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Opinião / Ricardo Fort

Opinião: Nadal x Neymar

Craques dentro do campo e da quadra mostram um abismo quando o assunto é a gestão de carreira

Ricardo Fort, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 11/02/2022, às 07h14 - Atualizado às 07h18

Em 2015, Rafael Nadal e Neymar se encontraram em evento promovido por patrocinadores de ambos - Reprodução
Em 2015, Rafael Nadal e Neymar se encontraram em evento promovido por patrocinadores de ambos - Reprodução

Os torneios de “Grand Slam”, também chamados de “Majors”, são os quatro eventos anuais mais importantes do tênis mundial. Eles oferecem o maior número de pontos no ranking, premiação em dinheiro, atenção do público e da mídia. São, pela ordem, Australian Open, Roland-Garros, Wimbledon e US Open.

Há alguns dias, Rafael Nadal, até então número 6 no ranking da ATP, ganhou o bicampeonato do Australian Open se isolando como recordista masculino de títulos de simples em Grand Slams, com 21 taças (Serena Williams é a maior ganhadora no feminino com 23 títulos de simples em Grand Slams).

A partida final, contra o russo Daniil Medvedev, número 2 no ranking da ATP, durou 5 horas e 24 minutos. Medvedev, dez anos mais novo que o espanhol, ganhava por dois sets a zero quando Nadal começou sua vitoriosa reação.

Depois da vitória histórica, exausto e visivelmente emocionado, Nadal recebeu seu troféu em frente a uma audiência global de milhões de fãs do esporte. E o que aconteceu nos minutos seguintes foi uma aula de como se comunicar em público.

Nadal parabenizou seu adversário, seu time e sua família, dizendo que já havia perdido finais na Austrália e sabia como aquele momento era difícil. Disse que Medvedev era um jogador excepcional, que não tinha dúvidas que ganharia o Australian Open algumas vezes no futuro e que havia sido uma honra dividir a quadra com ele naquela partida.

Depois, Nadal agradeceu aos australianos pelo apoio recebido nas três semanas que passou no país dizendo que a experiência ficará no seu coração pelo resto da vida. Agradeceu sua equipe, reconhecendo como eles o ajudaram nos momentos mais difíceis. Lembrou-se dos voluntários e dos executivos da Tênis Austrália, órgão que rege a modalidade em território australiano, parabenizando-os pelo excelente trabalho na organização do evento em circunstâncias tão difíceis. Nadal também agradeceu a Kia, patrocinadora do evento e sua patrocinadora pessoal. “Obrigado por investir no esporte e me apoiar nos momentos mais difíceis”. Finalmente, encerrou seu discurso prometendo voltar em 2023.

Mesmo que você não goste de tênis, da Espanha ou de Nadal, não há como não admirar o profissionalismo dele, ainda mais em um momento de tamanha pressão.

O que muita gente não sabe é que o discurso do Nadal não aconteceu por acaso ou porque ele tem um talento nato para se comunicar. Muito pelo contrário. O espanhol é o resultado de um trabalho de anos de uma equipe profissional que cuida dele e o prepara dentro e fora das quadras para enfrentar adversários e microfones. O investimento se paga a cada discurso e a cada entrevista.

Se quiser saber o que acontece quando esse trabalho não é bem-feito, assista “Neymar: O caos perfeito”, na Netflix.

Os 164 minutos da série são uma propaganda pessoal de Neymar, mas não de Neymar Jr. Uma tentativa frustrada de apresentar seu pai e administrador como um profissional visionário a serviço do atleta. Ele, sim, é o ator central da história. O roteiro parece ter sido escrito para valorizar o pai em detrimento do filho, que é apresentado como uma pessoa imatura, dependente dos amigos e incapaz de tomar suas próprias decisões. O excessivo e desnecessário foco nas fraquezas e erros de Neymar Jr., como os longos minutos descrevendo a gravidez da namorada, o nascimento do filho e o fato dele ter dinheiro suficiente para assumir a responsabilidade da paternidade, reforça as razões da rejeição quase que universal do jogador. Nenhuma equipe profissional responsável por administrar a carreira e a imagem de atletas teria aprovado esse roteiro.

Se uma série como “Neymar: O caos perfeito” fosse lançada sobre a carreira de qualquer outro atleta, todos os responsáveis pelas aprovações deveriam ter sido demitidos. Foi um desserviço à construção de imagem que os administradores se propõem.

É importante dizer que Neymar e Nadal são dois excepcionais atletas com sucesso nos campos e quadras e também fora deles. São famosos e ganham fortunas todos os anos em prêmios, salários e patrocínios. A principal diferença entre eles é que Nadal é um sucesso também graças à sua equipe, enquanto Neymar é um sucesso apesar da sua.

Depois da aposentadoria, Nadal terá uma longa e bem-sucedida carreira no esporte ou fora dele. Será lembrado com carinho pelos fãs e continuará sendo um orgulho para seu país, por representá-lo tão bem mundo afora. Já Neymar certamente se aposentará muito rico, mas será apenas mais um jogador. Assim como os torcedores do Barcelona não o querem mais, o mesmo acontecerá com os do PSG e do Brasil. Tudo isso poderia ser evitado com uma melhor administração de sua imagem e carreira, mas não foi e não é.

Game, set e match para Nadal.

Ricardo Fort é fundador da Sport by Fort e escreve mensalmente na Máquina do Esporte