro Garcia, que ocupava o cargo de diretor de direitos da empresa.

Com 45 anos de atuação na Globo, o profissional foi um dos fundadores da Globosat e teve atuação destacada na construção do portfólio de direitos de conteúdo e no desenvolvimento de ativos estratégicos para a emissora, ao longo desse período.

No lugar de Garcia assumirá Fernando Ramos, numa nova estrutura integrada denominada de distribuição e direitos (que inclui os esportivos).

De acordo com o comunicado de Marinho, Ramos já vinha “contribuindo de forma significativa no desenvolvimento de parcerias e negociações estratégicas na frente de distribuição das plataformas da Globo”.

Segundo a nota, ele terá, à frente da nova estrutura, o desafio de potencializar essa atuação e identificar novas oportunidades de conteúdos, parceiros e negócios.

Novos movimentos da empresa

Segundo Marinho, as mudanças na estrutura organizacional são baseadas em cinco movimentos principais.

Um deles consiste na justamente na junção das áreas de distribuição e direitos em uma única estrutura comandada por Ramos, o que, na visão da empresa, ampliaria sua “capacidade de capturar oportunidades e fortalecer parcerias estratégicas”.

Também está sendo criada uma área integrada de consumidor, marketing e marca, trazendo a perspectiva do brasileiro para o centro das decisões.

Além disso, as operações da TV Globo e dos Estúdios Globo serão integradas, de modo a aproximar a emissora de seu principal estúdio de conteúdo.

O setor de estratégia terá sua abrangência ampliada, incorporando o papel de governança corporativa, para garantir decisões conectadas às prioridades da Globo.

Por fim, haverá a migração das áreas de relações institucionais, jurídico e compliance para a holding, com base no entendimento de que elas teriam uma atuação transversal dentro do Grupo Globo.

Impacto da CazéTV?

Desde a última quinta-feira (3), quando surgiram os rumores da dança das cadeiras no alto escalão da Globo, passou a ser cogitada a saída de Manuel Belmar da empresa, desligamento que acabou por ser confirmada no comunicado de Marinho.

“Manuel Belmar, que há dois anos compartilhou comigo sua decisão de encerrar seu ciclo executivo na Globo, inicia agora uma transição cuidadosamente planejada e que será concluída no primeiro trimestre de 2027”, disse o diretor-presidente.

O Grupo Globo emitiu uma nota com o posicionamento de seu presidente, João Roberto Marinho, abordando o desligamento específico do profissional.

Além de reforçar a versão de que a saída já havia sido decidida pelo próprio Belmar, há cerca de dois anos, no comunicado João Roberto Marinho disse repudiar “com veemência as especulações que rondam a iniciativa”.

A nota busca desmentir notícias surgidas no decorrer da semana, dando conta de que Belmar teria sido demitido por, supostamente, ser o responsável por abrir mão da exclusividade da emissora sobre os direitos da Copa do Mundo de 2026, entregando de bandeja todos os jogos do torneio à CazéTV, que bateu recordes de audiência com a transmissão do evento.

No comunicado, João Roberto Marinho garantiu “que a decisão de renegociação da compra dos direitos da Copa do Mundo 2026 foi tomada exclusivamente pelo Conselho de Administração do Grupo, como é praxe em deliberações de grande porte, que não podem ser atribuídas individualmente aos executivos das empresas”.

Decisão de mercado

Quando alguma mudança relevante ocorre no mercado, é comum que parte da imprensa e dos analistas busquem mocinhos e vilões.

Algumas transformações, no entanto, são resultado de processos complexos e que envolvem contextos muito amplos, para os quais não cabem explicações simplistas.

Hoje, diante dos recordes de audiência e do sucesso comercial das transmissões da CazéTV na Copa de 2026, é fácil para qualquer um posicionar-se como “engenheiro de obra pronta” e tentar individualizar culpas ou mérito na situação.

Para entender o cenário atual, porém, devemos retornar a 2021, ano em que o mundo era sacudido pela pandemia da Covid-19, que paralisou campeonatos e fechou estádios, cortando fontes de receitas de todos, inclusive das empresas de mídia.

Como toda companhia privada que se preze, a Globo existe para dar lucro. Em 2021, diante de um cenário de redução drástica das fontes de faturamento, a ordem era economizar. Foi nesse contexto que ela renegociou contratos de direitos de transmissão, não apenas da Copa do Mundo, mas também de competições da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), como a Copa Libertadores, que foi parar no SBT, até retornar, nos anos seguintes.

Abrir mão da exclusividade da Copa do Mundo não foi uma decisão inédita na história da emissora. No início do milênio atual, a Globo, que havia exibido sozinha o Mundial de 2002, optou por não exercer esse direito em 2006 e 2010, permitindo que o torneio pintasse na tela de concorrentes como ESPN, Band Sports e tantos outros.

Fifa+

Em 2021, ao renegociar seu contrato com a Copa do Mundo com a Federação Internacional de Futebol (Fifa), a Globo procurava equilibrar suas receitas.

A decisão, que possui um caráter sobretudo financeiro, partia também da análise da realidade do mercado, em que o streaming esportivo não se mostrava capaz de decolar comercialmente.

A principal plataforma do planeta, o DAZN, estava em crise e encolheu drasticamente sua operação em todo o mundo, a ponto de devolver os direitos da Copa Sul-Americana à Conmebol e deixar de atuar no mercado brasileiro.

Apenas depois de passada a pandemia é que a plataforma retornaria ao país. Globalmente, porém, sua operação seguiu altamente deficitária.

Em 2025, ano em que adquiriu a exclusividade dos direitos da primeira Copa do Mundo de Clubes da Fifa por US$ 1 bilhão, o DAZN havia registrado um prejuízo antes dos impostos de US$ 935,6 milhões. A empresa só conseguiu realizar negócio com a entidade máxima do futebol graças a um aporte de US$ 1 bilhão feito pela Arábia Saudita, que se tornou dona de 10% da plataforma.

Mas o caso específico da CazéTV possui nuances que, inicialmente, eram difíceis de ser captadas. Quando a Globo chamou a Fifa para renegociar os direitos da Copa do Mundo, a entidade tinha interesse em retomar essa propriedade no digital, pois estava estruturando sua plataforma própria, o Fifa+.

De posse desses direitos, a Fifa acabou por cedê-los à sua parceira LiveMode, que é a agência responsável por representar os interesses da entidade no mercado brasileiro.

A empresa estruturou a CazéTV, que garantiu o direito de transmitir a Copa do Mundo de 2022, ao mesmo tempo em que Casimiro Miguel, rosto do canal, virou o grande divulgador do Fifa+ no Brasil.

Em 2022, as transmissões da CazéTV na Copa do Mundo já haviam sido um êxito de público, batendo recordes no YouTube e despertando a atenção do mercado.

Mesmo não chegando ao ponto de incomodar a Globo na audiência, o canal demonstrou que não era mais uma simples aposta, mas sim uma tendência que caminhava para se consolidar.

Mais tarde, viria a parceria da CazéTV com o YouTube, que garantiu os direitos digitais do torneio. E o resto é história.

Se a versão colhida na “rádio-corredor” de 2026 fosse verdadeira, e o comando da Globo considerasse Belmar o responsável pelo crescimento da CazéTV, a demissão teria ocorrido há muito mais tempo.

Em geral, mudanças estratégicas em grandes grupos de mídia como a Globo são tomadas com vários meses de antecedência.

Tanto as mudanças corporativas quando a reação da emissora ao streaming são frutos de estratégias que estão desenhadas há tempos. Se serão o suficiente para que ela mantenha sua hegemonia no mercado, nenhum analista será capaz, por mais que se esforce, de afirmar com certeza.