O mês de janeiro ainda nem acabou e já perdi a conta de quantas vezes ouvi a mesma frase em reuniões de mercado:
“Esse ano tem Copa e Eleições”.
A frase quase nunca vem sozinha. Ela costuma aparecer como explicação para cautela excessiva, adiamento de decisões ou falta de ambição, como se o calendário esportivo e político colocasse o país em compasso de espera, como se nada relevante pudesse, ou devesse, acontecer fora desses dois grandes eventos.
Entender o ambiente macro é obrigação de qualquer profissional. Ignorá-lo seria ingenuidade, mas transformar Copa e Eleições em desculpa para paralisia é outra coisa. Essa, sim, é uma escolha com consequências, especialmente para quem não está diretamente envolvido com a organização da Copa do Mundo ou com o processo eleitoral.
O esporte segue mudando, com ou sem Copa, e os dados deixam isso claro.
Projeções recentes presentes em um estudo da SIG indicam que a indústria global do esporte deve alcançar US$ 862 bilhões anuais até 2033, crescendo cerca de 7% ao ano. O otimismo é alto: 71% dos fãs e 74% dos profissionais acreditam em um futuro positivo para o setor, ao mesmo tempo em que 67% dos fãs acreditam que assistir esporte ao vivo será um luxo dentro de cinco anos.
Ou seja, o esporte cresceria como indústria, mas correria o risco de encolher como experiência cultural compartilhada. Essa tensão ajuda a explicar uma das principais tendências que já estão em curso: acessibilidade virou tema central de negócio. Entre todas as faixas etárias, o custo aparece como a maior preocupação dos fãs: não por acaso, 58% consideram socialmente aceitável recorrer à pirataria para acompanhar esportes, apontando o preço das assinaturas como motivo principal.
A pirataria, nesse contexto, deixa de ser um problema tecnológico e entra no campo do desalinhamento entre preço, valor percebido e acesso, o que se conecta diretamente aos debates sobre direitos de mídia, distribuição, plataformas próprias e novos modelos de relacionamento e monetização do fã.
O mercado endereçável total (TAM) do esporte é estimado em US$ 2,5 trilhões, cinco vezes maior do que o mercado restrito a ligas e clubes. O valor não está só no jogo, mas na capacidade de monetizar atenção, dados, comunidade e recorrência. Patrocínio deixou de ser exposição e passou a ser ecossistema.
Outro sinal claro de mudança está na abertura do público à ruptura. 52% dos fãs mais jovens apoiariam uma liga alternativa se ela oferecesse mais transparência, acesso ou entretenimento, enquanto que 51% acreditam que ligas dissidentes são necessárias para a evolução do esporte.
E mais: entre fãs de 25 a 34 anos, 67% acreditam que o esporte mais assistido em 2040 ainda nem existe. Se é assim, o maior risco para as organizações tradicionais não é errar, é não experimentar.
Nesse mesmo movimento, o esporte feminino aparece como um dos ativos mais claramente “subprecificados” do mercado. Mais da metade dos profissionais do setor afirma que ele já entrega mais valor para as marcas do que esportes masculinos de segunda linha. O gargalo não está na demanda, mas em investimento, estrutura e continuidade. A pesquisa afirma que, para os fãs, o esporte feminino é percebido como mais inclusivo, inspirador e alinhado aos valores contemporâneos.
Nem mesmo as agendas de ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança) escapam dessa lógica. 72% dos fãs acreditam que o esporte tem mais responsabilidade social do que outras indústrias, e 27% afirmam ter mudado de comportamento após campanhas lideradas por entidades esportivas. Ao mesmo tempo, o maior risco percebido é o “greenwashing”, a famosa seleção conveniente de boas histórias sem impacto real. Propósito só gera valor quando vira impacto mensurável, não narrativa confortável.
A tecnologia segue o mesmo princípio. Há consenso de que dados, inteligência artificial (IA) e novas ferramentas podem melhorar a experiência, otimizar operações e gerar eficiência. Mas existe também um alerta claro: não eliminar o fator humano, a imprevisibilidade e a emoção, que são a essência do esporte.
Diante desse cenário, o “modo espera” parece cada vez menos defensável. Profissionais do esporte não são espectadores do ambiente, são agentes dentro dele. Se você não está diretamente envolvido com Copa ou Eleições, sua obrigação não é esperar o ano passar, mas entender as transformações da indústria, identificar para onde o valor está migrando e encontrar o espaço para seguir crescendo. Copa passa, Eleições passam, mas transformações estruturais não.
E vale lembrar: o 2026 da Copa e das Eleições está só começando, mas 2027 tem Copa do Mundo Feminina no Brasil e mais transformações pela frente.
Assim, a pergunta que fica é simples e incômoda: você vai encarar isso como problema ou oportunidade?
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Ivan Martinho é presidente da World Surf League (WSL) na América Latina
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