A Adidas venceu a Nike na disputa pela primeira maratona oficial completada em menos de duas horas. Na Maratona de Londres, disputada neste domingo (26), os dois primeiros colocados da categoria masculina quebraram a marca de 2h utilizando o Adizero Adios Pro Evo 3, novo tênis da Adidas. O queniano Sabastian Sawe venceu a prova com o tempo histórico de 1h59min30s, seguido pelo etíope Yomif Kejelcha, também usando o mesmo tênis da Adidas, que registrou 1h59min41s.
O terceiro colocado, Jacob Kiplimo, utilizou um calçado da Nike, o protótipo do Alphafly 4, e finalizou o percurso em 2h00min28s. Os três primeiros atletas superaram o recorde mundial anterior, de Kelvin Kiptum, que utilizou tênis Nike para cravar 2h00min35s na Maratona de Chicago em 2023.
Kiptum, que era a maior aposta da Nike na nova geração, morreria tragicamente em um acidente de carro no ano seguinte, na estrada que liga Eldoret a Kaptagat, no Quênia.
No feminino, a etíope Tigst Assefa venceu a prova também com equipamento da Adidas. A etíope fez o tempo de 2h15min41s, batendo o recorde mundial entre as mulheres.
“Isso é uma prova dos anos de trabalho árduo e dedicação que eles demonstraram, juntamente com nossa equipe de inovação, que criou um tênis excepcional que abre novos caminhos”, afirmou Patrick Nava, gerente-geral da Adidas Running.
Londres
A prova foi realizada em condições favoráveis a um bom desempenho, com temperatura amena, em torno de 15,5°C, e com sol.
“É um dia para recordar. Mostrei que nada é impossível”, festejou Sawe, replicando um famoso slogan de sua patrocinadora.
O resultado colocou o modelo Adizero Adios Pro Evo 3 como ferramenta central na quebra da barreira do tempo no atletismo de elite.
Histórico
Embora a Adidas tenha atingido a marca em uma prova oficial, a Nike foi a marca responsável por iniciar a corrida do ouro pelo tempo sub-2h na maratona.
Em 2016, a marca do Swoosh lançou o projeto Breaking 2, que impulsionou o desenvolvimento de calçados com placa de fibra de carbono. Em 2017, Eliud Kipchoge correu a distância em 2h00min25s em um evento controlado pela marca, demonstrando pela primeira vez o potencial do modelo Nike ZoomX Vaporfly 4%.
Em 2019, Kipchoge registrou 1:59:40 no desafio 1:59, realizado em Viena, na Áustria, e promovido pela marca de produtos químicos Ineos.
No entanto, a marca não foi oficializada pela World Athletics, entidade que comanda o atletismo mundial, por não cumprir requisitos técnicos exigidos para recordes mundiais. A prova contou com 41 marcadores de ritmo que se revezaram para auxiliar Kipchoge e não seguiu os protocolos de testes antidoping das maratonas de elite, entre outras questões.
Regulação
A vantagem propulsiva dos supertênis levou a World Athletics a regulamentar o setor em 2020. As normas estabeleceram que os calçados não podem conter mais de uma placa de fibra de carbono, devem respeitar um limite na altura da sola e precisam estar disponíveis para compra pelo público em geral antes das competições.
A partir desse período, outras marcas, como Puma, Brooks e On, começaram a lançar modelos próprios para competir com a hegemonia inicial da Nike.
Estratégia
Para alcançar o recorde em Londres, a Adidas investiu em tecnologia para reduzir o peso de seus calçados, lançando modelos com menos de 97 gramas.
Além da parte técnica, a marca adotou uma postura de transparência em relação ao doping. A Adidas pagou US$ 50 mil à Unidade de Integridade do Atletismo (AIU) para intensificar os testes em Sawe, que realizou 25 exames em dois meses antes da Maratona de Berlim 2025.
“À luz dos recentes e notórios casos de doping envolvendo atletas quenianos, quero enviar uma mensagem forte: embora o doping seja definitivamente um grande problema no esporte queniano, ainda existem muitos atletas talentosos e limpos que podem realizar coisas incríveis, com base em trabalho árduo e em seus próprios esforços”, justificou Sawe, em um comunicado.
A Nike reagiu ao feito da concorrente em sua página oficial no Instagram. Localizando a publicação em Londres, local da façanha da Adidas, a empresa publicou uma espécie de parabéns, sem citar a marca das três listras e seu principal atleta.
“O cronômetro foi zerado. Não há linha de chegada”, afirmou a Nike, replicando o slogan de sua primeira grande campanha publicitária, em 1977, e destacando a filosofia da marca de que o esporte é uma jornada contínua de superação e não apenas sobre vitórias pontuais.
Mercado
A disputa entre Adidas e Nike pelos pés que correm longas distâncias tem sua razão de ser. Segundo dados da 6Wresearch, empresa de inteligência de dados, o mercado de tênis de corrida de rua estava avaliado em US$ 59,1 bilhões em 2025, com previsão de atingir US$ 87,6 bilhões até 2032, com CAGR (Taxa Anual de Crescimento Composta, na sigla em inglês) de 7,1%.
Hoje, esse segmento é dominado por Nike e Adidas devido ao investimento massivo em patrocínios de provas e atletas de elite. O mercado tornou-se prioridade para as marcas por diversos fatores.
A marca norte-americana detém de 22% a 26% desse mercado, seguida pela Adidas, com 18% a 22%. Asics (12%-16%), Brooks (8%-12%), Hoka (10%), Saucony (7%), New Balance (5%-9%), Mizuno (5%) e Puma (5%) vêm atrás.
Características

A corrida de rua é vista como acessível a todos, já que, a princípio, exige apenas um par de tênis, ampliando o público potencial em relação a esportes dependentes de infraestrutura cara e não se limitando a atletas amadores que correm provas oficiais, mas também àqueles que apenas utilizam a modalidade para manter a forma no dia a dia.
Entre quem busca como objetivo correr provas específicas, o mercado é cada vez mais plural, com diversos tipos de provas, entre matutinas e noturnas, tradicionais e novas, desafiadoras ou voltadas a iniciantes, com diferentes temas, atraindo novos nichos entre corredores.
Além disso, trata-se de um esporte sem necessidade de espaços específicos (pode ser praticado na rua) e de coletividade, pois a corrida de rua criou sua própria comunidade. Grupos de treino e festivais urbanos não param de crescer, criando ecossistemas de pertencimento que favorecem o engajamento com as marcas.
Esses grupos são muito sensíveis ao marketing de influência e dispostos a utilizar produtos avalizados por corredores comuns e influenciadores de nicho com credibilidade coletiva.
Outro fator que atraiu o público foi a busca pelo bem-estar. A tendência global de saúde mental e de autocuidado impulsiona o consumo de produtos vinculados à corrida.
Essa convergência entre performance, comunidade e estilo de vida transformou a corrida de rua em uma das plataformas de conexão mais eficazes com o consumidor contemporâneo. E, claro, está cada vez mais no radar das grandes marcas esportivas.
