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Reginaldo Diniz, especial para a Máquina do Esporte

Reginaldo Diniz

8 min de leitura

Análise

Meu pai, a Copa do Mundo e as canções que ficaram

Títulos marcam gerações, mas são as emoções que permanecem para sempre; não há nada como assistir a um Mundial e ouvir uma boa música ao lado de quem amamos

Reginaldo Diniz, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

04/07/2026 08h00

Lateral-esquerdo Junior, além de peça fundamental da seleção brasileira de 1982, ainda ficou conhecido pela canção "Voa, Canarinho, Voa" - Reprodução

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  • A Copa do Mundo é muito mais que gols, sendo marcada por emoções, memórias e pelo significado afetivo, principalmente em relação ao vínculo com o pai do autor.
  • Cada Copa tem sua trilha sonora que acompanha gerações, com músicas que ficam na lembrança e expressam o sentimento coletivo do futebol brasileiro.
  • Para o autor, a verdadeira trilha sonora das Copas está nas vozes e nos momentos compartilhados com seu pai, evidenciando o futebol como símbolo de pertencimento e memória.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Quando decidi escrever sobre o tema do momento, percebi que não conseguiria falar de Copa do Mundo apenas por meio do futebol. Porque, para mim, Copa nunca foi somente sobre gols; foi sobre sons. Sons que a minha playlist do Spotify, quando envia as músicas que mais ouvi durante o ano, mal consegue definir como meu gosto musical, diante da amplitude das minhas preferências.

Minha primeira memória de Copa do Mundo tem as cores vibrantes da seleção brasileira de 1982 e o talento quase artístico do time de Telê Santana. Eu ainda era menino, mas me lembro da sensação que aquele futebol provocava. Foi ali que me vi pela primeira vez tentando copiar meu pai, fato que tento, com algum sucesso, fazer até os dias de hoje. Mas, seguramente, foi naquele momento que nasceu minha paixão pelo esporte.

O que meu pai e a seleção de 1982 têm em comum? Ambos marcaram minha vida muito mais do que qualquer prêmio ou troféu que eu tenha visto ou recebido. Curiosamente, aquela seleção que encantou o mundo não levantou a taça, mas deixou algo ainda mais raro: uma lembrança eterna de tudo aquilo que até hoje busco no futebol, bem como de tudo que meu pai representa na minha vida.

Algumas equipes conquistam títulos, outras conquistam gerações. A de 1982 conquistou a minha vontade de, em algum momento, fazer do esporte parte integrante da minha vida. Da mesma forma, em todas as dificuldades e desafios que enfrento na minha jornada pessoal e profissional, lembro-me de como meu pai sempre foi mágico, leve, encantador e decisivo em tudo aquilo que se propôs a fazer.

Talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido separar completamente futebol e afeto. Quando penso nas minhas Copas do Mundo, não lembro apenas dos jogos, dos gols ou das derrotas. Lembro-me de onde eu estava, de quem estava ao meu lado e, principalmente, das conversas, dos silêncios e das emoções compartilhadas com meu pai diante da televisão. As Copas passaram, os jogadores mudaram, os campeões também. Mas a presença dele permaneceu como a única constante em todas essas memórias.

Como filho de nordestinos, a música sempre esteve presente em casa desde muito cedo. Seja pelo forró, pelo samba ou pelas famosas serestas. E, desde então, cada Copa passou a ter sua própria trilha sonora.

Bastava ouvir “Brasil, sil, sil, sil…” para que milhões de brasileiros fossem transportados imediatamente para a frente da televisão, para as ruas enfeitadas de verde e amarelo ou para os abraços coletivos depois de um gol. E, convenhamos, poucas músicas conseguiram representar tão bem um sentimento nacional. Tenho certeza de que, ao ler este texto, esse som já veio automaticamente à sua mente. Pelo menos se você for da minha geração, é claro.

Em 1982, tivemos a inesquecível “Voa, Canarinho, Voa”, embalando uma geração que sonhava alto, interpretada, não por acaso, por alguns jogadores liderados pelo lateral-esquerdo Junior, um dos símbolos daquela seleção que transformou o futebol em arte e, coincidentemente, paraibano, assim como meu pai.

Já em 1986, tivemos uma releitura de “Pra Frente, Brasil”, da década de 1970, com diversos intérpretes tentando reviver o som da conquista no México.

A conquista de 1994 teve uma canção linda, interpretada por Jane Duboc, que não ficou exatamente no imaginário popular, mas carrega o símbolo do baixinho Romário com sua presença de área e a liderança marcada pela Copa anterior, em 1990, com a força e a resiliência do capitão Dunga. Também vi Bebeto balançar o mundo com seu embalo de bebê na partida inesquecível contra a Holanda.

Em 1998, o título é seguramente da música. “É Uma Partida de Futebol”, do Skank, virou trilha não oficial não só da Copa do Mundo, mas de toda uma geração que já ouvia Jorge Ben Jor e suas canções que talvez fossem as mais próximas da perfeita combinação entre campo, bola, emoção e conexão com a torcida.

Uma geração que prepararia o espírito para a conquista de 2002, com o privilégio de ver Ronaldo Fenômeno cair, levantar e voltar para conquistar o planeta ao lado de Rivaldo, que jogou um futebol que talvez não tenha recebido todos os aplausos que merecia. Tivemos também Ronaldinho Gaúcho, o Bruxo, fazendo chover, e o Jardim Irene no peito e na raça de Cafu. Nessa época, ainda tivemos o nosso Zeca Pagodinho com “Pentacampeão”, deixando não só a vida, mas a alegria nos levar.

A propósito, e por falar em alegria, me recuso a falar de uma grande tristeza, sete vezes dolorida até hoje. E assim seguimos.

Cada Copa ganhou sua melodia, ou não. Cada geração ganhou ou escolheu sua canção. E cada brasileiro escreveu sua própria memória.

Minha geração teve o privilégio de viver três finais de Copa do Mundo e agora pode sonhar novamente com o Mundial, vendo mais uma vez Neymar carregar, por mais de uma década, a esperança de uma nova conquista em um país apaixonado por futebol.

Também tivemos hinos. Shakira com o impagável “Waka Waka (This Time for Africa)” e “We Are One (Ole Ola)”, com Jennifer Lopez, Pitbull e Claudia Leitte. E, de lá para cá, nada muito emblemático, a não ser a joelhada criminosa nas costas do menino Ney.

Entre uma Copa e outra, as músicas continuaram cumprindo seu papel, pois celebraram conquistas, amenizaram derrotas e conseguem, de alguma forma, manter viva a esperança de jogos inesquecíveis, de golaços que voltam à mente nos momentos importantes. Porque a verdade é que a música faz com o coração aquilo que o futebol faz com os olhos. Ambos nos emocionam antes mesmo que possamos explicar o motivo.

Hoje, mais de quatro décadas depois daquela seleção de 1982, continuo acreditando que existe algo mágico quando futebol e música se encontram. Aquele grito preso na garganta antes de um pênalti, o refrão cantado em coro por milhões de pessoas, o gol narrado e repetido pela memória durante anos.

Mas, olhando para trás, percebo que a trilha sonora das minhas Copas nunca foi feita apenas pelas músicas. Ela também foi composta pelas vozes que ouvi ao longo da vida. E nenhuma delas foi tão marcante quanto a do meu pai.

Foi ele quem me ensinou, sem jamais precisar explicar, que futebol não é apenas sobre vencer. É sobre pertencimento. Sobre memória. Sobre compartilhar emoções. Talvez por isso eu tenha me emocionado mais com a seleção de 1982 do que com muitos títulos que vieram depois. Talvez por isso eu ainda me lembre mais das tardes ao lado dele do que de muitos resultados.

As Copas passam de quatro em quatro anos. Os ídolos se aposentam. As músicas saem das rádios e dão lugar a outras. Mas algumas coisas permanecem.

Hoje, meu maior privilégio não é poder assistir a mais uma Copa do Mundo. É poder assistir a mais uma Copa do Mundo ao lado do meu pai.

Talvez seja por isso que, quando uma Copa começa, não ouvimos apenas uma música; ouvimos a nossa própria história. E quando a bola rola, não entram em campo apenas onze jogadores; entram todas as versões de nós mesmos que viveram uma Copa do Mundo ao lado de quem amamos, olhando para aqueles que admiramos ou gostaríamos de ser.

Títulos marcam gerações, mas são as emoções que permanecem para sempre, assim como uma boa canção.

Se eu pudesse compor a canção perfeita, ela seria uma mistura de “É Uma Partida de Futebol”, do Skank, com “Voa, Canarinho, Voa”, da seleção de 1982, e “Umbabarauma”, de Jorge Ben Jor e Mano Brown. Elas carregam um pouco dos meus sentimentos como torcedor e me remetem àquilo que me conecta com essa paixão chamada futebol.

Mas, se eu fosse sincero até o fim, diria que a música mais importante de todas nunca tocou no rádio. Ela estava na sala de casa, comentando um lance, reclamando de um árbitro, comemorando um gol ou simplesmente dividindo o silêncio de uma derrota.

Porque, no fim das contas, a verdadeira trilha sonora das minhas Copas do Mundo sempre foi a voz do meu pai. Se vale uma dica, assista à Copa ao lado de quem ficará na sua memória como uma canção. E se está liberado acreditar, então vamos “Brasil, sil, sil, sil…”.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Reginaldo Diniz é cofundador e CEO do Grupo End to End

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