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Erich Beting - São Paulo (SP)

Erich Beting

3 min de leitura

Análise

Clubes transformam projeto de liga do Brasileirão em Frankenstein

Direitos fatiados, empréstimos garantidos e nenhum pensamento conjunto mostram a realidade do futebol no país

Erich Beting - São Paulo (SP) • Colunista

18/03/2024 06h45

Membros da Libra posam para foto após reunião em um hotel na zona sul de São Paulo (SP) - Divulgação / Libra

⚡ Máquina Fast
  • A criação da liga para organizar o Brasileirão 2025-2029 fracassou por falta de união e gestão entre os clubes.
  • Clubes da Liga Forte União venderam 20% dos direitos de mídia por 50 anos, desvalorizando seu produto por dinheiro imediato.
  • O Brasileirão será um torneio fragmentado, com direitos comerciais e publicidade divididos entre diversos agentes sem padrão unificado.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Durante três anos, os clubes de futebol do Brasil discutiram a criação de uma liga para representar seus interesses comerciais e organizar o Campeonato Brasileiro. Durante todo esse tempo, propostas mirabolantes, jogos de cena, empréstimos garantidos e cessões de direitos a preços irrisórios minaram qualquer tentativa de união dos clubes e transformaram o que seria um projeto de liga em um verdadeiro Frankenstein.

O Brasileirão do ciclo 2025-2029 será um torneio de todos. E de ninguém.

Até agora, a única certeza que existe é de que a Globo transmitirá os jogos de alguns clubes da Série A. Não se pode dizer ao certo quantos serão. Talvez nove, ou mais, ou menos. A Libra fechou um acordo que hoje engloba oito equipes. E isso deu um norte para o que deve acontecer na discussão da venda de direitos do torneio.

Para além disso, outro fato consumado é que os clubes da Liga Forte União (LFU), precisando de dinheiro, venderam 20% dos seus direitos de mídia, por 50 anos, para fundos de investimentos. Em troca da cessão dos direitos, receberão por ano o equivalente a 3% do que recebem hoje de mídia do Brasileirão. Ou seja. Desvalorizaram o produto para pegar um dinheiro na mão e queimar em contratações e inchaço de folha de pagamento.

Outra aberração do Brasileiro é o fato de que as placas de publicidade estática, que, em toda e qualquer competição, são vendidas pelo detentor dos direitos do evento em projetos de patrocínio, também são de todos. E de ninguém. Alguns clubes já assinaram com a Brax a cessão desses direitos, sendo o Bahia o novo integrante da lista. O Palmeiras está com a Sports Hub. E ainda há uma porção de clubes sem qualquer acordo.

O Brasileirão, enfim, será um torneio que terá propriedades distintas sendo negociadas por diferentes empresas e clubes. Sem qualquer padrão de comunidade visual, sem qualquer entendimento de que o bolo sempre será maior se todos se preocuparem em trazer todos os ingredientes para a mesa e, juntos, colocarem a massa no forno.

O futebol brasileiro está sem dinheiro, sem projeto e sem propósito. Por incrível que pareça, isso acontece no momento em que alguns clubes do país estão faturando como nunca. O problema é que outros clubes também devem como nunca. E precisam pagar de algum jeito essa dívida.

Enquanto não houver comprometimento com a gestão, os clubes estarão fadados a fazer uma colcha de retalhos para tentar organizar suas contas. E o remendo da vez foi pegar o projeto de liga do Brasileirão e transformá-lo em um produto de vários donos.

Isso nunca deu certo.

Até 2029, pelo menos, continuaremos a ver um Brasileirão que tinha potencial para ser enorme. Terminará como sempre é. Um campeonato de bairro, organizado por amadores e sem qualquer noção de que o bolo de dinheiro que entra hoje poderia ser muito maior se houvesse, no mínimo, noção de como gerenciar o futebol.

O cavalo passou selado mais uma vez. Quando ele voltará?

Erich Beting é fundador e CEO da Máquina do Esporte, além de consultor, professor e palestrante sobre marketing esportivo

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