Quando uma relação promissora termina de forma traumática, o lado que saiu com o coração partido quase sempre se fecha a novas oportunidades.
Em setembro de 2022, o Vasco se entregou de corpo e alma à investidora norte-americana 777 Partners.
Torcedores e dirigentes acreditaram que era para valer, sem fazer ideia de que, antes mesmo de concluída a fase de lua de mel, o grupo multiclubes entraria em falência, deixando o Gigante da Colina em uma situação financeira ainda mais complicada do que antes da venda Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
Ao que tudo indica, as feridas deixadas pela antiga parceria cicatrizaram e o Vasco resolveu se abrir de vez para uma nova chance.
A diretoria do clube associativo, comandada pelo ex-jogador Pedrinho, encaminha a venda da SAF para o investidor Marcos Faria Lamacchia, dono da corretora Blue Star (com sede na Faria Lima, em São Paulo) e que vem a ser ninguém menos que o filho do banqueiro José Roberto Lamacchia e, portanto, enteado de Leila Pereira, atual presidente do Palmeiras (e que, por coincidência, é torcedora do Vasco).
A informação foi divulgada originalmente pelo portal G1 e confirmada pela Máquina do Esporte. Os valores devem ultrapassar R$ 2 bilhões e envolveriam a compra de 90% do capital da SAF.
O clube não se manifesta oficialmente sobre o assunto. Mas a reportagem apurou que a expectativa interna é de que os aportes ultrapassem o mínimo que está sendo atualmente divulgado.
O que atraiu o Vasco
Alguns fatores foram decisivos para que o Vasco fechasse com Lamacchia. A começar pela relação que o clube estabeleceu no ano passado com a Crefisa, fundada pelo pai de Marcos e comandada por Leila.
A companhia financeira fechou acordo para emprestar R$ 80 milhões ao clube, que já estava em recuperação judicial. Os recursos serviriam para pagar salários, fornecedores e obrigações trabalhistas e fiscais do Vasco.
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Para obter esse financiamento, a diretoria ofereceu como garantia 20 mil ações ordinárias de classe A, que pertencem à associação e correspondem a 20% do capital da SAF.
A Crefisa só assumiria o controle efetivo dessas ações em caso de inadimplência do clube. Por outro lado, ela passaria a ter o poder de autorizar ou vetar a eventual venda da SAF.
Além desse socorro oferecido em um momento difícil do clube, o perfil de Marcos Lamacchia tem boa aceitação dentro do Vasco.
O empresário paulista é visto internamente como um investidor estratégico, que estaria disposto a promover o crescimento do clube, especialmente na área esportiva.
E não alguém que compraria a SAF apenas com o objetivo de valorizar esse ativo de revendê-lo posteriormente.
777 Partners e A-CAP
A venda da SAF é um desejo tanto de Lamacchia quanto da diretoria cruz-maltina. Em tese, essa negociação poderia enfrentar alguma resistência por parte A-CAP, principal credora 777 Partners e que se tornou controladora do grupo norte-americano.
A 777 fechou negócio para adquirir 70% do capital da SAF e chegou a integralizar inicialmente 31% das ações, mediante um pagamento de R$ 310 milhões.
Em meados do ano passado, enquanto surgiam ao redor do mundo notícias sobre as dificuldades financeiras enfrentadas pela investidora, o clube exigiu que ela apresentasse garantias de que conseguiria honrar com o aporte de R$ 370 milhões, relativo aos outros 39% das ações.
A questão envolvendo os 39% do capital hoje está sendo debatida em uma câmara de arbitragem.
No cenário atual, seria improvável que a A-CAP tivesse interesse em participar da gestão da SAF do Vasco ou mesmo tentar prosseguir no negócio. Numa eventual venda, ela teria a chance de recuperar parte do capital investido. Portanto, seriam pequenas as chances de ela se opor ao negócio.
Para que a venda da SAF ocorra, ela precisa ser aprovada pelas instâncias internas do Vasco, incluindo o Conselho Deliberativo.
