Enquanto o país decora suas ruas de verde e amarelo, muitas marcas ainda assistem à maior competição esportiva do mundo sentadas no banco de reservas. Ficar em silêncio é uma derrota antecipada, com custos altos em relevância e na construção de comunidade. A Copa do Mundo é um território de paixão e um ativo comercial que não pertence exclusivamente a quem paga as cotas de patrocínio.
O maior erro do marketing nessa época é acreditar que a criatividade termina onde as diretrizes oficiais começam. Embora a Fifa proteja com rigor nomes como “World Cup 26”, o troféu e a tipografia oficial, ela não detém o monopólio da brasilidade. É preciso entender que as cores nacionais não são exclusivas. O uso do verde e amarelo em contextos esportivos é um direito de domínio público, garantido inclusive por decisões judiciais recentes.
É possível driblar através de códigos que já circulam na vida real, na estética da rua, a música que identifica, a memória afetiva e o pertencimento. Enquanto os patrocinadores compram visibilidade técnica em placas de led, as marcas buscam significado orgânico, tornando-se “culturalmente legíveis” para um público que respira futebol desde o berço.
Explorar o comportamento do torcedor não é segredo. As empresas devem focar no poder da comunidade. Afinal, o brasileiro não torce dentro de um manual de marcas, ele torce na calçada, na frente da TV com os amigos e entre bandeirinhas esticadas de um poste a outro. E ninguém melhor do que o criador de conteúdo para conversar com o torcedor.
Um exemplo prático dessa estratégia foi a ação que nossa cliente, Gabi Martins, fez com uma marca parceira. Fugindo de qualquer tentativa de parecer uma patrocinadora oficial, a campanha focou na experiência real. Ela reuniu amigos para um churrasco na rua antes do último amistoso no Rio de Janeiro, um cenário familiar para qualquer pessoa que viva no Brasil.
Ao conectar a imagem da Gabi a um hábito cultural enraizado e à emoção da torcida, alcançamos uma legitimidade que nenhum logotipo oficial conseguiria comprar. Em nenhum momento houve tentativa de sugerir vínculo oficial com a competição, a narrativa estava centrada nas pessoas e nos rituais que cercam esse período.
A relevância está na conversa e na experiência, não no patrocínio
Falar da Copa sem ser patrocinador significa compreender qual é a relação genuína da marca com aquele contexto, mais do que trocar termos proibidos por sinônimos. O que ela tem a acrescentar? Que histórias consegue contar? Como pode gerar entretenimento, identificação ou utilidade para seu público?
O ponto é abandonar a dependência dos grandes palcos para construir relevância. Dar liberdade ao criador de conteúdo sem um briefing engessado é essencial para uma conversa fluida com a torcida. A diferença entre uma ação esquecível e uma campanha memorável costuma estar no conhecimento das marcas de saber ocupar o imaginário coletivo com inteligência. A relevância vem de entender que o futebol no Brasil tem paixão e identificação.
No fim, o cuidado é essencial, mas ele não deve anular a criatividade. Participar de momentos como a Copa do Mundo é um direito de qualquer marca que saiba respeitar as regras e, ao mesmo tempo, falar a língua do povo. Ainda há muito jogo fora dos gramados e a sua marca pode marcar gols memoráveis enquanto o país vibra unido.
Isabela Daneluci é sócia da W Content, especialista em estratégia de conteúdo e marketing de influência e esportivo focado em atletas, jornalistas e creators
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