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Fifa retira Michelob Ultra de troféu entregue a atletas islâmicos, mas enfrenta outros constrangimentos na premiação

Medida busca adequar ativação às regras do Islã, que proíbe o consumo, a comercialização e até mesmo a promoção de bebidas alcoólicas pelos fiéis

Mohamed Salah, do Egito, exibe troféu sem a logomarca da Michelob Ultra - Reprodução / Instagram (@mosalah)

⚡ Máquina Fast
  • Michelob Ultra patrocina o troféu de melhor jogador do jogo na Copa do Mundo de 2026, com a marca visível nas entregas.
  • Fifa entrega versões do troféu sem a logomarca da cerveja para jogadores islâmicos, respeitando proibições religiosas contra álcool.
  • Jogadores que não consomem álcool, como Vinicius Júnior, enfrentam constrangimento ao receber o prêmio patrocinado por cerveja.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Patrocinadora da Copa do Mundo de 2026, a Michelob Ultra, cerveja do grupo AB Inbev, garantiu o direito de promover uma das ativações de maior visibilidade do torneio.

Ela oferece o troféu de melhor do jogo para os atletas que se destacam em cada confronto do Mundial.

A taça do “Superior Player of the Match” traz a logomarca da Michelob Ultra, que também aparece no backdrop, diante do qual é realizada a entrega da premiação.

No entanto, na Copa do Mundo com o maior número de seleções na história (48 no total), é grande a presença de jogadores islâmicos, especialmente em seleções do norte da África, como Marrocos, Egito, Senegal e Argélia, e da Ásia, como Jordânia, Iraque, Catar, Irã, Arábia Saudita e Uzbequistão.

Mesmo entre as seleções da União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) há dois times de nações de maioria muçulmana, que são Turquia e Bósnia e Herzegovina.

O Islã tem como um dos preceitos principais a proibição ao álcool, prevista no livro sagrado Alcorão e nos hádices, que são transcrições de relatos orais feitos pelo profeta Maomé.

O Alcorão se refere ao álcool e aos jogos de azar (duas das principais fontes de patrocínio do futebol nos dias atuais) como “ferramentas de Satanás”, criadas para semear a discórdia, o ódio e afastar as pessoas do caminho espiritual.

Em um dos ensinamentos mais conhecidos de Maomé, ele afirma que a maldição relacionada ao álcool recai não apenas sobre o indivíduo que consome a bebida, mas sobre outras dez pessoas envolvidas no processo, desde quem produz, passando por quem transporta e até quem comercializa, e assim por diante.

Portanto, exibir para milhões de pessoas um troféu trazendo uma marca de cerveja poderia ser considerado o mesmo que anunciar bebida alcoólica, o que representa um haram, termo em árabe para descrever o que é proibido ou ilícito pela lei islâmica.

Incorrer nessa prática poderia sujeitar atletas muçulmanos não apenas a constrangimento em seus países de origem, como também a sanções severas, em alguns casos.

Como a regra é aplicada nos países islâmicos

No Irã, que desde 1979 adota um regime teocrático, o consumo de álcool por qualquer indivíduo (iraniano ou turista) é punido com 80 chibatadas. Estrangeiros que são flagrados portando, contrabandeando ou consumindo bebidas em praça pública enfrentam prisão, multas pesadas e deportação imediata.

As leis do país preveem ainda pena de morte para pessoas que reincidem na prática, por três ou quatro vezes.

Na Arábia Saudita, embora o regime também seja teocrático, a venda de bebidas com teor alcoólico de até 20% é tolerada em alguns hotéis de luxo, apenas para turistas não islâmicos. Quem é pego consumindo a substância fora das zonas de exclusão pode sofrer multas elevadas, além de prisões prolongadas e deportação. Para a população local, a proibição total continua em vigor.

Outras nações como Turquia e Senegal não vetam a venda e o consumo de álcool, pois são estados laicos, apesar da população de maioria muçulmana.

Nesse ambiente tão diverso, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) optou por entregar uma versão do troféu sem a logomarca da Michelob Ultra para os atletas de origem islâmica.

Caso de Mohamed Salah, que recebeu a homenagem de melhor jogador na vitória do Egito sobre a Nova Zelândia por 3 a 1, no último domingo (21), diante de um backdrop que não trazia o símbolo da marca de cerveja.

Vale lembrar que o Egito, apesar de ser de maioria islâmica, possui leis mais flexíveis quanto às bebidas alcoólicas.

O produto pode ser consumidor em hotéis, resorts, bares, restaurantes e baladas, até mesmo por cidadãos locais (exceto no mês sagrado do Ramadã).

Porém, a venda não ocorre em supermercados e mercearias, e as pessoas não podem ingerir em locais públicos.

Constrangimento

Os jogadores de origem islâmica não são a única dor de cabeça para a Michelob Ultra e outras marcas de cerveja, que atualmente precisam se defrontar com uma geração de jovens atletas que rejeitam o consumo de álcool por escolha própria.

Um exemplo que chamou a atenção foi o do atacante brasileiro Vinicius Júnior, escolhido melhor jogador do confronto entre Brasil e Haiti, na sexta-feira passada (19).

Após receber o troféu com a logomarca da Michelob, o atleta foi questionado sobre qual sua comida preferida para acompanhar uma cerveja.

“Não tomo cerveja. Então, é mais complicado para mim. Sempre que a gente vai encontrar os amigos, a gente come arroz, feijão, carne com batata frita, que é o prato típico do Brasil”, respondeu o jogador.

Apesar desse constrangimento, Vinicius Júnior voltou a ganhar o troféu de melhor do jogo oferecido pela Michelob, desta vez das mãos do ex-lateral-direito Cafu, por sua atuação na vitória do Brasil diante da Escócia, por 3 a 0, nesta quarta-feira (24).