Em uma visita ao CF Badalona, na região de Barcelona, na Espanha, encontrei um exemplo de como a profissionalização do futebol aparece nas decisões cotidianas e repercute do desenvolvimento esportivo à saúde financeira.
Marc Serra, CEO e um dos proprietários do clube, destacou algo que também valorizo na gestão de atletas e organizações: dedicar tempo e recursos para compreender o ambiente, definir objetivos e construir condições para alcançá-los, com ações coerentes e respeito às etapas e ao tempo de cada processo.
Os investidores buscavam um projeto duradouro, com identidade e vínculo com a cidade. Fundado em 1903, o CF Badalona é o oitavo clube profissional mais antigo da Espanha, e sua história orientou essa escolha.
“Não queríamos um clube apenas para melhorá-lo um pouco e vendê-lo. Viemos com um projeto que, para nós, tanto para Michel quanto para Amir e Marc, é um projeto de vida. Queríamos um clube que nos permitisse permanecer por muitos anos e, sobretudo, construir com uma identidade muito marcada. O primeiro ano foi sobretudo para entender o que o clube representava para as pessoas, tanto para aquelas que o acompanham quanto para aquelas que não”, explicou Marc.
Compreender antes de acelerar é importante em qualquer plano estratégico. No futebol, ganha relevância diante da paixão, da pressão e da urgência que influenciam as decisões. Conduzir o projeto exige analisar o contexto e manter os objetivos como referência, mesmo quando os resultados imediatos oscilam.
Isso aconteceu nos primeiros meses do trabalho com a consultoria.
“Nesses primeiros seis meses, estávamos na zona de rebaixamento. Estávamos lá embaixo, e o objetivo era estar em cima. Ou seja, imagine o contexto que havia aqui”, lembrou o executivo.
Segundo Marc, após implementar as melhorias, o time saiu da zona de rebaixamento e chegou aos playoffs. A experiência reforçou a importância da paciência, da gestão emocional e da clareza de objetivos. Essa postura se conecta à perspectiva empresarial que ele expressa.
“Nós não somos um clube de futebol. Somos uma empresa que se dedica ao futebol”, explicou.
O jogo está no centro de uma organização que precisa desenvolver pessoas, construir relações, gerar receitas e sustentar sua operação. Qualificar essa estrutura amplia as condições para a evolução esportiva.
Conhecer a história, ouvir pessoas, confrontar hipóteses e reconhecer necessidades exige método e competência profissional. No Badalona, o processo incluiu os ambientes interno e externo, como acredito que deve ocorrer em qualquer projeto. Uma consultoria externa ajudou os sócios a analisar sua dinâmica de trabalho e a percepção das pessoas sobre o projeto.
“Para nós, foi muito bom, porque nos permitiu, de alguma forma, sair do dia a dia, ver como trabalhávamos, ver a percepção das pessoas de fora e, a partir daí, ver qual é a nossa percepção, qual é a percepção das pessoas e tentar fazer essa combinação”, disse.
Referências de outros setores e a construção de uma cultura organizacional passaram a orientar contratações, responsabilidades e comportamentos.
“Dentro dessa cultura corporativa, você vai definir as pessoas que vai contratar, quais personalidades quer, quais necessidades vai ter e aí começa a construir realmente uma empresa sólida e alinhada entre cada uma das pessoas, sabe?”, salientou.

Profissionalização
A profissionalização avançou em diferentes frentes. A agência Flat Pink, especializada em conteúdo de futebol, assumiu a comunicação digital. Na formação esportiva, Mikel Azparren trouxe à direção da base experiência para estruturar as categorias. Cada competência respondeu a uma necessidade do projeto.
Entre este conjunto de iniciativas, destaco o Badalona Connect, que exemplifica a coerência entre análise de cenário e ação estratégica. Ao identificar um tecido empresarial relevante e espaço para aproximar seus integrantes, o clube estruturou uma rede para empresas e profissionais, ampliando conexões e possibilidades de geração de valor.
“Criamos um projeto chamado Badalona Connect, voltado tanto para pequenas empresas e profissionais autônomos quanto para grandes empresas. Dependendo da modalidade de adesão que você escolher, terá acesso ao aplicativo e à possibilidade de se reunir com uma empresa de embalagens, de energia ou de qualquer outro setor, de uma forma que seja útil para todos”, contou Marc.
Pequenos negócios podem acessar o mesmo ambiente que grandes organizações, apresentar serviços e construir oportunidades comerciais. No centro dessa conexão, o clube amplia sua relevância na cidade e sua atuação como plataforma de relacionamento, comunicação e negócios.
E quando eu questionei como o clube se beneficia diretamente, a resposta foi simples.
“Primeiro, para pertencer a esse clube, você tem que pagar mensalidades. Segundo, o Badalona ganha conexão com as empresas, portanto, daqui pode conseguir patrocinadores, colaborações, parcerias, etc. Depois, uma parte também qualitativa, de que o clube realmente começa a ser um agente importante na cidade”, explicou o executivo.
Essa visão abre frentes de negócio e fortalece a presença do clube na cidade.
“Aos domingos joga futebol, mas de segunda a sábado há outras coisas para fazer”, enfatizou.
O Badalona Connect tem horizonte de médio e longo prazo. No curto prazo, a comunicação digital foi escolhida para ampliar rapidamente a visibilidade, fortalecer o posicionamento e construir ativos comerciais.
“A parte qualitativa nos permitiu nos posicionar como um clube moderno, clube que se comunica bem, etc. E a parte quantitativa nos permitiu começar a fechar contratos de patrocínio”, comentou.
A capacidade de comunicar integra a proposta de valor às marcas. Visibilidade, identidade e relacionamento se articulam para gerar negócios.
Atletas
Os jogadores também participaram. Marc destacou Álvaro Vázquez, atleta com experiência internacional e presença relevante nas redes sociais, que voltou à sua cidade para jogar pelo Badalona.
“E, bem, ele nos ajudou muito dentro de campo, também no vestiário, porque era um líder incrível, mas sobretudo também nos ajudou muito a impulsionar essas redes sociais e a dar essa projeção”, afirmou o executivo.
O exemplo mostra a contribuição do atleta no desempenho esportivo, nas relações internas e na comunicação do clube. Reconhecer essas dimensões ajuda a compreender onde nasce o valor de um jogador e sua contribuição à organização. Abordo com frequência a relevância da formação integral e das múltiplas competências dos atletas. Esse caso reforça minha convicção.
Torcida
A aproximação com a torcida seguiu a mesma lógica: antes de esperar seu retorno ao estádio, os gestores entenderam que precisavam se aproximar dela.
“Temos que, como clube, ir até a cidade, e depois os torcedores virão. Mas somos nós que temos que ir até lá e dizer: ‘olha, somos o Badalona, representamos estes valores, representamos a sua cidade desta maneira, por que você não se junta a nós?’. E então virão”, analisou.
Conversar com os torcedores, apresentar o projeto e demonstrar compromissos integrou a construção de confiança. Mas Marc reconheceu que esse vínculo exige tempo.
“Eu prometo a você, ou digo que vou fazer isso, ou que sou isso como clube agora, mas há um período em que você precisa demonstrar que realmente é o que diz”, destacou.
Formação dos atletas
Essa visão alcança a formação dos jogadores. Marc destacou o desenvolvimento integral e iniciativas para organizar a comunicação entre clube, atletas e famílias. Para ele, a identidade precisa aparecer nas práticas de todos.
“Definimos uma identidade de clube, e essa identidade de clube precisa ser representada por todas as pessoas naquilo que fazemos. Portanto, a formação integral do jogador é básica”, disse.
Essa convicção se traduz em instrumentos de relacionamento e acompanhamento: um aplicativo para os pais reúne notícias, planejamento de treinos e contatos.
Na internacionalização, há duas frentes: receber jovens para combinar formação acadêmica e desenvolvimento esportivo; e identificar atletas para o primeiro time. Cada proposta tem objetivos, critérios e expectativas próprios. Sobre a primeira, Marc explicou que “você pode continuar desenvolvendo sua carreira futebolística e ver qual das duas, no fim, pode se encaixar melhor no seu futuro e nos seus objetivos”.
A segunda, porém, tem finalidade esportiva específica. Para Marc, “depois há a parte puramente de atleta, que são aqueles jogadores que realmente têm um nível muito alto e que podem fazer parte do primeiro time, neste caso”.
A formação abre também caminhos em outros clubes. Marc citou jogadores que seguiram para o Girona e a Real Sociedad, mostrando oportunidades além da equipe principal do Badalona.
Longo prazo
A visão de longo prazo conecta ambição esportiva e sustentabilidade financeira. Os investidores estabeleceram cinco anos para sair da categoria atual, enquanto constroem receitas para continuar o projeto, caso o acesso demore mais.
“Por um lado, sair da categoria, mas, por outro lado, gerar receitas para que, se dentro de cinco anos, não tivermos conseguido, possamos continuar, porque o clube já funciona”, enfatizou.
A estratégia contempla diferentes cenários. Desenvolver a capacidade de continuidade faz parte da busca pelo resultado esportivo.
O Badalona mostra a importância de combinar gestão, profissionais especializados e compreensão do futebol para construir ações coerentes e com maiores chances de êxito. Vejo um paralelo direto com o planejamento de carreira. Compreender quem é o jovem atleta, seu contexto, suas necessidades e seus objetivos deve orientar oportunidades e a organização da rede de apoio.
Uma mudança de clube, uma experiência internacional, o trabalho de comunicação ou a participação de especialistas em nutrição, fisioterapia, psicologia e análise tática precisam fazer sentido na trajetória. Seu valor cresce quando as ações se conectam entre si e aos objetivos de curto, médio e longo prazo.
Recursos financeiros permitem executar. A competência profissional orienta onde, quando e para quê aplicá-los.
O planejamento não elimina incertezas, mas ajuda a compreender cenários, organizar decisões e ajustar o percurso. A paixão mobiliza pessoas e fortalece projetos, e, para sustentar essa energia, análise, planejamento e profissionalismo precisam estar presentes em todas as áreas.
Antes de acelerar resultados, compreender e desenvolver o ambiente é uma escolha estratégica. Na gestão de clubes e na formação de atletas, amplia as possibilidades de sucesso e de construção de valor ao longo do tempo.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva
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