No trio elétrico de abertura do pré-carnaval de São Paulo, sábado, 7 de fevereiro, Ivete Sangalo levou mais de 1,2 milhão de pessoas para o circuito do entorno do Parque Ibirapuera.
Um evento inédito, gratuito, que dominou as conversas nas redes sociais antes, durante e depois. Foi destaque na imprensa, trend nos stories, assunto nos grupos de WhatsApp e exemplo vivo de como liderança aparece quando o plano encontra a realidade.
Tudo ali era resultado de um grande planejamento público: Prefeitura, forças de segurança, equipes operacionais, produtores, protocolos. Mas, na prática, havia um nome que reverberava acima de todos: Ivete.
Quando o plano não avança, alguém precisa liderar.
Com o volume de pessoas muito acima do esperado, o trio simplesmente não conseguia avançar. A logística travou. E foi nesse momento que a liderança aflorou na atitude.
Ivete percebeu que não adiantava insistir no show como se nada estivesse acontecendo. Ela parou de cantar. Usou o microfone para comandar.
Falou diretamente com as pessoas à frente do trio. Pediu movimento. Orientou deslocamentos. Descreveu roupas, reconheceu indivíduos, criou uma comunicação íntima em meio a uma multidão imóvel. Usou carisma, experiência e, principalmente, autoridade emocional.
Com cuidado, respeito e muito afeto pelo público, o trio voltou a se mover. Só então, já na área de dispersão, a rainha retomou o show.
As lições de liderança que ficam
Esse episódio simples, mas poderoso, deixa ensinamentos que vão muito além do Carnaval:
1. Liderança não depende de hierarquia
Ivete não era a organizadora do evento, não tem poder de polícia. Havia Prefeitura, Polícia Militar, Guarda Civil, Bombeiros e equipes técnicas. Ainda assim, ela assumiu a liderança porque entendeu que aquele momento exigia alguém à frente — e esse alguém era ela.
2. Leitura de contexto é uma habilidade estratégica
Ela sabia que, logo atrás do seu trio, viriam outros dois. Atrasar não era só um problema dela, mas de toda a operação. Liderar também é entender o impacto das suas decisões no todo.
3. Há momentos em que não dá para delegar
Mesmo sabendo que aquela decisão afetaria diretamente o “produto” pelo qual foi contratada — o show — Ivete entendeu que ninguém poderia fazer aquilo por ela. Liderança exige presença total e exposição pessoal.
4. Autoconhecimento e experiência salvam operações
Anos de Carnaval em Salvador ensinaram a Ivete uma regra básica: segurança vem antes do espetáculo. Quem se conhece, confia no próprio repertório para agir sob pressão.
Liderar é assumir o compromisso, mesmo quando não estava no script. Ivete mostrou que liderança de verdade aparece quando algo foge do combinado.
Quando o plano falha.
Quando o risco surge.
Quando alguém precisa decidir rápido, com empatia, clareza e coragem.
No Carnaval, nos negócios, na gestão pública ou na vida, líderes não são apenas os que cantam quando tudo vai bem — são os que param a música para garantir que todos cheguem bem ao final do percurso.
E isso, definitivamente, não se ensina só em sala de aula.
* Samuel Lloyd é diretor comercial da Urbia, empresa responsável pela gestão de mais de dez parques públicos brasileiros e está à frente do projeto de gestão do Parque Ibirapuera desde o início da administração da Urbia, há 5 anos. Natural de Nova Lima/MG, já ocupou posições de liderança ao longo de sua carreira na Minas Arena (gestora do Estádio Mineirão) e Visit Britain.
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