Não é novidade que os clubes de futebol também estão de olho no crescimento exponencial das corridas de rua. No entanto, no mês passado, o Paris Saint-Germain foi além do que tem sido comum e usou a modalidade para dar mais um passo agressivo na sua consolidação como marca global de lifestyle ao anunciar o PSG Running.
A iniciativa consiste em um programa globalizado de comunidade que reativa a prova física “We Run Paris”, marcada para junho de 2026, e pretende unir eventos físicos, engajamento digital e ativações de marca, começando estrategicamente por Londres (Inglaterra).
A capital inglesa é uma das cidades mais globais do mundo e um dos mercados de futebol mais competitivos (com sete clubes na Premier League). Por isso, o PSG tentou competir pelo interesse dos amantes de futebol entrando pela porta da cultura. A estratégia segue o movimento que teve início com a inauguração da loja na Oxford Street (o primeiro espaço de varejo permanente no Reino Unido de um clube de futebol não britânico), em 2023, e foi sacramentado com a recente loja pop-up “Ici C’est Paris – La Maison“, que une esporte, moda e bem-estar no centro londrino e logo viajará para Tóquio (Japão), Xangai (China) e Los Angeles e Nova York (EUA).
Por que a estratégia do PSG é diferente?
O clube entendeu que a corrida de rua pode ser um ponto de contato integrado com um ecossistema de aquisição de clientes, ao invés de apenas um evento isolado. Podemos dizer que o diferencial da operação, feita em parceria com a Nike, se apoia em três pontos:
- A “mina de ouro” dos dados (IRL x Digital): O programa fomenta clubes de corrida físicos globalmente, amarrados no clube de corrida do clube dentro do aplicativo Strava, lançado agora em março, trocando curtidas e desafios virtuais por dados primários (first-party data) que valem ouro para os patrocinadores. Ou seja, é o digital alimentando a experiência física (e vice-versa).
- Posicionamento de lifestyle: Seguindo na onda da moda com parcerias com Jordan e Blackpink, entre outras marcas, a corrida atrai um público-alvo qualificado (demografia de Classes A e B, com alto poder de consumo de tecnologia e equipamentos), que tem baixa barreira de entrada para a prática, normalmente diária, do running.
- Autenticidade local: O clube escolheu Mo Farah, tetracampeão olímpico, como embaixador no Reino Unido, gerando credibilidade imediata e fornecendo conteúdo educacional útil para a comunidade.
O cenário brasileiro: Sucesso nas ruas, mas focado no evento
A união entre camisa de time e tênis de corrida também não é novidade por aqui. O Brasil vive um boom do setor, com o mercado movimentando bilhões anualmente, atraindo especialmente a Geração Z e mulheres, além de marcas de diversos segmentos.
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Provas com nomes, digamos, pouco criativos, como Timão Run, Tricolor Run, Galo Run, Palmeiras Run, Fla Run e por aí vai, costumam ser grandes sucessos, com inscrições que se esgotam rapidamente. No entanto, as nossas corridas parecem se apoiar quase exclusivamente na experiência (a prova termina na beira do gramado ou dentro do estádio) e na receita direta, já que a venda de inscrições (kits) e os patrocínios pontuais geram um caixa rápido e limpo para o clube.
A engrenagem: O que o mercado pode aprender?
As corridas dos clubes brasileiros são um sucesso transacional (o foco é vender o kit, realizar o evento físico e encerrar o ciclo), mas o movimento do PSG mostra que o próximo passo evolutivo para os nossos times é tornar isso relacional. Há uma oportunidade gigantesca e inexplorada para transformar os milhares de inscritos anuais dessas provas em comunidades digitais permanentes.
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