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Opinião / Ricardo Fort

Opinião: Um bom agente

Como um jantar mudou minha opinião sobre o papel dos intermediários na vida dos jogadores de futebol

Ricardo Fort, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 10/05/2022, às 07h27 - Atualizado às 07h29

Mino Raiola, agente italiano, faleceu no último dia 30 de abril, em Milão - Divulgação
Mino Raiola, agente italiano, faleceu no último dia 30 de abril, em Milão - Divulgação

Em fevereiro de 2017, viajei para Lausanne, na Suíça, para algumas reuniões de rotina com o Comitê Olímpico Internacional (COI). Aproveitei que estava do lado de lá do oceano para marcar algumas outras reuniões exploratórias com potenciais parceiros.

Com a proximidade da Copa do Mundo da FIFA da Rússia no ano seguinte, eu queria estudar as oportunidades de trabalhar com jogadores de diferentes países, todos atuando em ligas da Europa. Na minha lista, algumas das principais superestrelas do esporte. O plano era conversar com seus representantes comerciais – os agentes – para descobrir se faria sentido patrociná-los.

Até então, a minha visão sobre o trabalho deles não era das melhores. Cheguei até a escrever um artigo para uma outra publicação no Brasil criticando a profissão. Assim como a maioria dos torcedores, não entendia como o mercado do futebol aceitava as comissões milionárias pagas em cada transação e a dependência dos clubes por seu trabalho.

Como o francês Paul Pogba, o italiano Mario Balotelli e o sueco Zlatan Ibrahimovic estavam entre os jogadores que mais me interessavam, marquei uma reunião com Mino Raiola, um dos superagentes internacionais que, não coincidentemente, representava os três.

Fiz o meu dever de casa e li tudo o que podia sobre Mino, sua empresa e seus clientes. A sua reputação o precedia. Ele era um dos agentes mais bem-sucedidos e mais criticados do futebol. Adorado por seus jogadores e nem tanto pelos clubes que compravam e vendiam seus jogadores. Diferentemente da maioria dos agentes, era informal e desbocado. Falava o que pensava – mesmo que isso significasse arrumar confusões com a FIFA ou a UEFA – e, por isso, desagradava muita gente.

Cheguei tarde a Mônaco, onde Mino morava. Ao invés de uma reunião no seu escritório, marcamos um jantar no Beefbar, em Fontvieille. O restaurante sofisticado era todo envidraçado e ficava de frente para o mar, onde estavam atracados alguns iates dignos de oligarcas russos.

O jantar foi muito agradável e cheio de histórias do futebol graças a Mino, que além de tudo falava um bom português (além de uma meia dúzia de outros idiomas).

Em um dado momento do jantar, Mario Balotelli apareceu na calçada ao lado da nossa mesa e começou a acenar na nossa direção. Ele voltava de uma reunião com a UEFA, em que havia sido julgado e absolvido por algumas das muitas besteiras que fez em sua carreira. Estava feliz e sabia que Mino estava reunido com um potencial patrocinador.

Eu achei que aquele encontro era premeditado e que ele tentaria me “vender” o atacante italiano.

Ao entrar no restaurante, fomos apresentados por Mino. “Mario, esse aqui é o Ricardo Fort, da Coca-Cola (empresa em que eu trabalhava nessa época). Estamos discutindo como podemos trabalhar juntos”.

“Eu amo a Coca-Cola!”, disse Balotelli, rindo.

Para minha surpresa, Mino retrucou “Pode esquecer. Não tem a menor chance de dar certo com você. Você é muito encrenqueiro para trabalhar com eles”, respondeu o agente, também rindo.

Balotelli riu novamente e se mandou. Deve ter ido jantar em algum outro restaurante, pois não o vi mais naquela noite.

Entendi que eu não era o único que havia me preparado para aquele jantar. Mino conhecia Balotelli como ninguém, sabia quais marcas ele poderia trabalhar bem e quais não funcionaria. Sabia, antes de me conhecer, que dinheiro nenhum no mundo faria aquela parceria funcionar para a Coca-Cola. Por isso, cortou o assunto antes que ele começasse.

Naquele jantar, falamos também de como sua empresa administrava a carreira de seus atletas, como os ajudava a pensar cada passo e cada transferência, como cuidava do seu dia a dia – das famílias à alimentação e muito mais – para que eles se preocupassem só com o futebol. Falamos sobre parcerias de sucesso e outras que não funcionariam jamais, como a que queria Mario Balotelli.

O jantar não resultou em nenhum contrato de patrocínio, mas saí de lá com uma opinião diferente do que um bom agente faz. Entendi que bons agentes trabalham para seus jogadores e para ninguém mais, que as críticas dos clubes não interessavam e que bons agentes pensam em carreiras no longo prazo, mesmo que isso leve a não assinar um contrato de patrocínio.

Depois daquele dia em Mônaco, ainda nos falamos e nos encontramos algumas vezes. Sempre muito divertido. Sempre disposto a ajudar. Sempre memorável. Mino Raiola morreu há poucos dias em Milão, aos 54 anos. As homenagens feitas pelos seus jogadores são a prova final de que seu trabalho não foi em vão.

Este artigo é a minha forma de agradecê-lo.

Ricardo Fort é CEO da consultoria SportByFort e escreve mensalmente na Máquina do Esporte