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Análise: Esporte ainda não eliminou dirigente-imperador

Adalberto Leister Filho analisa o legado de Mário Vázquez Raña à frente da Odepa e os desafios da entidade após morte de dirigente

Adalberto Leister Filho - São Paulo (SP) Publicado em 10/02/2015, às 09h53 - Atualizado às 11h53

Imagem Análise: Esporte ainda não eliminou dirigente-imperador

As entidades esportivas ainda não modernizaram sua gestão para que fosse eliminada a figura do dirigente-imperador. Exemplos desse tipo temos aos montes por aí. João Havelange ficou à frente da Fifa por 24 anos. Joseph Blatter, que tenta a reeleição, é o mandatário da entidade há 17.

Há outra forma de dirigente-imperador. É aquele que fica no cargo até o fim da vida. No domingo, o esporte perdeu um representante da classe com a morte de Mario Vázquez Raña. O reinado do mexicano à frente da Odepa (Organização Desportiva Pan-Americana) durou 40 anos.

Raña comandou a entidade durante 9 Jogos Pan-Americanos, contra 7 em que a organização foi presidida por outros 6 dirigentes. Foi dele a iniciativa de programar Pans em Indianápolis e Havana, no auge da Guerra Fria, nos anos 80. A rivalidade entre Cuba e Estados Unidos deu um tempero a mais nessas edições. Foi sob sua liderança também que pela primeira vez foram negociados os direitos de TV do evento.

No entanto, nesse período, a Odepa também entrou tardiamente na luta contra o doping. Os controles começaram a ser feitos na Olimpíada em 1968. O Pan, porém, só implantou testes rigorosos 15 anos depois, em Caracas.

Raña não conseguiu tornar a competição atraente. O evento gradativamente deixou de ser prioridade dos Estados Unidos, principal potência continental. Atualmente, é enviada uma equipe B nas modalidades mais badaladas. O nível técnico desabou. Recordes mundiais, antes comuns, tornaram-se raros.

O Pan também não serviu para forjar novas potências esportivas na América. Os Estados Unidos permanecem mandando no quadro geral de medalhas da Olimpíada independentemente dos Jogos continentais. Em crise, Cuba decaiu. Canadá e Brasil não ocuparam seu lugar. A Jamaica se tornou potência no atletismo, mas não por causa do Pan. Seu maior astro, Usain Bolt, nunca participou do evento.

Em um mundo conectado, a Odepa demorou horrores para lançar seu site oficial. Após criá-lo, continuou desprezando as redes sociais e a interação com os fãs. Sua página online é tão desatualizada que na segunda-feira, um dia após a morte de seu dirigente máximo, as três notícias principais do portal eram sobre atividades do presidente. Nenhuma noticiava sua morte.

Em uma das notas, há uma convocação do cartola para a próxima reunião do Comitê Executivo, em 25 de março, na Cidade do México. Os desinformados podem até achar que ele estará presente. 

Sem Raña, a Odepa tem a chance de se reinventar como entidade e se tornar de fato importante para o desenvolvimento do esporte olímpico no continente. Resta saber se o quadro de dirigentes na América irá oferecer algum nome capaz de fazer com que o Pan passe a ser gerido de maneira mais moderna e profissional. A oportunidade é histórica. Que não seja desperdiçada.