O Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou o banimento de atletas transgênero em competições femininas a partir dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. A medida limita a participação nessas provas a mulheres biológicas, utilizando a triagem do gene SRY como critério técnico de elegibilidade.
A decisão foi fundamentada em um processo de revisão científica e jurídica iniciado em setembro de 2024. Durante coletiva de imprensa, ao qual a Máquina do Esporte participou, a presidente do COI, Kirsty Coventry, descartou que a decisão tenha sido tomada por pressão política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anfitrião de Los Angeles 2028.
“Muitos de vocês me conhecem bem e me acompanharam durante a campanha [eleitoral à presidência do COI] e sabem que isso era uma prioridade para mim muito antes de o presidente Trump iniciar seu segundo mandato [em 2025]”, argumentou Kirsty Coventry, durante a coletiva.
“Portanto, não houve qualquer pressão externa ao Movimento Olímpico para entregarmos nada. Isso foi claramente impulsionado exatamente pelo que Jane [Thornton, diretora médica e científica do COI] acabou de dizer. As coisas evoluíram e precisamos garantir que estamos acompanhando essa evolução”, completou.
Biologia
A diretriz baseia-se no fato de que o sexo masculino proporciona vantagens competitivas em modalidades que dependem de força, potência e resistência muscular. Segundo Jane Thornton, o gene SRY, localizado no cromossomo Y, é o marcador mais preciso para identificar o desenvolvimento sexual masculino.
“A triagem do gene SRY por meio de saliva, esfregação bucal ou amostra de sangue é minimamente invasiva. A presença deste gene é fixa e fornece evidências melhores do sexo biológico do que a medição dos níveis de testosterona, que são variáveis e podem sofrer alterações”, explicou Jane.
A pesquisa, conduzida pelo Grupo de Trabalho para a Proteção da Categoria Feminina do COI, indicou que a vantagem masculina no nível de elite varia entre 10% e 12% em provas de corrida ou natação, chegando a 20% em eventos de lançamentos e saltos.
Em esportes que envolvem força explosiva, como levantamento de peso e esportes de combate, a diferença pode exceder 100%.
“Como ex-atleta, acredito fervorosamente no direito de todos os atletas olímpicos de participarem de competições justas. A política que anunciamos é baseada na ciência e foi liderada por especialistas médicos”, defendeu a presidente do COI.
“Nos Jogos Olímpicos, até as menores margens podem significar a diferença entre a vitória e a derrota. Portanto, é absolutamente claro que não seria justo que homens biológicos competissem na categoria feminina. Além disso, em alguns esportes, isso simplesmente não seria seguro”, acrescentou a dirigente.
Atletas
Para a elaboração da norma, o COI consultou mais de 1.100 atletas por meio de pesquisas online, além de realizar entrevistas individuais com competidores potencialmente impactados.
Segundo o comitê, o resultado da pesquisa indicou um consenso sobre a necessidade de regras claras para preservar a equidade e a segurança. A política estabelece que o teste genético será realizado apenas uma vez na vida do atleta, a menos que haja suspeita de erro no resultado.
Kirsty Coventry reforçou que a motivação pessoal para a mudança veio da busca por igualdade no campo de jogo.
“As duas razões para mim, foram a segurança no campo de jogo e a justiça. E isso realmente, eu acho que uma das coisas que gostamos de ver, especialmente no esporte, é o tratamento justo e igualitário de todos”, argumentou a dirigente, durante a entrevista.
“Então, para mim, essas foram as razões pessoais que me motivaram. E, sabendo das sensibilidades em torno deste assunto, isso não era suficiente. Precisávamos garantir que estávamos sendo guiadas pela medicina e pela ciência nesta área específica. Não foi apenas um sentimento que seguimos”, completou.
Definições
A resolução do COI diferencia o sexo biológico da identidade de gênero. O sexo é definido como uma das duas categorias (masculino ou feminino) baseadas na biologia reprodutiva, enquanto a identidade de gênero refere-se ao senso individual de ser homem, mulher ou não binário.
“Enquanto o sexo biológico não muda e não pode mudar, a identidade de gênero de uma pessoa pode mudar ao longo da vida. Um indivíduo transgênero é aquele cuja identidade de gênero é diferente do seu sexo biológico”, afirma Jane.
A política prevê uma exceção para atletas com Síndrome de Insensibilidade Androgênica Completa (SIA) ou outros distúrbios raros de desenvolvimento sexual (DDS) em que o corpo não se beneficia dos efeitos anabólicos da testosterona.
“Uma mulher biológica seria, portanto, uma pessoa que, independentemente do sexo legal, gênero ou identidade de gênero, apresentou desenvolvimento sexual feminino, geralmente baseado em cromossomos XX, ovários e hormônios estrogênicos”, define Jane.
Abrangência
A nova política não terá efeito retroativo .Portanto, não atinge atletas que tenham competido nos Jogos de Paris 2024, por exemplo. Também não se aplica ao esporte recreativo ou às categorias de base.
O COI enfatizou que sua jurisdição se limita aos Jogos Olímpicos, Jogos Olímpicos da Juventude e torneios de qualificação olímpica.
“na criação da política, tivemos que ser muito claros conosco sobre o que está em nosso controle, o que está em nossa alçada. E o grupo de trabalho foi muito claro. Nossos parceiros também tinham muita clareza de que se tratavam de eventos olímpicos”, afirmou Kirsty.
As Federações Internacionais de cada modalidade e os Comitês Olímpicos Nacionais serão responsáveis pela implementação da triagem e pela educação de suas equipes. O COI oferecerá apoio por meio de workshops e seminários para garantir que o processo respeite a privacidade e a saúde mental dos atletas.
