Entrei no mundo da cronometragem no final de 2010. Havia recém-interrompido minha breve carreira como jogador de futebol profissional (zagueiro técnico, que domina e sai jogando, sabe como é) e, à época, estávamos começando a utilizar equipamentos de banda UHF e chips descartáveis no Brasil, que foram fundamentais para o aumento de atletas nos eventos, visto que os chips retornáveis antigos eram caros e demandavam uma enorme estrutura para entrega e recolhimento no dia do evento. Além disso, eram susceptíveis a interferências por rede elétrica e metal e, para piorar, muitos eram extraviados com frequência, o que onerava bastante os organizadores.
Na véspera do evento, tínhamos que testar os “tapetes” de cronometragem no pórtico e demais locais de marcação de tempo, e era comum o pórtico precisar mudar de lugar, por conta de dutos de esgoto e/ou rede elétrica embaixo do asfalto, que jogavam o sinal para baixo.
Hoje, existem dezenas de leitores UHF no mercado, e a inteligência artificial (IA) rompeu uma barreira que até 2025 era bem difícil de ultrapassar: a “barreira do desenvolvimento”. Era extremamente complicado e difícil integrar hardware e software, bem como criar equipamentos de cronometragem com aplicações embarcadas, pois havia poucos players no mercado capazes de entregar equipamentos confiáveis.
Tudo isso veio abaixo com o avanço da IA. Hoje, qualquer pessoa consegue criar uma “maleta de cronometragem”, e a cada dia surgem dezenas de novas empresas do segmento espalhadas pelo Brasil.
Obviamente que cronometragem é um serviço extremamente técnico e está muito mais voltado ao atendimento, à confiança e à credibilidade do que ao tipo de equipamento que cada um utiliza, mas ver a velocidade com que as mudanças estavam acontecendo nos obrigou a sair da nossa “zona de conforto” e ampliar nosso raio de visão, buscando prever e antecipar os próximo passos do mercado e investir tempo, dinheiro e energia nessas coisas, ampliando nosso leque de serviços e oportunidades para os clientes.
A IA é ótima para pessoas inquietas e obcecadas como eu, que gostam de inventar e resolver problemas, mas muitos organizadores não fazem a menor ideia dos superpoderes que elas podem trazer aos seus eventos. É claro que a IA, por si só, não faz milagre, sendo necessário que alguém tenha o trabalho de extrair o máximo que ela pode entregar, e atualmente é justamente esse o meu papel como CEO da ChronoMax: criar soluções que concedam “superpoderes” aos nossos clientes, seja com inteligência de dados; novas oportunidades de negócio, frente a marcas e patrocinadores; novos espaços de publicidade; ativações; e vendas.
É muito lindo ver centenas de coisas criadas mundo afora com IA, mas trazer isso à realidade, com produtos que sejam rentáveis e escaláveis, é o grande desafio de todos os líderes de empresas de tecnologia nos dias atuais. E aqui vale uma observação: se o nosso trabalho se limitasse apenas em criar seria fácil; o problema é que nós ainda temos que explicar e convencer os clientes de que os produtos são úteis e extremamente importantes para os eventos deles. Ou seja, não basta criar o produto; é preciso criar a demanda e o desejo por ele. Esse, sim, é o maior desafio atualmente.
O futuro
Acredito que o futuro dos eventos esportivos será extremamente personalizado na relação com os atletas. Cada vez mais o atleta será tratado pelo nome, e o disparo de e-mails marketing e comunicados darão cada vez mais a impressão de que “nossa, parece que isso foi feito pra mim”, ou “parece que leram meus pensamentos”.
Nos eventos, os serviços e ativações de arena estarão cada vez mais alinhados ao gosto de cada atleta. Além disso, a jornada dos atletas nos eventos será cada vez mais unificada e conectada em ecossistemas que acompanham cada um na inscrição, nos treinamentos personalizados, na agência de viagem, na hospedagem, na entrega dos kits (e na expo), na ficha médica/atestados, nos resultados com histórico, nas fotos e vídeos, e até nos prêmios e brindes pós-evento, centralizando todas as informações relevantes em um único ambiente e facilitando a vida de quem corre ou deseja começar a correr. Tudo isso decorrente da “janela de contexto” que os organizadores possuem de seus participantes.
À medida que esses recursos se tornarem acessíveis a mais organizadores, o cuidado com as pessoas terá um peso ainda maior na escolha de uma prova. Conhecer o atleta também significa perceber quando ele precisa de ajuda, resolver uma dúvida sem fazê-lo repetir sua história e acolher quem chega inseguro para correr pela primeira vez. Vejo aí uma das grandes oportunidades da inteligência artificial: dar às equipes tempo e condições para cuidar melhor de quem está ali. É esse cuidado que faz alguém voltar no ano seguinte e trazer um amigo junto.
Essa evolução é muito disruptiva e pulsa no nosso peito. No entanto, acredito que toda essa tecnologia precisa ser discreta, quase imperceptível, para que a experiência e o foco principal dos atletas continue o mais elementar possível: correr, curtir, viajar e celebrar a vida. Porque, no final das contas, é apenas isso que importa.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
João Marcos é CEO da ChronoMax, empresa brasileira de tecnologia e inteligência focada em esporte, especializada em cronometragem eletrônica por radiofrequência (RFID) e gestão de eventos esportivos que envolvem modalidades como corrida de rua, ciclismo, triatlo e travessia aquática
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