Duas novidades recentes envolvendo estrelas do futebol mundial e direitos de transmissão esportivos passaram quase despercebidas, mas elas podem explicar uma mudança que merece bem mais atenção do que as notícias receberam.
Alexia Putellas, capitã da seleção espanhola e uma das maiores referências do futebol feminino, lançou o Eleven TV, canal no YouTube com direitos exclusivos na Espanha de um jogo por rodada da Women’s Super League (WSL), o Campeonato Inglês de Futebol Feminino, que estreou com o London City Lionesses, novo clube da jogadora, enfrentando o Manchester United. O canal reúne entrevistas, análises e conteúdo original, e já aparece conectado a movimentos comerciais maiores, como o novo e histórico patrocínio firmado entre o próprio London City Lionesses e a Nike.
Também recentemente, Jamie Vardy, ex-atacante do Leicester e da seleção inglesa, fechou um acordo parecido, mas com a Bundesliga, para transmitir sete jogos de sexta-feira no seu canal no YouTube, também com exclusividade, para os mercados do Reino Unido e da Irlanda.
Nos dois casos, o jogador deixou de ser só o protagonista da partida e virou quem decide como e onde o torcedor assiste a ela.
Por trás disso está um movimento maior das próprias ligas. Os grandes pacotes de direitos continuam indo para as emissoras tradicionais, mas uma fatia menor, um dia específico da semana, um território, um formato, passou a ser vendida separadamente para quem já tem público fiel esperando do outro lado da tela. No Brasil, isso também já aconteceu: a Romário TV adquiriu os direitos de um jogo por rodada da Bundesliga e da Bundesliga 2 para o país, somando os torneios alemães a um portfólio que já incluía Copa do Nordeste, Copa Verde e Série D do Brasileirão.
O interessante é entender o que muda na forma de calcular quanto vale esse tipo de direito. Antes, o preço vinha do tamanho do mercado e da audiência esperada em TV aberta ou fechada. Agora, quem compra também está de olho no público que já segue aquele jogador, geralmente mais jovem, a proximidade que ele tem com essa audiência e a facilidade de criar conteúdo que só funciona dentro do YouTube, como bastidores e conversas mais soltas entre os jogos. É um jeito de chegar em quem nunca assinou TV paga e talvez nem acompanhe mídia esportiva tradicional, mas passa boas horas do dia dentro da plataforma.
A fragilidade desse modelo, porém, talvez esteja na principal vantagem dela, porque depende de uma pessoa só. Uma emissora sobrevive tranquilamente à saída de um apresentador. Já um canal construído em torno de um atleta sente na hora qualquer problema dentro ou fora de campo.
Mesmo assim, a direção parece dada. O jogador virou também quem distribui o conteúdo, e, em um momento em que todo mundo briga pela atenção do torcedor, ter essa audiência nas mãos já vale tanto quanto ter os direitos de transmissão.
O conteúdo desta publicação foi retirado da newsletter semanal Engrenagem da Máquina, da Máquina do Esporte, feita para profissionais do mercado, marcas e agências. Para receber mais análises deste tipo, além de casos do mercado, indicações de eventos, empregos e mais, inscreva-se gratuitamente por meio deste link.
A Engrenagem é produzida por Theodoro Montoto, profissional de marketing, estratégia, planejamento e análise de mercado, e conta com uma nova edição todas as quintas-feiras, às 9h09.
