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Inflacionamento de custos e pressão por resultados desafiam gestão do futebol brasileiro

Debate na São Paulo Innovation Week destaca impacto da chegada de investidores na competitividade dos times do país

Rodrigo Tostes, , ex-vice-presidente de finanças do Flamengo, durante debate na São Paulo Innovation Week - Adalberto Leister Filho/Máquina do Esporte

Rodrigo Tostes, , ex-vice-presidente de finanças do Flamengo, durante debate na São Paulo Innovation Week - Adalberto Leister Filho/Máquina do Esporte

⚡ Máquina Fast
  • Investidores impulsionam custos no futebol brasileiro, gerando desequilíbrio entre receitas e despesas.
  • SAFs pressionam clubes associativos a aumentar investimentos para manter competitividade.
  • Falta de experiência local e modelos sustentáveis dificulta sucesso de clubes brasileiros no exterior.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

A chegada de grandes investidores ao futebol brasileiro e o consequente aumento nos custos operacionais, sejam de times geridos como Sociedade Anômica do Futebol (SAFs) ou clubes associativos foram apontados como um dos principais desafios na gestão atual das equipes durante debate na São Paulo Innovation Week.

O encontro, que ocorreu na Arena Mercado Livre Pacaembu, em São Paulo, reuniu Cesar Grafietti, sócio da consultoria Convocados, e Rodrigo Tostes, ex-vice-presidente de finanças do Flamengo.

Para Tostes, o mercado vive um desequilíbrio entre a capacidade de arrecadação e os gastos necessários para manter equipes competitivas. Segundo o executivo, a inflação no setor nos últimos cinco anos superou em três ou quatro vezes a capacidade de geração de receita das agremiações. Ele usou o exemplo do Flamengo para ilustrar a escalada de preços:

“Hoje a folha de pagamento do Flamengo gira em torno de R$ 45 milhões. Um time era campeão brasileiro há cinco anos com folha de R$ 22 milhões, até de R$ 18 milhões”, compara.

“Por outro lado, o preço do ingresso não subiu na mesma proporção”, acrescenta.

Esse era um dos desafios apontados para o Flamengo quando negociava a aquisição do Tondela, clube que disputava a primeira divisão de Portugal na época. O objetivo do investimento era fazer a equipe subir da décima posição para o quarto lugar, ficando atrás apenas dos três grandes (Benfica, Porto e Sporting), além do Braga, clube mais estruturado entre os pequenos.

“Para atingir o quarto lugar, tem que pegar folha de € 2 milhões e chegar a € 15 milhões. A diferença era muito grande”, lembra o executivo.

O Rubro-Negro acabou desistindo do negócio. O Tondela atualmente é o penúltimo colocado da Liga Portugal e corre o risco iminente de rebaixamento.

Inflação

O impacto das SAFs no Brasil também foi apontado como um fator de pressão financeira para os clubes que mantêm o modelo associativo. O aporte de capital externo em determinadas equipes obriga os concorrentes a elevarem seus investimentos para sustentar o nível técnico em campo. Tostes descreveu esse movimento como um desequilíbrio para o ecossistema nacional.

“Foi um efeito perverso das SAFs no Brasil, porque investidor chega com dinheiro novo e outros clubes precisam investir para conseguir concorrer”, aponta.

“Quando você tem recursos e faz altos investimentos, faz com que esse mundo fique perverso”, critica.

Grafietti reforçou que o aumento salarial e a falta de modelos de negócio sustentáveis criam problemas para o futuro. De acordo com o especialista, o futebol exige capital de longo prazo e não tolera custos elevados com dívidas. Para ele, o ambiente brasileiro ainda carece de entendimento sobre a complexidade dessa operação.

“As primeiras SAFs foram pra resolver um problema. No Brasil, elas tiveram todo tipo de perfil. O que observamos é que tem muita mentira no processo. O ambiente, especialmente no Brasil, está muito cru do ponto de vista de entendimento. As pessoas entram clube achando que é fácil. Falta maturidade no ambiente. Portugal tem um processo de licenciamento mais duro”, compara.

Gestão

A dificuldade de implementar modelos de gestão em mercados estrangeiros foi exemplificada por experiências frustradas em Portugal. O Flamengo chegou a prospectar a compra do Tondela, mas desistiu da operação ao concluir que não teria expertise suficiente para agregar valor ao negócio naquele contexto local.

Grafietti, por sua vez, detalhou o insucesso após a aquisição do Anadia FC SAD, clube da terceira divisão portuguesa.

A operação, estruturada em 2023 pela consultoria Convocados em parceria com o ex-jogador Roque Júnior e Rodolfo Kussarev, visava a valorização e revenda do ativo por meio de um fundo de private equity.

O projeto enfrentou barreiras como o não atingimento de metas esportivas e a complexidade de um modelo semiprofissional.

“Era único clube da terceira divisão com venda eletrônica de ingresso. Investimos em infraestrutura. Implementamos uma área médica de primeiro nível”, conta.

“Mas a cidade não abraçou o projeto. Os resultados não vieram. Você precisa estar com o local. Precisamos implantar nossas ideias, mas com o sotaque de Portugal. Foram ganhos de experiência do que não funciona. Faltou alguém que entendesse a dinâmica do local”, lamenta ele.

Mercado

A falta de um horizonte claro para a revenda de ativos no Brasil é apontada como um obstáculo para a atração de investidores estrangeiros.

Grafietti sugeriu que, para o futuro próximo, o movimento das novas SAFs no Brasil possa vir de investidores locais antes de uma expansão consolidada para atrair capitais externos. É necessário que o investidor estrangeiro tenha confiança em quem opera o negócio localmente no dia a dia.

“Esse processo de aprendizado demora. Ambiente no Brasil não desta pronto para um processo de expansão de investimentos”, acredita.

Tostes destaca a importância de equilibrar a geração de receita recorrente com a compra e venda de atletas. Para o executivo, o investimento em categorias de base e na captação de talentos em regiões como o Norte e Nordeste ainda não foi explorado com eficiência pelas novas gestões e SAFs.

“Nos últimos 13 anos criamos no Flamengo uma máquina de geração de receita recorrente que está muito bem azeitada, com capacidade de gerar mais de R$ 2 bilhões por ano, com 80% de receita recorrente”, comenta o antigo diretor financeiro do clube.

“Se não tem a estrutura de academia [para descoberta de talentos] bem montada, a operação não se paga. O que você precisa investir no time, o benefício do título e da premiação não paga. Precisa dessa outra alavanca financeira que é a compra e revenda de jogadores”, aponta.