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Cristiano Benassi, especial para a Máquina do Esporte

Cristiano Benassi

6 min de leitura

Análise

Entre torneios de fim de semana e o mercado do futebol: Observações de um pai nos EUA

Retorno do futebol "youth" nos EUA revela como o "Efeito Messi", a força europeia e os videogames moldam a preferência dos torcedores do futuro, desafiando os clubes brasileiros a conquistarem espaço internacional

Cristiano Benassi, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

24/08/2026 06h35

Lionel Messi comemora gol marcado pela Argentina em partida contra a Jordânia na Copa do Mundo de 2026 - Divulgação / AFA

⚡ Máquina Fast
  • O recomeço da temporada dos youth clubs nos Estados Unidos destaca a influência de seleções como Argentina e a presença marcante da comunidade latina nos torneios locais.
  • A predominância de camisas de clubes europeus, especialmente da Premier League, evidencia desafios para o crescimento da marca dos times brasileiros entre jovens americanos.
  • O mercado de futebol juvenil nos EUA movimenta cerca de 15 mil camps por verão, com clubes brasileiros como Flamengo e Palmeiras atuando para expandir suas academias e multiculturalizar a base local.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Passados pouco mais de 30 dias da final da Copa do Mundo, a temporada do futebol “youth” recomeçou nos Estados Unidos. No estado da Geórgia, por exemplo, a temporada regular dos “youth clubs” e das ligas estaduais (como as filiadas à U.S. Youth Soccer e à U.S. Club Soccer) começa tipicamente entre o início e o meio de agosto, acompanhando o retorno precoce do ano letivo nessas regiões.

Isso significa que não somente as crianças, mas as famílias voltam à ativa no circuito do futebol.

Como faço parte desse ecossistema por ter dois filhos jogando em um clube, obviamente estou há dois fins de semana cruzando a cidade para atender aos torneios que eles participam. Aproveitei essa imersão para registrar algumas constatações e reflexões sobre este início de ano esportivo.

O legado da Copa nas arquibancadas

Muito legal ver crianças e pais usando camisas de seleções nesse ambiente dos torneios. Se eu tivesse que ranquear em termos de quantidade, eis as camisas que mais vi por aqui: Argentina, México, Estados Unidos, Colômbia, Portugal, França e Brasil.

Algumas observações saltam aos olhos: a diferença do volume da Argentina para o Brasil foi gritante. Proporção estimada de 5 camisas dos hermanos para apenas 1 do Brasil. O “Efeito Messi” pesa (e muito), mas o fato de terem chegado a mais uma final de Copa influencia demais na percepção dos torcedores locais.

Portugal: quase todas as camisas que vi eram de quem? Adivinhem? Cristiano Ronaldo, claro.

México e Colômbia refletem a força da comunidade latina no futebol local. Aliás, ouvir o espanhol fundido ao inglês é algo 100% natural nas beiras de campo por aqui..

Uma outra coisa que notei: muitas camisas de times da Europa, um pouco de MLS e algumas poucas (bem poucas) camisas de times da América do Sul e da América Central.

  • Europa: Chelsea, PSG, Real Madrid e Barcelona. Com larga vantagem.
  • MLS: Por motivos óbvios, Atlanta United.
  • América do Sul e América Central: América (MEX) e menção honrosa para Corinthians, Palmeiras e Flamengo, com uma camisa cada.

O fenômeno Estêvão e a batalha pelo torcedor do futuro

Ainda no tema de camisas, uma coisa me chamou a atenção. A camisa do Palmeiras que vi era de um dos pais de uma família. Um dos filhos estava com uma camisa do Chelsea, mas com o nome e o número do atacante Estêvão nas costas. Isso me fez refletir algumas coisas: a influência que os times da Premier League têm por aqui por alguns fatores, como a liga transmitida na TV, clubes constantemente jogando a Champions League e, claro, distribuição de produtos.

Qual a facilidade de comprar uma camisa oficial do Chelsea em comparação com uma do Palmeiras nos EUA? A do Chelsea você encontra em qualquer grande loja de esportes ou e-commerce local. Achar a de um clube brasileiro é praticamente uma missão impossível. Para completar, essa geração cresceu jogando EA Sports FC.

Quem joga sabe: é difícil competir contra as potências europeias no game. Na tela, assim como na vida real, os “heróis mundiais” defendem Real Madrid, PSG, Chelsea ou Manchester City. Talvez o pai queira ostentar a camisa do seu time do coração, mas parei para pensar no risco para os clubes brasileiros no longo prazo nesse processo do futebol. Aquele garotinho tem mais orgulho de vestir a camisa do Chelsea, ainda que com o nome do Estêvão nas costas, ou a do Palmeiras? Isso vale para qualquer outro clube do Brasil. Imaginem um pai flamenguista com a camisa do rubro-negro e seu filho com a camisa do Real Madrid do Vini Jr. Qual o tamanho do mercado que um clube sul-americano teria por aqui?

Acredito que não são apenas os fatores explicados acima. A performance dos clubes também conta, é claro. Mas, em termos de experiência, por exemplo, o que poderia ser feito diferente por aqui?

O tamanho do mercado de “camps”

Fui levantar números desse mercado. Somente no período do verão norte-americano, estima-se que ocorreram cerca de 15 mil “camps” de futebol, impactando de forma direta cerca de 1,2 milhão de crianças. Isso inclui desde clínicas locais de prefeituras/clubes comunitários até os programas das maiores marcas corporativas e franquias de elite (como Nike Soccer Camps, Coerver Coaching, Challenger Sports, Red Bulls Camps, MLS Club Camps, e os “camps” oficiais de clubes da Europa, como Barcelona, Real Madrid e PSG).

Pesquisei e vi também que existem dois clubes brasileiros atuando no mercado norte-americano: Flamengo e Palmeiras.

  • Flamengo: Possui escolinhas fixas (Flamengo Academy) em regiões estratégicas dos EUA, como a Flórida (Orlando e Miami), e também atua em Nova Jersey. Durante as férias de verão, essas unidades organizam os “Flamengo Summer Camps”, utilizando técnicos que aplicam a metodologia oficial da base do clube.
  • Palmeiras: Montou unidades da Palmeiras Academy em solo norte-americano (com presença forte na Flórida) e realiza clínicas e “camps” sazonais voltados para a comunidade brasileira e hispânica, combinando captação e internacionalização de marca.

Ressalto que a ideia deste texto não é julgar qual clube é melhor ou pior, mas instigar você a refletir comigo sobre o oceano azul de oportunidades que os clubes brasileiros (e latino-americanos, de forma geral) têm diante de si neste mercado.

Como ainda não tive a oportunidade de acompanhar de perto a operação dessas escolinhas e “camps” por aqui, imagino que outros grandes clubes também façam ações similares ou esporádicas.

Continuarei acompanhando o calendário do futebol amador nos EUA não apenas como pai, mas como observador, pesquisador e entusiasta do setor. Havendo novidades, trarei os temas para as próximas colunas.

Aliás, se você atua nesse mercado, tem mais informações sobre essas iniciativas ou quer simplesmente aprofundar essa conversa, fico totalmente à disposição. Bora trocar uns passes.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Cristiano Benassi, executivo de marketing esportivo com mais de 20 anos de experiência em empresas como Nike, Samsung e Adidas, é atualmente diretor sênior de produtos de consumo da Federação de Futebol dos Estados Unidos (U.S. Soccer), responsável pela parceria da entidade com a Nike. Formado em Propaganda & Marketing, com MBA em Gestão de Marketing Esportivo, também já atuou na liderança de parcerias estratégicas com atletas, clubes, federações e grandes eventos como Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e Champions League

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