Nasce uma estrela

Piu é o tipo de cara de quem você quer ser amigo. Na verdade, você tem certeza de que já é. Depois daquela prova incrível no Mundial de Atletismo no Oregon – medalha de ouro nos 400m com barreiras e recorde do campeonato aos 22 anos – duvido que alguns de vocês não tenham tido vontade de entrar pela tela da TV para dar um abraço no Alison dos Santos, pulando e cantando como o Biro (o italiano sorridente do vídeo que viralizou nas redes, já com quase 50 milhões de visualizações).

Isso se chama carisma. Uma qualidade valiosíssima ainda mais quando aliada a um talento esportivo desse quilate. Piu ainda é um jovem adulto e já coleciona feitos de gente grande: uma medalha de bronze Olímpica em Tóquio 2020, o título mundial esse ano, muitos pódios na Diamond League, dezenas de recordes sul-americanos e a terceira melhor marca de todos os tempos (46s29). Não consigo nem imaginar aonde isso vai dar.

Não me refiro à sua performance nas pistas – pois essa é meticulosamente planejada por ele e seu treinador, Fernando Siqueira. Em entrevista recente ao SporTV, Piu falou de sua meta (que um dia já foi sonho) de baixar de 46s e... “A gente quer ser uma lenda”, foi a frase dita ao microfone.

Da boca de qualquer outro atleta, poderia parecer arrogância. A famosa marra. Mas na de Piu, soa leve e verdadeiro. E faz a gente embarcar na história e torcer junto.

Quando me pergunto aonde isso tudo vai dar, penso no que diz respeito ao marketing, ao patrocínio, ao engajamento de uma legião de fãs e ao surgimento de tantos outros torcedores e, por que não, praticantes. Penso no enorme valor que Piu já tem não só para o atletismo, mas para o esporte olímpico do Brasil. Sem precisar se confinar numa casa monitorada por câmeras.

O jornalista Tino Marcos certa vez falou que, quando fazia uma reportagem para o Jornal Nacional, ele pensava no pai dele – apaixonado por esportes – e em sua mãe – que quase nada entendia do assunto. Piu tem personalidade e talento que falam de forma legítima com o coração esses dois públicos aparentemente tão distantes. Traz consigo uma história de vida que deixou marcas em seu rosto, transborda um astral que contagia, é um gigante em sua modalidade e, com isso tudo, fará crianças curtirem um pouco mais as aulas de educação física na escola e, sem dúvida, também venderá muitos e muitos produtos.

As marcas estão atentas. Não é sempre que passa um cometa como esse. E, a dois anos para os Jogos Olímpicos de Paris 2024, nasceu uma estrela com brilho próprio.

Manoela Penna é ex-diretora de marketing do Comitê Olímpico do Brasil (COB), vive um período sabático em Paris até 2024 e escreve mensalmente na Máquina do Esporte