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Futebol inglês vê saúde financeira ameaçada por inflação salarial e projeção de prejuízo

Relatório "Annual Survey of Football Finance Directors 2025" consultou diretores financeiros das principais ligas do país

Liam Delap comemora gol marcado pelo Chelsea em partida contra o Fulham pela Premier League - Divulgação

O futebol profissional inglês vive um momento de dicotomia financeira. Ao mesmo tempo em que a Premier League registra receitas recordes de £ 6,4 bilhões, impulsionadas por novos acordos de direitos de transmissão, a saúde econômica dos clubes apresenta sinais de deterioração.

A conclusão é da “Annual Survey of Football Finance Directors 2025”, pesquisa realizada pela BDO que consultou diretores financeiros das principais ligas do país. O estudo revela que o custo da competitividade tem forçado as equipes a operar em modelos deficitários, com uma dependência cada vez maior de injeção de capital externo.

A pesquisa aponta que a inflação salarial continua sendo o principal desafio para a sustentabilidade do setor. Clubes da Premier League que terminaram entre a 8ª e a 17ª posições na última temporada gastaram, em média, £ 168 milhões apenas em salários, o que representa cerca de 69% de suas receitas.

A situação é ainda mais crítica na Championship, a segunda divisão inglesa. Na tentativa de buscar o acesso à elite, a média salarial dos clubes atingiu £ 37 milhões, com uma relação entre salários e faturamento que frequentemente ultrapassa os 90%.

Prejuízo

O cenário de gastos elevados resulta em balanços no vermelho. Segundo o levantamento, mais de 90% dos clubes consultados esperam ter prejuízos operacionais antes dos impostos em 2025, mesmo considerando os lucros obtidos com a venda de jogadores.

Como consequência direta, quase nove em cada dez clubes afirmam que necessitarão de financiamento dos acionistas em um futuro próximo para manter suas operações.

Investidores

O relatório também destaca uma mudança significativa no perfil dos investidores. O capital norte-americano consolidou sua presença, sendo majoritário em mais da metade dos clubes da Premier League no início da temporada 2025/2026.

Além disso, há um movimento claro de busca por ativos desvalorizados nas divisões inferiores e no futebol feminino, vistos como oportunidades de crescimento a longo prazo.

O modelo de multipropriedade de clubes também se expandiu, abrangendo atualmente dois terços dos times da Premier League e um terço de todos os clubes profissionais ingleses.

Futebol feminino

No futebol feminino, o setor vive um período de valorização comercial e técnica. A janela de transferências do verão de 2025 quebrou o recorde de taxas de transferência, superando a barreira de £ 1 milhão pela primeira vez.

Apesar disso, a independência financeira ainda é um desafio. Cerca de 60% das equipes femininas relataram que empréstimos intercompanhia e contribuições dos times masculinos afiliados permanecem como uma fonte essencial de financiamento.

A eficiência dos gastos também foi colocada em xeque. Uma análise da Twenty First Group, incluída no relatório, sugere que a correlação entre o valor gasto em salários e o sucesso em campo é de apenas 57% nas principais ligas europeias.

Regulador

O cenário já é conhecido pela Autoridade Reguladora do Futebol Inglês. O órgão, criado pelo governo britânico para supervisionar a gestão do esporte na Inglaterra, produzirá um relatório para avaliar a solidez financeira da pirâmide do esporte no país.

Entre os fatores analisados estão a verificação da solidez dos balanços, os níveis de endividamento, a liquidez diária das equipes e o impacto inflacionário dos salários de jogadores na saúde financeira das equipes.

Enquanto isso, a Premier League vota novas regras financeiras, como o “Squad Cost Ratio”, que limita gastos com elenco a uma porcentagem da receita. Marca-se, portanto, um momento de transição para uma governança mais rígida.

O objetivo é evitar que a busca desenfreada pelo sucesso esportivo resulte em insolvência financeira, protegendo a integridade das competições e o patrimônio histórico dos clubes.