Se o basquete brasileiro tivesse um rosto, seria o de Oscar Schmidt. Esse esporte, que teve outros grandes ídolos no país, despede-se nesta sexta-feira (17) daquele que foi, sem dúvida, o nome responsável por popularizar a modalidade no território nacional.
“Mão Santa”, como era conhecido, tinha 68 anos de idade e estava internado no Hospital e Maternidade Santa Ana, em Santana do Parnaíba, após passar mal. A causa de sua morte não foi divulgada.
Em 2011, Oscar foi diagnosticado com um tumor no cérebro. Mais tarde, em 2022, o ex-jogador anunciou que estava curado do câncer.
No país do futebol, em que a atenção do grande público costuma estar quase que inteiramente voltada aos atletas que atuam com bola nos pés, “Mão Santa” soube aliar carisma e talento para se tornar uma celebridade de status nacional.
A fama garantiu a ele desde a participação recorrente em programas de TV, não apenas esportivos, mas também de entretenimento, vide sua escolha para integrar o elenco da primeira edição do quadro “Dança dos Famosos”, do antigo Domingão do Faustão, em 2005.
Com esse status de celebridade, Oscar chegou a se arriscar na política, disputando uma vaga no Senado Federal por São Paulo, na chapa encabeçada pelo candidato a governador Paulo Maluf. Acabou sendo derrotado pelo até então imbatível Eduardo Suplicy, que já tinha mandato.
Ainda assim, o ídolo do basquete obteve 5,7 milhões de votos, número que não o animou para seguir pela carreira política, o que aparenta ter sido uma escolha sábia.
A recusa à NBA e glória no Pan de 87
Nascido em Natal (RN) e filho de um militar de ascendência alemã, Oscar iniciou sua trajetória no basquete no estado de São Paulo, atuando na juventude por clubes como Palmeiras e Mackenzie.
Em 1975, seria promovido para os profissionais da equipe alviverde. Três anos depois, foi jogar no Sírio, integrando o lendário elenco campeão brasileiro, sul-americano e mundial, na temporada de 1979.
Na época em que o jovem Oscar começou a se destacar nas quadras, o basquete tinha uma organização diferente da atual.
Globalmente, a modalidade era estruturada como amadora, mesmo contando com jogadores profissionais.
A exceção ficava por conta da National Basketball Association (NBA), dos Estados Unidos, que era considerada profissional.
À medida em que brilhava nas competições brasileiras, Oscar passou a chamar a atenção das equipes internacionais. E foi assim que, em 1982, ele foi contratado pelo italiano JuveCaserta (hoje chamado Deco Caserta, mas que à época era conhecido como Indesit Caserta, nos dois casos por questões de naming rights).
Em 1990, ele iria para o Pavia, também da Itália, onde permaneceu até 1993, para depois fechar com o Forum Valladolid, da Espanha, até retornar ao Brasil em 1995, defendendo o Corinthians, clube do qual chegou a se declarar torcedor, embora pessoas próximas garantissem que, na verdade, seu coração era santista.
As gerações mais jovens talvez se questionem como é possível que um jogador tão talentoso e promissor jamais tenha despertado interesse de equipes da NBA.
O fato é que Oscar não apenas chamou a atenção, como esteve em vias de atuar na maior liga de basquete do mundo.
Em 1984, ele foi selecionado pelo New Jersey Nets (atual Brooklyn Nets), na sexta rodada do draft. As normas da Federação Internacional de Basquete (Fiba), porém, barravam a participação de profissionais nas competições oficiais da entidade.
A proibição vigorou até 1989. Foi graças ao fim dela que os Estados Unidos passaram a enviar aos Jogos Olímpicos os chamados “Dream Teams”, formados pelas principais estrelas da NBA, a partir da edição de Barcelona, em 1992.
Se fechasse com a equipe norte-americana, Oscar ficaria impedido de defender a seleção brasileira de basquete.
Com isso, o mundo não teria presenciado uma das maiores glórias desse esporte no país em todos os tempos, a conquista da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Indianópolis de 1987, com Oscar liderando a seleção verde e amarela na vitória por 120 a 115 sobre os donos da casa, que vinham com um time formado por atletas universitários promissores e com carreiras já engatilhadas na NBA (caso de David Robinson, que integrou o Dream Team de 1992 e já tinha status de primeira escolha no draft da liga).
“Mão Santa” marcou 46 pontos na partida, com sete cestas de três em um total de 15 tentativas.
Naquele ano, a imprensa dos Estados Unidos chegou a repercutir a possibilidade de Oscar vir a ser contratado pelo Miami Heat, que acabara de ser criado. Mas a ideia nunca avançou.
O brasileiro jogaria pela NBA apenas em 2017, no Jogo das Celebridades do All-Star Game. Nos minutos em que permaneceu em quadra, acertou dois arremessos de dois pontos cada, que ajudaram a equipe do Leste a derrotar a do Oeste por 88 a 59.
Oscar seguiu defendendo a seleção brasileira até 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, com um total de 326 partidas e 7.693 pontos.
É, até hoje, o maior cestinha da história do basquete em Olimpíadas, com 1.093 pontos.
A recusa à carreira promissora no basquete mais rico do mundo, para poder continuar defendendo as cores do Brasil, serviu para reforçar o status de ídolo de Oscar.
Mesmo que as glórias já não se repetissem em quadra, à medida em que o ídolo envelhecia, a aura em torno do jogador só crescia, ajudando a popularizar a modalidade junto a diferentes públicos.
Tanto que, assim que sua morte foi confirmada, até mesmo clubes de futebol pelos quais Oscar jamais atuou (como São Paulo e Santos) fizeram questão de reverenciá-lo nas redes. Homenagem que também foi feita na conta oficial Pelé, em que o maior craque brasileiro com a bola nos pés aparece abraçado ao “Mão Santa”.
Palestrante motivacional
Depois de desistir da política, Oscar seguiu por um tempo nas quadras, defendendo equipes brasileiras, especialmente o Flamengo, onde encerrou a carreira em 2003, após alcançar o status de maior pontuador da história do basquete mundial, com 49.973 pontos (foi superado recentemente por LeBron James).
O ex-jogador soube aproveitar a fama, o prestígio e o carisma construídos ao longo de três décadas para se enveredar por novos negócios.
Um dos principais foi atuar como palestrante motivacional. De acordo com o site oficial do ex-atleta, ele participou de mais de 1 mil eventos desempenhando essa função, tendo atendido mais de 600 clientes.
Oscar também firmou diversas parcerias publicitárias no decorrer da carreira e mesmo depois de se aposentar das quadras.
Em 1999, por exemplo, protagonizou um comercial encomendado pela Prefeitura de Curitiba (PR), que buscava conscientizar os moradores sobre o descarte correto de lixo.
No vídeo, atores que interpretavam pessoas comuns repetiam movimentos icônicos feitos por jogadores de basquete em quadra, antes de arremessar os objetos descartáveis nas lixeiras da capital paranaense.
Mais recentemente, em 2017, ele protagonizou a campanha intitulada “The Debut”, produzida para a ESPN e a Budweiser, que aborda justamente sua recusa à NBA, para poder seguir defendendo a seleção brasileira. O vídeo faturou o Leão de Ouro no Festival de Cannes daquele ano.
