Recentemente, patches e outras aplicações em camisas de futebol deixaram de cumprir apenas a sua função original de identificação. Nesse sentido, escudos, emblemas de competições, nomes, números e outros acabamentos passaram a integrar o processo de diferenciação de versões dos uniformes, além de também proporcionar uma maior oferta de personalização dos modelos e ainda aumentar o valor percebido pelos torcedores em uma camisa.
A transformação desse mercado pode ser observada através da trajetória da Cromotransfer, que completa 30 anos de atuação em 2026 e produz escudos de clube, patches de competição, marcas de patrocinador, nomes e números para camisas de futebol. Com fábricas no Brasil e na Argentina, a empresa atua no fornecimento para marcas esportivas, clubes, organizadores de competições e varejistas. De acordo com a companhia, seus produtos chegam a lojas de mais de 40 países.
Para Bernard Schmidt, CEO da Cromotransfer, o impacto comercial dos patches cresceu à medida que as camisas passaram a ser exploradas em diferentes frentes.
“O patch de competição deixou de ser um detalhe de uniforme e virou um ativo comercial por direito próprio. Ele cumpre três funções ao mesmo tempo: identifica a competição em campo, diferencia a camisa vendida no varejo e, depois do jogo, vira objeto de colecionador. Poucos produtos conseguem viver esses três momentos”, disse o executivo à Máquina do Esporte.
“Isso mudou a natureza do nosso trabalho. Há dez anos a discussão com uma organizadora era sobre prazo e volume. Hoje é sobre construção de valor: como aquele emblema vai se comportar no varejo, o que ele significa para o torcedor, como ele se protege da falsificação e o que ele se torna quando a temporada acaba”, completou.
Valor
A diferenciação entre versões de uma mesma camisa é uma das frentes em que essas aplicações ganham importância. Segundo Schmidt, relevo de escudos, tipografia de números e acabamento dos patches estão entre os elementos percebidos pelo consumidor ao comparar uma camisa original com uma réplica do mercado paralelo.
“São essas as peças que o torcedor olha, toca e pelas quais paga mais. Elas são a razão de alguém escolher a camisa authentic em vez da réplica, e é nelas que a receita de camisa de um clube é decidida. Muito além de fazer com que fiquem ainda mais bonitas, trabalhamos para torná-las mais valorizadas e difíceis de copiar”, destacou o CEO da Cromotransfer.
A lógica amplia o papel de elementos que representam uma parcela pequena da área física do uniforme, mas podem interferir na percepção sobre acabamento, autenticidade e qualidade. Para clubes e fornecedores, isso coloca patches, nomes, números e escudos também dentro da discussão sobre posicionamento das diferentes versões colocadas no varejo.
A personalização é outra vertente desse mercado. No caso do Flamengo, a Cromotransfer afirma produzir, por meio da Adidas, elementos não têxteis da coleção oficial e desenvolver projetos para a rede de lojas do clube, incluindo patches temáticos e personalização com nomes e números. A empresa também tem Puma, New Balance, Umbro e Nike entre os seus clientes e, como consequência disso, está presente em muitos uniformes dos times parceiros dessas empresas.
“Somos um ingrediente nobre. O torcedor não compra uma camisa por causa da gente, mas é a qualidade do nosso trabalho que faz aquela camisa se destacar. E os profissionais que decidem o que vai nela sabem exatamente quem somos, e do que somos capazes”, destacou Schmidt.
Colecionismo
A expansão do colecionismo adiciona outra camada comercial aos patches. Na avaliação de Schmidt, a camisa vem deixando de ser tratada apenas como um produto vinculado a uma temporada e ganhando espaço como item de acervo.
Esse movimento alcança também os próprios emblemas. Segundo o executivo, patches utilizados por atletas já podem ser recolhidos e reaproveitados como componentes de produtos colecionáveis, como cards. Nesse modelo, uma aplicação inicialmente produzida para o uniforme passa a ter uma segunda utilização comercial depois da partida.
A atuação da Cromotransfer com competições ilustra essa mudança. A empresa detém desde 2022, segundo o material fornecido, licença da Fifa para os “Champions Badges”. Em 2025, recebeu também uma licença para produzir patches da Copa do Mundo de Clubes e trabalhar na personalização das camisas das 32 equipes participantes.
Entre 2023 e 2026, a empresa ainda produziu os patches, nomes e números para a Saudi Pro League, campeonato de futebol da Arábia Saudita. Já no Brasil, a companhia fechou recentemente um acordo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para o fornecimento e o licenciamento dos patches da Copa do Brasil.
Tecnologia
A ampliação do valor associado às aplicações também aumenta as exigências relacionadas a durabilidade, padronização e combate à falsificação. Nesse sentido, a Cromotransfer testa os produtos em laboratório antes da saída da fábrica e afirma trabalhar com a mesma tolerância de produção para amostras e lotes maiores.
A empresa também diz ter sido uma das primeiras fabricantes a inserir chip NFC em um patch, em um projeto com a empresa de tecnologia VestID. Na avaliação de Schmidt, recursos de rastreabilidade podem ser usados para autenticação, relacionamento com torcedores e identificação de peças utilizadas em partidas.
A proteção contra cópias, por sua vez, ainda aparece nos nomes e números. De acordo com a companhia, aplicações produzidas para camisas do Flamengo contam com tecnologia antifalsificação desenvolvida em seu laboratório de Joinville.
“A rastreabilidade digital aplicada ao produto abre caminhos que a indústria ainda está descobrindo, como autenticação, relacionamento direto com o torcedor e valorização de peças usadas em jogo”, destacou o executivo.
Além disso, para Schmidt, a discussão tende a avançar à medida que clubes, ligas e fabricantes tratam esses componentes como parte da proposta comercial do uniforme, e não apenas como custo de produção. Nesse cenário, patches em camisas de futebol passam a conectar design, personalização, diferenciação de produto e colecionabilidade dentro de uma mesma cadeia.
“Sobre como os clubes aproveitam isso, minha resposta é sempre a mesma. Tratar esses elementos como despesa é a economia mais cara que existe. Eles são o que justifica o preço de uma camisa de alta tecnologia”, concluiu.
