No último dia 12 de dezembro, a Fifa atualizou o ranking mundial de futsal. O Brasil aparece no topo nas duas frentes, masculina e feminina. Um dado que confirma, em números, o que as quadras já vinham mostrando. O país é o atual campeão das duas Copas do Mundo da modalidade: no Uzbequistão, entre os homens, e nas Filipinas, onde as mulheres conquistaram um título inédito e histórico.
A liderança não surge por acaso. Poucos dias antes da divulgação do ranking, a seleção feminina havia vencido Portugal por 3 a 0 na final do Mundial. A imagem da capitã brasileira erguendo o troféu ao lado das companheiras rapidamente se tornou o retrato definitivo do torneio. Um gesto carregado de significado. Ele eterniza o Brasil como o primeiro campeão da história da competição e, ao mesmo tempo, revela, mesmo sem querer, um contraste que o esporte insiste em produzir: o sucesso no palco global e a invisibilidade de regiões onde a profissionalização esportiva ainda é distante, quase abstrata.
Te mostro como.
A trajetória de Taty, nossa “faixa”, ilustra esse contraste. Nascida em Orleans, no interior de Santa Catarina, ela cresceu em uma família de agricultores. Para treinar, ainda adolescente, saía sozinha em uma moto antiga dos irmãos mais velhos. Pedia gasolina a vizinhos ao longo do caminho e seguia viagem da roça até a cidade, do jeito que dava. Quando o combustível acabava, pedia novamente e continuava.
O futsal surgiu ali, de forma quase espontânea. Jogos aos fins de semana, entre irmãos, parentes e outras meninas da comunidade. Não havia planos de carreira nem referências consolidadas. Às vezes, nem mesmo o apoio integral da família. Jogava porque gostava. A escola tinha quadra, e isso já era motivo suficiente para querer frequentar as aulas. O esporte ainda não aparecia como projeto de vida, muito menos como possibilidade concreta de futuro.
Então, a necessidade de tomadas de decisão difíceis começou a surgir. Aos 13 anos, ela precisou escolher entre permanecer na zona rural ou se mudar para a cidade para seguir jogando. Optou pelo futsal na cidade, sempre com o suporte incondicional da mãe. Anos depois, essa escolha se transformaria em acesso e sucesso. São 16 anos vestindo a camisa da seleção brasileira e uma trajetória que também inclui a formação em Educação Física (a única da família a terminar os estudos), além de uma vida na Itália. O esporte abriu caminhos que dificilmente se abririam de outra forma.
De volta às Filipinas.
Durante a cobertura da Copa do Mundo pelo Fifa+, fui testemunha de um episódio nos bastidores que traduziu imediatamente, pelo menos para mim, o tamanho da relevância do troféu de campeão. Aquele pode ter sido um dos momentos mais impactantes de todo o Mundial, porque representou a maior parte das jogadoras que entraram em quadra nos últimos anos em todo o mundo.
Na véspera da final, uma ativação reuniu as capitãs de Brasil e Portugal para uma foto oficial com a taça na quadra. Ao entrar no ginásio e perceber o objeto “sagrado”, Taty se emocionou, virou de costas e deixou o espaço em silêncio, com lágrimas no rosto. Ela simplesmente não conseguiu chegar perto da Copa. Não houve discurso nem encenação. O símbolo falava por ela.
Minutos depois, recomposta, voltou caminhando para cumprir as obrigações de mídia. Questionada sobre o que havia sentido naquele primeiro contato com a taça, ela me contou que aquele objeto não carregava apenas um sonho individual, mas o de uma modalidade inteira. E que desejava que todas as meninas do Brasil pudessem enxergar, com os próprios olhos, o sonho que por tanto tempo parecia distante.
É nesse ponto que os troféus deixam de ser apenas um fim esportivo. No esporte, taças não funcionam só como recompensa ou objeto de celebração. Quando existe história e contexto fortes como esse, elas se tornam símbolos culturais. Condensam trajetórias pessoais, decisões políticas, falhas estruturais, avanços coletivos e expectativas futuras.
O valor do metal está menos no brilho e mais no que ele consegue carregar. É por isso que troféus importam tanto. Porque, às vezes, são eles que tornam visível aquilo que passou tempo demais sendo tratado como improvável.
O artigo acima reflete a opinião do colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Raiana Monteiro é jornalista e atual coordenadora de conteúdo do Fifa+, a plataforma de streaming da Fifa. Na carreira, já atuou como coordenadora de comunicação de esportes olímpicos do Flamengo, diretora de relações públicas do Vasco e ainda teve passagens pelo Grupo Globo e pela agência In Press Media Guide
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