Pensar exige tempo e opinar exige conexão. Talvez seja por isso que estamos vivendo uma das épocas mais informadas e, paradoxalmente, menos reflexivas da história.
Enquanto analistas internacionais discutem a escalada de conflitos que, segundo centros como o Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), já representam o maior nível de tensão geopolítica desde a Guerra Fria, a esfera pública parece operar em uma lógica mais imediata, mais emocional, mais reativa.
No mesmo intervalo em que se discute a possibilidade, ainda que remota, de uma Terceira Guerra Mundial, o debate dominante em países como o Brasil gira em torno de episódios como a fala de Neymar na partida entre Santos e Remo, válida pelo Brasileirão. O atacante foi acusado de proferir uma fala considerada misógina, quando se referiu ao mau humor do árbitro dizendo que ele estava de “chico”.
Também recentemente, veio à tona uma fala interna atribuída ao CEO da Nike demonstrando frustração com mais uma queda nas ações da empresa, que oscilou entre US$ 70 e US$ 90 por ação, aproximadamente, com pico histórico de US$ 170+ e queda de cerca de 40% a 60% em relação ao topo.
Nos últimos meses, a empresa passou a viver um dos momentos mais delicados da última década, com queda acumulada relevante no valor de mercado em ciclos recentes e pressão crescente de investidores por eficiência operacional.
E o que os três assuntos têm entre si? À primeira vista, nada, mas, na prática, tudo. O elo invisível entre crise de coerência com um desalinhamento entre discurso, percepção e entrega. E aqui não se trata de desqualificar o tema, trata-se apenas de entender a proporção de cada um dos temas, nos quais o ponto central é o que se fala e o que se espera com isso.
Dados da MIT Media Lab indicam que conteúdos com carga emocional elevada têm até 70% mais probabilidade de serem compartilhados do que conteúdos analíticos ou neutros. Isso cria um incentivo invisível, porém poderoso, de quanto mais polarizado o discurso, maior sua circulação. Quanto mais simples a narrativa, maior sua aceitação. E quanto menos nuance, maior o alcance.
Nesse ambiente, a opinião deixa de ser consequência do pensamento e passa a ser um produto que geralmente precisa performar. O resultado? A arbitragem e o “chico” viram protagonistas com base em uma fala desnecessária, em que o erro individual ganha dimensão sistêmica e se conecta a inúmeras outras camadas de discussões sociais e políticas, sem falar da manchete que enfatiza apenas o suposto cansaço de um líder ao tentar fazer o seu trabalho. Nada, na verdade, é sobre o que aconteceu, e as narrativas sobrepõem os fatos.
Não por acaso, estudos da Nielsen mostram que o consumo esportivo está cada vez mais ligado ao “drama” e à “história”, e não apenas ao jogo. E é aí que entram os conflitos armados no Oriente Médio e seu principal articulador político e interessado no tema, o presidente norte-americano Donald Trump, que receberá a Copa do Mundo da Fifa em seu país.
Em cenários de tensão geopolítica, existe um ativo muito valioso, antes mesmo que se defina quem ganhará determinado território para exploração de petróleo: a atenção. A Copa do Mundo é o maior evento de atenção coletiva do planeta, com bilhões de espectadores, uma cobertura global massiva e envolvimento emocional extremo em todos os cantos do mundo.
Historicamente, grandes eventos esportivos coexistem com momentos de tensão global, e isso não é coincidência, é função, pois o esporte cumpre três papéis em cenários como esse: distração coletiva, já que reduz a carga emocional do ambiente global; unificação simbólica, pois cria ou tenta criar a sensação de pertencimento e identidade; e reposicionamento da narrativa, quando se muda temporariamente o foco do público.
Enquanto isso, há movimentos que crescem fora desse ciclo de ruído, estão cada vez menos preocupados com falas infelizes e “chicos”, e jogam o holofote no que realmente importa. Segundo a Fifa, a Copa do Mundo Feminina de 2023 ultrapassou 2 bilhões de espectadores globais, um crescimento exponencial em relação à edição anterior. Mais do que audiência, houve aumento de investimento, patrocínio e valor de marca.
A ascensão de atletas como Catarina Macario, jogadora de futebol feminino brasileira naturalizada norte-americana, simboliza uma mudança de paradigma. Com valor de transação considerado o mais caro da categoria, a atleta foi anunciada pelo San Diego Wave, com contrato válido até 2030, por um valor estimado em mais de US$ 8 milhões.
Isso reflete a síntese do que esse artigo tenta provocar: o mercado enxergou performance comprovada em um destaque do futebol universitário dos EUA (Stanford), que teve protagonismo em clubes europeus como o Olympique Lyonnais Féminin. Catarina é um ativo perfeito para marcas globais, pois demonstrou resiliência na recuperação para retornar após uma grave lesão, possui uma gestão de carreira alinhada com clubes estruturados e, acima de tudo, entrega consistência acima do “hype”.
Por que isso é central nesse artigo? Catarina Macario representa um modelo diferente de construção de relevância, pois enquanto o debate gira em torno de falas, polêmicas, arbitragem e distorção dos fatos, ela representa o que dá significado ao seu nome: “pura” ou “aquela que é pura”. E aqui a conotação não é social ou comportamental, pois não a conheço, mas se refere ao que seria explicado nas camadas simbólicas do nome em si, aplicadas na pureza da intenção em agir com coerência, na clareza e na ausência de ruído e, principalmente, na integridade de alinhamento entre o que se é e o que se faz.
Sou pai de meninas e me incomoda muito debates de quem pode ou não representar as mulheres na Câmara dos Deputados, o que é gênero, o direito de ser ou o que fazer da vida privada, e, principalmente, se falar “chico” é misoginia. O que me entristece é que seguimos na era dos debates rasos, desvalorização da ética e cada vez mais focados na nossa incapacidade de aprofundar qualquer discussão enquanto ela acontece.
Não por acaso, segundo a Edelman Trust Barometer, mais de 60% das pessoas afirmam ter dificuldade em diferenciar informação confiável de opinião. Isso não é apenas um dado de comunicação. É um sintoma cultural.
Já o relatório “Digital News Report”, do Reuters Institute, afirma que mais de 63% das pessoas consomem notícias de forma fragmentada, principalmente via redes sociais, onde o contexto é substituído por recortes. E recortes, quase sempre, amplificam o conflito, não necessariamente a compreensão. Existe uma transformação estrutural em curso, e ela não é sobre futebol. Na verdade, é sobre comunicação.
Deixei a fala do CEO da Nike, Elliott Hill, para o final porque ela, de todas aqui descritas, tem menos véus ou interpretações e, além disso, me afeta constantemente.
Também me pego cansado à vezes por liderar pessoas e projetos com propósito, o que nem sempre é fácil, pois invariavelmente somos afetados por incontáveis interferências políticas no nosso dia dia e por falácias de muitos que pouco colaboram com o todo, quase sempre transformando tudo em pauta ou desculpa para não fazer. Quase nada se materializa em aprendizado.
Essa fala, mesmo sem ser pública na íntegra, é extremamente simbólica, porque mostra uma marca icônica reconhecendo desalinhamento, um time pressionado por expectativa x entrega e um mercado que já não aceita apenas discurso nem a falta de correspondência entre o que se constrói e o que se entrega.
Em suma, vivemos em um ambiente onde a maioria das interações digitais é guiada pela reação, não pela reflexão, o que desloca o valor da profundidade para a velocidade, do argumento para o posicionamento e do conteúdo para o barulho, criando uma dinâmica em que se opina mais do que se entende e se compartilha mais do que se constrói, com impactos diretos na qualidade do debate e na capacidade real de gerar valor.
Sigo torcendo para ver Neymar na Copa do Mundo, menos falácias, menos guerras, que a Nike siga seu rumo de recuperação e que, apesar dos obstáculos e do cansaço, a Catarina siga brilhando, assim como o futebol feminino.
E aqui torcer não é substantivo, é posicionamento.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Reginaldo Diniz é cofundador e CEO do Grupo End to End
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