O esporte vive do imponderável.
Afinal, é justamente a incerteza do resultado que separa uma competição real de um filme ou peça de teatro, em que o final já está escrito. Portanto, essa essência, representada pela imprevisibilidade, constitui o núcleo emocional e econômico de todas as modalidades esportivas, dos campos de futebol às quadras de tênis, das pistas de atletismo às arenas de combate.
Nesse sentido, o espetáculo só funciona quando une desempenho, técnica e surpresa. São esses elementos que mantêm o público engajado, atraem patrocinadores e fazem girar os investimentos que sustentam toda a indústria. Assim, quando a manipulação de resultados incide sobre esse ambiente, a lesão ultrapassa o plano moral e alcança a própria lógica de funcionamento da indústria.
Resultados forjados poluem estatísticas, distorcem rankings e destroem a confiança que dá valor comercial às competições. O prejuízo se projeta de forma transversal, alcançando atletas, entidades organizadoras, patrocinadores, veículos de mídia e todo o ecossistema que gravita em torno do esporte.
Em 2026, o Brasil vive uma realidade bem diferente dos anos de incerteza regulatória do mercado de apostas. A regulamentação, iniciada lá atrás em 2018, amadureceu e se estabeleceu. Hoje, os operadores atuam em um ambiente vigiado, com regras claras de transparência, identificação de usuários e rastreamento de transações.
Contudo, a legalização não extinguiu o crime; ela apenas mudou o tabuleiro onde a guerra pela integridade é travada. Isso exige que as entidades de prática desportiva e as empresas operadoras de apostas atuem de maneira unificada e com unidade de desígnios. Na semana passada, fatos alarmantes nos lembraram que a cooptação de atletas segue métodos diversos e agressivos, atingindo desde o futebol até o tênis.
A denúncia do Ministério Público do Paraná por tentativa de aliciamento de jogadores do Mirassol e do Londrina para a manipulação de cartões amarelos é um exemplo claro dessa investida criminosa. A resposta ética e firme do atleta Reinaldo, ao recusar a oferta, exemplifica a postura que os programas de compliance institucional e a educação dos envolvidos buscam fomentar.
Por outro lado, o relato do tenista espanhol Nikolás Sánchez-Izquierdo sobre ameaças de apostadores em um torneio na Argentina evidencia que o risco transcende o suborno financeiro, atingindo a integridade física dos protagonistas. Tais episódios reforçam que a manipulação de competições é um problema global e complexo, que não distingue nação, modalidade ou nível competitivo. E, mais do que isso, que deve ser uma preocupação de todas as partes interessadas (stakeholders) do esporte e dos operadores de apostas.
Nesse contexto, impõe-se desfazer a percepção ainda recorrente de que operadores de apostas extraem benefícios desse cenário. A manipulação interfere diretamente na formação das probabilidades, desorganiza modelos matemáticos de precificação, gera perdas financeiras imediatas e compromete a credibilidade do mercado perante apostadores e investidores.
Apenas como exemplo: 9 jogos comprovadamente manipulados das Séries B, C e D do Campeonato Brasileiro, da Copa Verde e de Campeonatos Estaduais profissionais e Sub-20 geraram um prejuízo direto para as operadoras de R$ 4,85 milhões em prêmios pagos sobre resultados fraudulentos. A integridade da competição revela-se, portanto, um ativo econômico essencial também para esse segmento.
Sob a perspectiva do jogo íntegro, a existência de um mercado regulamentado demonstra superioridade inequívoca em relação ao ambiente anteriormente marcado pela informalidade. A supervisão estatal permite monitoramento em tempo real, compartilhamento de alertas, identificação de padrões atípicos e interlocução direta entre operadores, entidades esportivas e autoridades públicas.
No plano institucional, observa-se um avanço relevante com a estruturação de áreas governamentais especificamente voltadas ao tema. O Ministério do Esporte passou a contar com um órgão direcionado à integridade das competições, sinalizando que a preservação da imprevisibilidade esportiva ingressou definitivamente na agenda pública.
Assim, o caminho que se delineia aponta para uma atuação coordenada, vigilância permanente e aprimoramento contínuo de mecanismos de detecção e resposta. A proteção do resultado legítimo interessa a todos que integram a cadeia econômica do esporte.
A partir dessa lógica, consolida-se a compreensão de que a imprevisibilidade é o verdadeiro ativo econômico da indústria do esporte, que preserva o interesse do torcedor-consumidor e, por consequência, valoriza propriedades comerciais, atrai investimentos e legitima o mercado.
Proteger a incerteza do resultado significa, em última análise, proteger a própria viabilidade econômica do setor, assegurando que o esporte permaneça competitivo, confiável e financeiramente sustentável em todas as suas modalidades.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Mariana Chamelette é advogada, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, especialista em Direito Desportivo e em Governança e Compliance no Futebol. Atualmente, ocupa os cargos de vice-presidente do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) do Futebol de São Paulo, conselheira do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo (IBDD) e secretária-geral da Comissão Especial do Direito dos Jogos, Apostas e do Jogo Responsável da OAB/SP
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