A Copa do Mundo que começa nesta quinta-feira (11) promete ser um divisor de águas na forma como o torcedor consome futebol. Não apenas pelo aumento de seleções, jogos e histórias, mas principalmente pela maneira como esse conteúdo chegará ao público. Se as últimas edições já mostraram um processo de transformação no comportamento da audiência, 2026 tende a consolidar uma nova lógica de cobertura: descentralizada, multiplataforma, “creator-driven” (modelo em que o conteúdo é concebido, produzido e liderado por criadores independentes, em vez de grandes corporações) e muito mais próxima do entretenimento digital do que da televisão tradicional.
A referência mais próxima talvez seja Paris 2024. Os Jogos Olímpicos deixaram claro que a cobertura esportiva entrou de vez na era dos “creators”. Influenciadores, streamers, produtores independentes e perfis especializados dividiram espaço com veículos tradicionais e produziram conteúdos capazes de gerar alcance, identificação e engajamento em níveis impressionantes. Na Copa do Mundo, a tendência é de que isso aconteça em escala ainda maior.
A diferença é que o futebol ainda tem uma capacidade de mobilização cultural e emocional superior. Isso significa mais “creators” credenciados, mais bastidores, mais formatos experimentais, mais linguagem de internet e uma disputa intensa pela atenção do torcedor em tempo real. O conteúdo da Copa não estará apenas nos jogos; estará nos hotéis, nos aeroportos, nas reações, nos desafios, nos memes, nas transmissões paralelas e nas experiências compartilhadas em todas as plataformas. Ou seja, 24 horas por dia, de 11 de junho a 19 de julho.
Outro ponto que deve marcar esta edição é a pulverização dos direitos de transmissão. Depois de algumas Copas do Mundo com um cenário relativamente concentrado, o mercado caminha para uma distribuição mais ampla de conteúdo e partidas entre diferentes veículos e linguagens. Isso representa uma mudança importante, principalmente para o público jovem, que já não consome futebol de forma linear.
A nova geração assiste futebol no celular, alterna entre telas, acompanha “reacts” enquanto vê os jogos e descobre momentos importantes por meio de cortes nas redes sociais. A Copa do Mundo de 2026 tende a abraçar esse comportamento de maneira definitiva. O consumo será fragmentado, e, ao mesmo tempo, potencialmente maior.
Isso abre espaço para plataformas digitais, streamings, canais independentes e modelos híbridos de distribuição que dialogam muito mais com os hábitos atuais de audiência. Não será apenas uma disputa por direitos esportivos; será uma disputa por relevância cultural dentro da conversa da internet.
Além disso, há uma expectativa enorme em torno do conteúdo produzido pelas próprias confederações nacionais. Nas últimas semanas, as convocações das seleções mostraram um salto criativo impressionante. Vídeos cinematográficos, “storytelling” emocional, participação de artistas, referências de cultura pop e estratégias pensadas para viralizar transformaram anúncios protocolares em grandes eventos digitais. Quem não amou o vídeo que revelou a convocação da seleção inglesa? Foi uma obra de arte.
A tendência é de que isso evolua ainda mais durante a Copa. As seleções entenderam que, hoje, são também marcas globais de entretenimento. O torcedor quer bastidor, proximidade, personalidade e narrativa. E quem conseguir entregar isso melhor provavelmente conquistará algo tão valioso quanto vitórias em campo: atenção.
A Copa do Mundo de 2026 deve ser lembrada não apenas pelo futebol jogado, mas pela maneira como o evento será vivido digitalmente. Será uma Copa das plataformas, dos “creators”, dos cortes virais, da cobertura em tempo real e da competição permanente pela atenção do público.
Mais do que nunca, o futebol será consumido como conteúdo.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
André Stepan é executivo de marketing esportivo e especialista em marketing digital, estratégia e novos negócios, além de atuar na área acadêmica como professor
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