Pular para o conteúdo
Samanta Vicentini, especial para a Máquina do Esporte

Samanta Vicentini

6 min de leitura

Análise

A força do Nordeste na seleção que o mercado ignora

Como o ecossistema nordestino moldou quase um quarto da seleção na Copa do Mundo de 2026 e por que as marcas continuam míopes para essa narrativa de mercado

Samanta Vicentini, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

12/06/2026 12h00

Zagueiro Bremer em ação durante amistoso da seleção brasileira contra a França - Rafael Ribeiro / CBF

⚡ Máquina Fast
  • Quase um quarto dos jogadores convocados para a Copa de 2026 têm conexão direta com o futebol nordestino.
  • O futebol nordestino se consolida como pilar essencial na formação de atletas de elite internacional, superando a média histórica nas convocações.
  • Marcas brasileiras ainda ignoram o potencial do mercado nordestino ao não explorarem as histórias e conexões regionais dos jogadores convocados.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Neste sábado (13), quando o árbitro apitar o início de Brasil x Marrocos no gramado do MetLife Stadium, em Nova Jersey, que na Copa será chamado de Nova York/Nova Jersey Stadium, o mercado publicitário brasileiro estará firmemente ancorado nos clichês de sempre. Veremos campanhas milionárias desenhadas na Av. Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo (SP), discursos sobre a união de um país fragmentado, e marcas tentando, a fórceps, colar suas identidades à imagem dos novos ídolos da primeira Copa do Mundo com 48 seleções.

No entanto, o que pouca gente naquelas salas de reunião climatizadas percebeu é que a engrenagem que colocou a equipe brasileira em campo possui uma digital profunda, ruidosa e sistematicamente ignorada pelo Sudeste. Uma marca invisível que cruza o mapa do Brasil e deságua diretamente no Nordeste.

A lista dos 26 convocados para o Mundial de 2026 carrega uma realidade matemática incontestável. Ao destrinchar os nomes escolhidos pela comissão técnica comandada por Carlo Ancelotti, o recorte mais revelador não está apenas na certidão de nascimento dos atletas, mas na geografia de suas trajetórias. Seis dos convocados possuem conexão direta com o futebol nordestino, seja por terem nascido na região, seja por terem vestido a camisa de um clube local em momentos cruciais de suas carreiras. Estamos falando de 23,1% do elenco, ou seja, praticamente um quarto da seleção brasileira passou pelo ecossistema do futebol nordestino.

Para quem está acostumado a olhar o esporte apenas pelo retrovisor do eixo Rio-São Paulo, o dado assusta. Historicamente, entre as Copas de 1974 e 2018, a média de jogadores nascidos no Nordeste em convocações em Mundiais estacionou em modestos 11,8%. O salto atual não é um desvio estatístico ou uma concessão ao politicamente correto; é uma inflexão estrutural. O futebol nordestino deixou de ser a periferia romântica do sistema para se consolidar como parte da engrenagem essencial da formação e do desenvolvimento de atletas de elite internacional. A diferença é que o centro do país simplesmente não sabe como contar essa história.

A análise técnica do comportamento do torcedor e do mercado de Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM) mostra que a narrativa oficial da grande mídia insiste em tratar trajetórias como a do lateral-direito Wesley, hoje na Roma, como contos de fadas isolados. Nascido em Açailândia (MA), o jovem de 22 seria o primeiro maranhense da história a disputar uma Copa do Mundo pela seleção principal. Ele, que começou ganhando R$ 150 por mês no início da carreira profissional após sair de sua terra natal ainda criança, hoje disputa o prêmio de melhor jogador do Campeonato Italiano ao lado de nomes como Lautaro Martínez e Marcus Thuram. A história de Wesley vende camisas, engaja redes sociais e constrói conexões emocionais brutais. Mas, para o mercado de marcas, ela permanece como um dado exótico de rodapé.

Infelizmente, nos últimos dias, Wesley acabou cortado por conta de uma lesão. Para o seu lugar foi chamado o volante Éderson, que teve uma boa passagem pelo Fortaleza antes de embarcar para o futebol europeu (atualmente, defende a Atalanta). Isto é, a porcentagem citada no início desta coluna segue a mesma.

Essa miopia se repete quando observamos os pilares defensivos e ofensivos da seleção. O zagueiro Bremer leva o nome de Itapitanga (BA) para sua segunda Copa do Mundo consecutiva, consolidado na Juventus. Na mesma linha defensiva, o volante Danilo Santos, baiano e hoje peça-chave do Botafogo, carimba sua primeira vaga no torneio mais importante do planeta. Na frente, a camisa 9 do Manchester United pertence a Matheus Cunha, natural de João Pessoa (PB), que, após ser o artilheiro do ciclo olímpico em Tóquio 2020, soma 21 jogos pela seleção principal e assumirá a responsabilidade do ataque brasileiro na América do Norte.

O apagão narrativo ganha contornos ainda mais graves quando analisamos a passagem por clubes da região, o verdadeiro termômetro da força do ecossistema local. Dois dos convocados passaram pelos vestiários do Náutico, no Recife (PE), e deixaram ali marcas indeléveis. O lateral-esquerdo Douglas Santos, paraibano de 32 anos e hoje no Zenit, foi moldado inteiramente nas categorias de base do clube pernambucano, jogando 22 partidas no profissional antes de carimbar seu passaporte para o futebol europeu. Já o paranaense Léo Pereira, titular incontestável do Flamengo, com mais de 300 jogos pelo clube carioca, encontrou no próprio Náutico, por empréstimo, o oxigênio e os minutos de jogo necessários para não sucumbir ao anonimato quando sua carreira parecia estagnada. Ele estreou na seleção em 2026 jogando os 90 minutos contra França e Croácia, coroando uma reviravolta que ele mesmo chamou de improvável.

Do ponto de vista da gestão de marketing esportivo, o que espanta não é a presença desses atletas no topo do mundo, mas o silêncio comercial que os cerca. O Náutico, sozinho, colocou dois representantes indiretos no elenco da maior Copa da história, e nenhuma grande marca nacional se deu ao trabalho de ativar essa conexão até agora. Existe um abismo intransponível entre o Brasil real e o Brasil que o mercado consome. O Nordeste abriga mais de 57 milhões de habitantes, concentrando 27% da população do país. É um território hiperconectado, com uma das competições regionais mais bem-sucedidas do continente, a Copa do Nordeste, que movimenta 20 clubes e 9 estados com taxas de engajamento digital e fidelidade partidária que superam muitos torneios tradicionais.

O erro dos patrocinadores é estratégico e financeiro. Ao ignorarem a conexão nordestina dessa seleção, as marcas estão errando a audiência, desperdiçando a narrativa e deixando dinheiro na mesa. O torcedor nordestino não quer apenas consumir o produto seleção brasileira; ele quer se enxergar nele.

Quando uma marca ativa a história de um Douglas Santos ou de um Léo Pereira vinculada ao solo onde eles cresceram ou se reergueram, ela não está fazendo regionalismo; ela está construindo relevância cultural legítima.

O mercado precisa entender de uma vez por todas que o futebol brasileiro não é plano. Aqueles que insistirem em desenhar suas estratégias de relacionamento ignorando a força motriz que vem do Norte e do Nordeste passarão o mês de junho falando sozinhos, assistindo a um espetáculo cuja verdadeira riqueza eles foram incapazes de decifrar.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Samanta Vicentini é especialista em Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM) e estratégias de relacionamento e fidelização de fãs. Com passagens nos programas de sócio-torcedor de Flamengo, Palmeiras e Vasco, acumula experiência no uso de dados para fortalecer o vínculo entre clubes e torcedores, gerando recordes de retenção e faturamento

Conheça nossos colunistas