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Futebol brasileiro adapta modelos de redes multiclubes do exterior

Executivos analisam as influências do Grupo City e da Red Bull na gestão de ativos, formação de atletas e desafios regulatórios

Guilherme Bellintani (Squadra Sports), Marina del Guerra (Outfield) e Eduardo Tega (Sportheca) em debate - Adalberto Leister Filho/Máquina do Esporte

Guilherme Bellintani (Squadra Sports), Marina del Guerra (Outfield) e Eduardo Tega (Sportheca) em debate - Adalberto Leister Filho/Máquina do Esporte

⚡ Máquina Fast
  • O modelo multiclube no futebol brasileiro se inspira no City Football Group e na Red Bull, buscando sinergia, escala e oportunidades complementares entre diferentes mercados.
  • A gestão das redes multiclubes exige governança sofisticada, planejamento de longo prazo e respeito à autonomia dos clubes envolvidos, segundo especialistas do setor.
  • O sucesso das redes multiclubes depende da paciência dos investidores e torcedores, além da capacidade de formar jogadores e superar desafios institucionais no futebol nacional.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

O modelo de redes multiclubes (MCO, na sigla em inglês), que ganha espaço no futebol brasileiro, tem como principais referências as estruturas desenvolvidas pelo City Football Group (CFG) e pela Red Bull.

Durante o debate “Como funcionam as redes de clubes no futebol”, realizado durante a São Paulo Innovation Week, nesta quarta-feira (13), Eduardo Conde Tega, fundador da Sportheca, Guilherme Bellintani, sócio da Squadra Sports, e Marina del Guerra, head de investimentos da Outfield, discutiram a aplicação dessas estratégias e os desafios de gestão e governança para as novas Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) do país.

O cenário nacional foi alterado pela Lei da SAF (nº 14.193/2021), que permitiu a transição do modelo associativo para o empresarial. No entanto, Bellintani ressaltou que a legislação ainda não oferece segurança jurídica plena e enfrenta normas rigorosas da CBF, como a proibição de um mesmo proprietário possuir clubes disputando simultaneamente as séries A, B ou C.

Sinergia

Bellintani, que presidiu o Bahia entre 2018 e 2023 e acompanhou a venda do clube ao Grupo City, explicou que o modelo multiclube busca escala e oportunidades complementares entre diferentes mercados.

“É difícil comparar o futebol com outras indústrias. Não se pode replicar o clube. A solução é comprar outros clubes. A partir disso, você ganha sinergia, escala e oportunidade. Um mercado gera mais recursos, outro forma mais jogadores”, analisa.

Para ele, uma das vantagens da operação multiclube é trocar jogadores. Mas que isso não pode ser a principal forma de arrecadação.

“O Grupo City comprou 13 clubes do mundo, cada um se complementando muito bem. Mas, ao contrário do que pensam, há cobrança diária sobre o dinheiro do investidor”, conta o ex-presidente do Bahia.

Para Bellintani, o caso do Red Bull é diferente. A empresa de bebidas comprou clubes ao redor do mundo para alavancar sua marca, incrementando sua venda de energético em mercados estratégicos.

“Em geral, o modelo multiclube trabalha com elevação do valuation a cada ano. Ambos [Grupo City e Red Bull] se assemelham com sofisticados processos decisórios, transparência e governança”, compara.

Atualmente, Bellintani está na Squadra Sports que gere o Londrina e enfrenta o desafio de lidar com a realidade da Série B, na qual a equipe paranaense ocupa a penúltima posição, com 5 pontos em oito jogos.

Para ele é preciso deixar claro para os torcedores que os objetivos são a longo prazo. Quando o Londrina subiu para a Série B, que disputa neste ano, o dirigente afirmou que o objetivo era permanecer na segunda divisão pelas próximas três temporadas.

“A gestão de expectativa para a torcida é fundamental. Futebol é emoção, é massa. O torcedor é apaixonado”, afirma.

Estratégia

Marina del Guerra, da Outfield, destacou que a estruturação de uma rede multiclube vai além do intercâmbio de atletas. Para a executiva, a organização deve focar em uma estratégia mais sofisticada. A Outfield possui investimentos no Le Mans, da França, e no Coritiba.

“Quando falamos de MCO, o propósito vai muito além de trocar ou aumentar valor de jogador. É muito sobre olhar a governança, os investimento e estabelecer boas conexões comerciais”, aponta ela.

A executiva também utiliza o estudo da estratégia do CFG e da Red Bull como importantes para a estruturação do projeto da Outfield.

“Ambos fazem um projeto estruturado. Havia outros projetos multiclubes que nos pareciam desorganizados. Mas City e Red Bull contam com metodologia, tecnologia, governança e análise de dados. Foi o que usamos para construir nosso MCO”, aponta.

Para ela, essas iniciativas não podem ter como foco apenas a valorização e venda de jogadores para o exterior. Ao estabelecer uma estrutura multiclubes o desafio é mais complexo.

“É preciso olhar o contexto em que aquele clube está localizado. Se há discussões sobre estruturação de liga, Fair Play Financeiro”, enumera, lembrando desafios atuais do futebol brasileiro.

A experiência europeia, até o momento bem-sucedida com o Le Mans passou pela estruturação das categorias de base do tradicional clube francês.

“Neste casso, houve a aplicação de conhecimentos adquiridos com o Coritiba no mercado brasileiro. Mas essa sinergia precisa respeitar a autonomia e a identidade de cada instituição”, ensina.

Comunidade

A Sportheca, liderada por Eduardo Conde Tega, adota uma abordagem de “rede de comunidades”. O grupo possui investimentos no Capivariano (SP) e no Pontedera, que disputa a Série C da Itália. O grupo também apresentou proposta para adquirir 90% da SAF do Joinville, tradicional equipe de Santa Catarina, que enfrenta dificuldades financeiras.

“O MCO tem dois grandes professores: o Grupo City e a Red Bull”, repete o executivo.

No entanto, Tega sugere outro caminho. “O City possui identidade visual e governança centralizada. A Red Bull possui sua própria cultura. Temos um terceiro modelo que é formar uma rede de comunidades. Não é uma colonização. É uma curadoria, se apresentar como guardião, que conecta territórios”, explica.

O projeto em Joinville é apontado como promissor pelo executivo. Ele lembra que a cidade é dona do maior PIB de Santa Catarina e é conhecida por ter a maior comunidade de alemãs fora da Alemanha.

Outra característica interessante é a fora do futsal local, pensando na quantidade de jogadores revelados na modalidade e que depois brilharam nos gramados. Essas características fazem com que, para ele, o clube possa ter um futuro promissor a longo prazo.

“Não prometemos que a equipe estará na Série A. Mas acreditamos que o Joinville tenha condição de estar na Série B, de ser um dos 30 principais times do futebol brasileiro”, aponta.

Expectativa

O inflacionamento da indústria do futebol é um ponto de atenção comum entre os gestores. Bellintani observou que a volta de jogadores caros da Europa e o baixo uso de atletas sub-23 têm elevado os custos com folha salarial.

Para os executivos, o sucesso de redes multiclubes depende da capacidade de formação de jogadores e da paciência tanto dos investidores e como dos torcedores.

Bellintani tá como exemplo que, no Londrina, o planejamento da Squadra Sports era ficar três anos na Série C. Porém, houve o acesso na segunda temporada. Já no Joinville, Tega enfatiza que investidores de SAF precisam entender que o retorno financeiro demanda tempo devido à situação de desgaste institucional acumulada nos últimos dez anos.