Os estádios vazios da pandemia criaram o maior experimento da história do futebol: os dados mostram que o torcedor não apenas assiste ao jogo; ele também mexe no placar.
Em agosto de 2020, o Campeonato Brasileiro começou com quatro meses de atraso e nenhuma pessoa nas arquibancadas. Quem ligava a TV estranhava tudo: o eco da voz dos jogadores, o grito do técnico atravessando o campo inteiro, o barulho seco da bola batendo na placa de publicidade. Os comentaristas repetiam que os jogos tinham ritmo de treino.
Os clubes reagiram de um jeito curioso. Vários contrataram DJs e operadores de áudio para tocar gravações de torcida nos estádios vazios. O objetivo era fazer o jogador sentir em campo o clima de uma partida oficial, e não o de um coletivo no CT.
Vale parar um instante nessa cena. Clubes que tinham acabado de perder a bilheteria, no meio de uma crise sem precedentes, gastaram dinheiro para reproduzir o som de pessoas que não estavam lá. Ninguém precisou de um estudo para tomar essa decisão. Bastou a intuição de quem vive o futebol por dentro: sem barulho, alguma coisa importante sai de campo junto da torcida. E essa intuição merece ser levada a sério, porque esconde uma pergunta que o mercado do esporte raramente faz com todas as letras: quanto vale o barulho de uma arquibancada?
Não falo do ingresso de quem está lá, nem da cerveja, nem da camisa vendida na loja. Falo do barulho em si. Da presença. Do efeito que milhares de pessoas gritando ao mesmo tempo produzem sobre o que acontece no gramado.
A ciência passou décadas tentando medir isso. A pandemia, de forma trágica e involuntária, entregou aos pesquisadores o experimento que faltava. Mas, antes de chegar aos estádios vazios, é preciso entender por onde esse barulho entra.
Primeiro, no corpo de quem grita
No dia 17 de julho de 1994, dois bares de Atlanta, nos Estados Unidos, viraram um laboratório. Em um deles, torcedores brasileiros. No outro, italianos. Pesquisadores da Georgia State University coletaram a saliva dos dois grupos antes da final da Copa do Mundo e repetiram a coleta depois que Roberto Baggio mandou o último pênalti por cima do travessão.
Dos 12 brasileiros, 11 saíram do bar com a testosterona mais alta do que entraram. Os 9 italianos, sem exceção, saíram com a taxa mais baixa. Os pesquisadores anotaram também o que viram depois do apito. Alguns brasileiros foram detidos por comemorar demais na rua. Os italianos pareciam abatidos, apáticos, sem reação nem às provocações.
Ninguém naqueles bares chutou uma bola. Mesmo assim, o corpo de cada um reagiu como se tivesse estado em campo. O estudo, publicado em 1998 por Paul Bernhardt e colegas na revista Physiology & Behavior, tem uma amostra pequena e deve ser lido com essa ressalva. Ainda assim, descreve com precisão rara algo que qualquer pessoa que trabalha com futebol já viu de perto: o torcedor não assiste ao jogo; ele joga junto.
A psicologia ajuda a entender o porquê. Em 1979, Henri Tajfel e John Turner formularam a Teoria da Identidade Social, segundo a qual parte de quem somos vem dos grupos a que pertencemos. Defendemos esses grupos com o mesmo empenho com que defendemos a própria imagem.
Três anos antes, Robert Cialdini tinha levado a ideia para o mundo real. Ele e sua equipe contaram, às segundas-feiras, quantos universitários norte-americanos iam às aulas vestindo roupas da faculdade. Depois das vitórias do time de futebol americano, eram mais. Quando perguntados sobre a partida, os estudantes diziam “nós vencemos”. Na derrota, o sujeito da frase mudava de lugar, e quem perdia eram “eles”.
No Brasil, esse “nós” costuma nascer em casa. Uma dissertação da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR) ouviu 955 crianças de dez anos e concluiu que a família, sobretudo na figura do pai, pesa de forma decisiva na escolha do time. Quando a família não liga para futebol, quem ocupa esse lugar é o melhor amigo. O clube chega antes de qualquer critério, e por isso se instala tão fundo.
Em 2011, Mina Cikara, Matthew Botvinick e Susan Fiske foram buscar esse vínculo dentro do cérebro. Colocaram torcedores de Boston Red Sox e New York Yankees, da MLB, em uma máquina de ressonância magnética. Ver o próprio time vencer ativava o estriado ventral, região ligada ao prazer e à recompensa. E ver o rival perder ativava a mesma área, mesmo quando o rival perdia para um terceiro time qualquer.
Identidade, hormônio, prazer. Quando uma arquibancada grita, não é plateia reagindo a um espetáculo. É gente defendendo uma parte de si.
Depois, na cabeça de quem decide
Por muito tempo, o pensamento ocidental tratou a emoção como ruído, algo que atrapalha o raciocínio. O neurocientista português António Damásio desmontou essa ideia em “O Erro de Descartes”, de 1994.
Damásio estudou pacientes com lesões no córtex pré-frontal, área que conecta emoção e raciocínio. Eles continuavam inteligentes, com memória, linguagem e lógica intactas, mas perdiam a capacidade de sentir o peso das coisas. E, sem isso, não conseguiam decidir nem a data de uma consulta médica. A emoção, concluiu ele, não atrapalha a decisão; na verdade, é o que permite que ela aconteça.
Daniel Kahneman, Nobel de Economia em 2002, chegou a um lugar parecido por outro caminho. Em “Rápido e Devagar”, mostra que a maior parte das nossas escolhas passa por um sistema rápido, intuitivo e emocional, inclusive as que juramos ter pensado com calma.
Se a emoção participa das decisões de qualquer pessoa, participa também das decisões da figura que o futebol mais gostaria de imaginar imune a ela: o árbitro.
Em 2002, os pesquisadores britânicos Alan Nevill, Nigel Balmer e Mark Williams montaram um experimento simples. Reuniram árbitros qualificados e mostraram a eles, em vídeo, uma sequência de divididas gravadas de uma única partida. Cada um tinha de decidir, lance a lance, se havia falta. Os lances eram os mesmos para todos. A única diferença era o áudio.
Um grupo assistiu com o barulho da torcida ao fundo. O outro, em silêncio. O efeito, nas palavras dos próprios autores, foi dramático. Quem ouvia a torcida ficou mais inseguro e marcou 15,5% menos faltas contra o time da casa do que quem viu as mesmas jogadas sem som.
Ninguém ali corria risco de ser xingado na saída. Não havia estádio, nem resultado em jogo, nem carreira em xeque. Havia apenas o som de milhares de pessoas reagindo a uma jogada. Bastou isso para mudar a decisão de profissionais treinados justamente para não se deixar influenciar.
Em 2007, parte do mesmo grupo voltou ao tema para entender o mecanismo. Com o mesmo vídeo, mediu a ansiedade dos participantes logo depois da tarefa. O viés a favor do mandante aparecia com mais ansiedade e mais esforço mental. A leitura dos autores é que o árbitro, diante do barulho, alivia a própria tensão optando pela decisão mais popular. Sem má-fé, pois é quase sempre sem perceber.
Quando o som desligou
Durante décadas, essa hipótese só pôde ser testada em laboratório ou em casos isolados, como partidas com portões fechados por punição. Ninguém em sã consciência esvaziaria todos os estádios de uma liga para ver o que acontecia.
Em 2020, a pandemia fez isso no mundo inteiro, ao mesmo tempo. Pela primeira vez, os pesquisadores tinham milhares de jogos oficiais disputados sem torcida para comparar com milhares disputados com ela.
Na Universidade de Salzburg, na Áustria, Michael Leitner e Fabio Richlan compararam 645 partidas das principais ligas europeias na temporada 2018/2019 com 641 jogos sem público da temporada seguinte. A taxa de derrotas dos mandantes saltou de 27,6% para 36%. Os árbitros passaram a mostrar muito mais cartões amarelos por falta aos jogadores da casa, enquanto os cartões dados aos visitantes ficaram praticamente iguais.
Richlan resumiu o achado em uma frase curta: sem torcida, sem vantagem de jogar em casa. Os autores leram a mudança como o desaparecimento de um favoritismo inconsciente. Sem o barulho, os árbitros passaram a julgar o time da casa com mais rigor. O estádio vazio confirmou, fora do laboratório, o que Nevill tinha visto em vídeo quase 20 anos antes.
Na Alemanha, um estudo publicado no International Journal of Sports Medicine comparou as rodadas finais da Bundesliga antes da paralisação com os jogos disputados depois do retorno, já sem público. As vitórias dos visitantes cresceram 44,2% na primeira divisão.
No Brasil, o efeito também apareceu. Com dois terços do Brasileirão de 2020 disputados, um levantamento do Espião Estatístico mostrou que os mandantes tinham vencido 99 de 237 partidas. Os 42% de vitórias eram o menor índice desde 2006, quando a Série A passou a ter 20 clubes em pontos corridos. Entre 2010 e 2019, os donos da casa tinham vencido 49% dos jogos.
O mesmo levantamento registrou algo inédito em oito edições acompanhadas: pela primeira vez, os jogadores do time da casa receberam mais da metade dos cartões vermelhos da competição (39), contra 37 dos visitantes.
É justo dizer que a ciência não fala em uníssono. Revisões da literatura mostram que o efeito variou de liga para liga, e alguns estudos encontraram vantagem dos mandantes mesmo sem público. Familiaridade com o gramado, desgaste com viagem e rotina também pesam. A torcida não explica sozinha a força de jogar em casa. Mas os números deixam pouca dúvida de que ela é uma parte relevante dessa conta, e talvez a mais subestimada.
A resposta está na tabela
Volto, então, à pergunta do título: quanto vale o barulho de uma arquibancada?
Os números que acabamos de ver já desenham a resposta. Na Europa, sem torcida, os mandantes passaram a perder mais de um terço dos jogos. No Brasil, venceram menos do que em qualquer outra edição dos pontos corridos com 20 clubes. Em dois continentes, com culturas de arquibancada muito diferentes, o silêncio cobrou seu preço no mesmo lugar: a tabela.
E em um campeonato decidido por detalhes, a tabela é tudo. É ela que separa a vaga na Libertadores da campanha comum, o acesso da permanência, a permanência do rebaixamento. O barulho de uma arquibancada vale pontos. E pontos, no futebol, valem dinheiro, vaga, calendário e destino.
Trabalho há muitos anos com relacionamento entre clubes e torcedores, e sempre defendi que o torcedor é o principal ativo de um clube. É dele que vêm o ingresso, a camisa, a audiência, o interesse do patrocinador. E é dele que vem algo anterior a tudo isso: a própria razão de um clube existir.
O que a ciência acrescenta a essa convicção é uma dimensão que costuma ficar fora das conversas de negócio. Além de comercial, o valor do torcedor é esportivo: o grito que faz o árbitro hesitar e a presença que empurra o time em casa também entram na conta, ainda que em nenhuma planilha.
Os estádios vazios de 2020 tornaram essa dimensão visível como nunca. Quando a arquibancada silenciou, ficou claro que ela não é apenas o lugar onde se vende ingresso e se exibe marca, mas também parte do espetáculo e parte do resultado.
A mesma lógica serve para as marcas. O patrocinador que ajuda o torcedor a chegar, a ficar e a viver melhor o dia de jogo se associa à parte do futebol que realmente mexe com o resultado. E o torcedor sabe distinguir quem aparece na festa de quem ajuda a fazê-la.
Por fim, talvez a mudança mais profunda seja de vocabulário. O futebol se acostumou a chamar o torcedor de público, de consumidor, de audiência. São palavras úteis para planilhas. Todas elas, porém, colocam o torcedor do lado de fora do jogo, quando a ciência insiste em mostrá-lo do lado de dentro.
O som que não se grava
Os brasileiros daquele bar em Atlanta estavam a milhares de quilômetros do gramado. A testosterona subiu, a comemoração tomou a rua, mas o grito deles não tinha como chegar ao campo. O de quem estava nas arquibancadas, no entanto, tinha.
O tempo passou e, 26 anos depois, os clubes brasileiros tentaram recriar esse grito com caixas de som. A iniciativa dizia muito sobre o que o futebol intui e quase nunca formaliza. Mas os números de 2020 mostraram o limite da tentativa: a gravação enganava o ouvido de quem assistia pela TV, só que não enganava o árbitro, nem o adversário, nem o próprio time.
Porque o barulho que vale pontos não é apenas som. É reação em tempo real, é tensão que sobe junto com o lance, é a sensação de que milhares de pessoas estão ali e se importam. É a única coisa do futebol que nenhum clube consegue comprar pronta, contratar no mercado ou reproduzir em estúdio.
Quanto vale, então, o barulho de uma arquibancada?
Vale pontos, vale campanhas, às vezes vale uma temporada inteira. Mas talvez a resposta mais honesta seja outra: vale o suficiente para que a gente pare de chamar quem faz esse barulho de público.
Porque público assiste. Mas torcedor joga junto.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Samanta Vicentini é especialista em Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM) e estratégias de relacionamento e fidelização de fãs. Com passagens nos programas de sócio-torcedor de Flamengo, Palmeiras e Vasco, acumula experiência no uso de dados para fortalecer o vínculo entre clubes e torcedores, gerando recordes de retenção e faturamento
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