O modelo de redes multiclubes (MCO, na sigla em inglês), que ganha espaço no futebol brasileiro, tem como principais referências as estruturas desenvolvidas pelo City Football Group (CFG) e pela Red Bull.
Durante o debate “Como funcionam as redes de clubes no futebol”, realizado durante a São Paulo Innovation Week, nesta quarta-feira (13), Eduardo Conde Tega, fundador da Sportheca, Guilherme Bellintani, sócio da Squadra Sports, e Marina del Guerra, head de investimentos da Outfield, discutiram a aplicação dessas estratégias e os desafios de gestão e governança para as novas Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) do país.
O cenário nacional foi alterado pela Lei da SAF (nº 14.193/2021), que permitiu a transição do modelo associativo para o empresarial. No entanto, Bellintani ressaltou que a legislação ainda não oferece segurança jurídica plena e enfrenta normas rigorosas da CBF, como a proibição de um mesmo proprietário possuir clubes disputando simultaneamente as séries A, B ou C.
Sinergia
Bellintani, que presidiu o Bahia entre 2018 e 2023 e acompanhou a venda do clube ao Grupo City, explicou que o modelo multiclube busca escala e oportunidades complementares entre diferentes mercados.
“É difícil comparar o futebol com outras indústrias. Não se pode replicar o clube. A solução é comprar outros clubes. A partir disso, você ganha sinergia, escala e oportunidade. Um mercado gera mais recursos, outro forma mais jogadores”, analisa.
Para ele, uma das vantagens da operação multiclube é trocar jogadores. Mas que isso não pode ser a principal forma de arrecadação.
“O Grupo City comprou 13 clubes do mundo, cada um se complementando muito bem. Mas, ao contrário do que pensam, há cobrança diária sobre o dinheiro do investidor”, conta o ex-presidente do Bahia.
Para Bellintani, o caso do Red Bull é diferente. A empresa de bebidas comprou clubes ao redor do mundo para alavancar sua marca, incrementando sua venda de energético em mercados estratégicos.
“Em geral, o modelo multiclube trabalha com elevação do valuation a cada ano. Ambos [Grupo City e Red Bull] se assemelham com sofisticados processos decisórios, transparência e governança”, compara.
Atualmente, Bellintani está na Squadra Sports que gere o Londrina e enfrenta o desafio de lidar com a realidade da Série B, na qual a equipe paranaense ocupa a penúltima posição, com 5 pontos em oito jogos.
Para ele é preciso deixar claro para os torcedores que os objetivos são a longo prazo. Quando o Londrina subiu para a Série B, que disputa neste ano, o dirigente afirmou que o objetivo era permanecer na segunda divisão pelas próximas três temporadas.
“A gestão de expectativa para a torcida é fundamental. Futebol é emoção, é massa. O torcedor é apaixonado”, afirma.
Estratégia
Marina del Guerra, da Outfield, destacou que a estruturação de uma rede multiclube vai além do intercâmbio de atletas. Para a executiva, a organização deve focar em uma estratégia mais sofisticada. A Outfield possui investimentos no Le Mans, da França, e no Coritiba.
“Quando falamos de MCO, o propósito vai muito além de trocar ou aumentar valor de jogador. É muito sobre olhar a governança, os investimento e estabelecer boas conexões comerciais”, aponta ela.
A executiva também utiliza o estudo da estratégia do CFG e da Red Bull como importantes para a estruturação do projeto da Outfield.
“Ambos fazem um projeto estruturado. Havia outros projetos multiclubes que nos pareciam desorganizados. Mas City e Red Bull contam com metodologia, tecnologia, governança e análise de dados. Foi o que usamos para construir nosso MCO”, aponta.
Para ela, essas iniciativas não podem ter como foco apenas a valorização e venda de jogadores para o exterior. Ao estabelecer uma estrutura multiclubes o desafio é mais complexo.
“É preciso olhar o contexto em que aquele clube está localizado. Se há discussões sobre estruturação de liga, Fair Play Financeiro”, enumera, lembrando desafios atuais do futebol brasileiro.
A experiência europeia, até o momento bem-sucedida com o Le Mans passou pela estruturação das categorias de base do tradicional clube francês.
“Neste casso, houve a aplicação de conhecimentos adquiridos com o Coritiba no mercado brasileiro. Mas essa sinergia precisa respeitar a autonomia e a identidade de cada instituição”, ensina.
Comunidade
A Sportheca, liderada por Eduardo Conde Tega, adota uma abordagem de “rede de comunidades”. O grupo possui investimentos no Capivariano (SP) e no Pontedera, que disputa a Série C da Itália. O grupo também apresentou proposta para adquirir 90% da SAF do Joinville, tradicional equipe de Santa Catarina, que enfrenta dificuldades financeiras.
“O MCO tem dois grandes professores: o Grupo City e a Red Bull”, repete o executivo.
No entanto, Tega sugere outro caminho. “O City possui identidade visual e governança centralizada. A Red Bull possui sua própria cultura. Temos um terceiro modelo que é formar uma rede de comunidades. Não é uma colonização. É uma curadoria, se apresentar como guardião, que conecta territórios”, explica.
O projeto em Joinville é apontado como promissor pelo executivo. Ele lembra que a cidade é dona do maior PIB de Santa Catarina e é conhecida por ter a maior comunidade de alemãs fora da Alemanha.
Outra característica interessante é a fora do futsal local, pensando na quantidade de jogadores revelados na modalidade e que depois brilharam nos gramados. Essas características fazem com que, para ele, o clube possa ter um futuro promissor a longo prazo.
“Não prometemos que a equipe estará na Série A. Mas acreditamos que o Joinville tenha condição de estar na Série B, de ser um dos 30 principais times do futebol brasileiro”, aponta.
Expectativa
O inflacionamento da indústria do futebol é um ponto de atenção comum entre os gestores. Bellintani observou que a volta de jogadores caros da Europa e o baixo uso de atletas sub-23 têm elevado os custos com folha salarial.
Para os executivos, o sucesso de redes multiclubes depende da capacidade de formação de jogadores e da paciência tanto dos investidores e como dos torcedores.
Bellintani tá como exemplo que, no Londrina, o planejamento da Squadra Sports era ficar três anos na Série C. Porém, houve o acesso na segunda temporada. Já no Joinville, Tega enfatiza que investidores de SAF precisam entender que o retorno financeiro demanda tempo devido à situação de desgaste institucional acumulada nos últimos dez anos.
