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Opinião / Samy Vaisman

Opinião: Autenticidade em xeque: suposta camisa do gol "La Mano de Dios" vai a leilão

A palavra tem um peso forte, mas não basta ser proprietário: é preciso ter a documentação em dia também

Samy Vaisman, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 27/04/2022, às 08h58

Camisa usada por Maradona na Copa do Mundo de 1986 é uma das mais icônicas da história do futebol - Reprodução
Camisa usada por Maradona na Copa do Mundo de 1986 é uma das mais icônicas da história do futebol - Reprodução

Você deve conhecer alguém que tem em casa aquela camisa do time do coração autografada pelo grande ídolo. Tô falando daquela camisa que, quando o proprietário mostra aos amigos (sim, proprietário, porque ela se torna patrimônio da família), vem junto com uma história, um enredo que a faz ser ainda mais especial do que já é. Tô falando daquela camisa que “não se lava“, que “não tem preço“, que um amigo conseguiu a assinatura do craque e virou uma espécie de “dívida de gratidão eterna“. Você, com certeza, conhece uma história assim.

Deixando a paixão de lado para falar sobre o universo das memorabílias esportivas, essa tal camisa autografada, nos dias de hoje, tem um forte apelo sentimental, mas dificilmente valeria muita coisa em termos financeiros se pensarmos em mercado internacional. Isso porque a palavra vale, a história conta, mas é a certificação que garante a autenticidade de um item. A menos que essa camisa seja realmente única.

Maradona marcou o gol "La Mano de Dios" diante da Inglaterra, nas quartas de final da Copa do Mundo do México 1986
Reprodução

Vamos falar de camisa única? No último fim de semana, o anúncio do leilão da camisa que teria sido a usada por Maradona quando “El Pibe de Oro“ marcou o gol “La Mano de Dios“ acendeu uma polêmica que confronta a palavra da família com a da casa inglesa Sotheby’s. A raridade, um dos itens mais icônicos da história do futebol, é cercada de expectativas, e estima-se que possa alcançar os US$ 8 milhões (cerca de R$ 40 milhões).

O ponto central é que Stephen Hodge, ex-jogador inglês, afirma ter trocado a camisa com o argentino após a partida, válida pelas quartas de final da Copa do Mundo do México 1986. Foi Hodge quem falhou no lance em que a bola sobrou para Maradona “cabecear“ com a mão. Ao aparecer com a camisa no vestiário após o jogo, seus companheiros ficaram bastante irritados ao vê-lo com a lembrança em mãos.

Dalma, filha de Maradona, afirma que Hodge trocou a camisa com o pai dela após o final do primeiro tempo, que terminou 0 a 0, sendo então uma peça histórica também, mas de valor histórico (e financeiro) inferior. Dalma garante ter a camisa do segundo tempo, a peça de uma das atuações mais espetaculares vistas até hoje no futebol.

Stephen Hodge trocou camisa com Maradona no jogo em que o meia argentino "trucidou" a Inglaterra
Reprodução

Ah, claro, só para constar: teve ainda aquela arrancada que deixou seis adversários para trás e culminou em outro golaço. Isso em um confronto que ainda tinha o ingrediente Ilhas Malvinas (Falklands) envolvido.

Mas, voltando à polêmica, a Sotheby’s afirma que o item é genuíno e que, para reforçar sua certeza, contratou uma empresa especializada que analisou documentos (fotos e vídeos) e entregou um relatório garantindo a autenticidade. Vale lembrar que, caso o leilão seja realizado, a família de Maradona não receberá nenhum valor. A negociação financeira envolve apenas o promotor do evento e Stephen Hodge. Olha a história do “proprietário“ da camisa aí.

Detalhes da camisa usada por Maradona que entrou para a história do futebol
Reprodução

Esta situação me fez voltar 20 anos no tempo. Em 2002, a Christie’s, “vizinha“ da Sotheby’s em Londres, leiloou por US$ 224 mil aquela que seria a camisa 10 usada por Pelé nos 4 a 1 sobre a Itália na final da Copa do México 1970. À época, Pelé não reconheceu a autenticidade, o que fez com que muitos questionassem a origem da peça. Pouco depois, surgiram informações de que o “Rei“ teria usado três camisas (uma em cada tempo da partida e uma na premiação) naquele dia. Uma delas está atualmente em exposição no Museu do Futebol, em São Paulo.

Em suma: a palavra tem um peso forte, e a história tem um valor inestimável. Porém, não basta ser proprietário. É preciso ter a documentação em dia também.

Samy Vaisman é jornalista, sócio-diretor da MPC Rio Comunicação (@mpcriocom), cofundador da Memorabília do Esporte (@memorabiliadoesporte) e escreve mensalmente na Máquina do Esporte