Em meio à Copa do Mundo, é natural que as atenções estejam voltadas para Kylian Mbappé, seus gols, recordes e as inevitáveis comparações com Lionel Messi. Mas existe uma conversa acontecendo longe das câmeras, e ela pode ser mais importante (e útil) para o futebol brasileiro do que qualquer recorde ou placar.
A pergunta que mais nos interessa diante do que vemos da França nesta Copa e ao longo das últimas décadas é: o que permitiu que a França produzisse Mbappé?
Ou ainda: que ambientes foram capazes de produzi-lo?
A França conquistou duas Copas do Mundo, em 1998 e 2018. Além disso, foi vice-campeã em 2006 e 2022. E, mais uma vez, chegou à Copa de 2026 entre as candidatas ao título.
Quando a excelência se repete por décadas, ela deixa de ser explicada apenas por uma geração talentosa e passa a refletir a força de um sistema.
Enquanto a Copa mobiliza milhões de pessoas em torno dos jogadores, ela também pode ser uma oportunidade para observar os ambientes que os produziram. Neste sentido, ao olhar para o desempenho francês no Mundial, talvez valha a pena olhar também para Clairefontaine, o centro nacional de formação da Federação Francesa de Futebol (FFF), que integra uma rede de polos regionais responsáveis por diversas coisas: identificar, desenvolver e preparar os principais talentos do país; formar treinadores; integrar escola, família e futebol; e, principalmente, dar continuidade a um projeto de longo prazo.
Nada disso foi criado para ganhar Copas ou para vender jogadores. Foi criado para desenvolver pessoas.
As Copas vieram e as transferências também, trazendo com elas o valor econômico gerado por esse sistema.
Segundo o “Fifa Global Transfer Report 2025”, a França foi o segundo país do mundo em receitas com transferências internacionais, movimentando US$ 1,71 bilhão no ano passado. Apenas a Inglaterra gerou mais receitas. No mesmo período, o Brasil liderou o ranking mundial em número de transferências internacionais, com 1.005 saídas.
Os dados sugerem uma reflexão interessante: o Brasil continua sendo um dos maiores celeiros de talentos do futebol mundial, enquanto a França, por sua vez, parece ter construído um sistema capaz de transformar esses talentos em valor esportivo e econômico de forma recorrente.
O cofundador da Outfield, Pedro Oliveira, que recentemente passou a investir no futebol francês por meio da aquisição do Le Mans, chamou atenção para a consistência desse modelo. Segundo ele, desde os anos 1980, a França trabalha em um projeto nacional de formação, sustentado por uma lógica piramidal em que os clubes convivem com uma rede de polos esportivos coordenados pela Federação Francesa.
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“Os atletas estão nos clubes, são identificados por esses polos e passam a integrar um sistema nacional de desenvolvimento que culmina nas seleções de base. Se olharmos os principais atletas franceses das últimas décadas, praticamente todos passaram por esse sistema. É um sistema bem desenhado, bem estabelecido, com essa lógica piramidal que vem funcionando há quase 30 anos. Existe uma consistência muito grande em ter o plano, executar o plano, e seguir com ele” afirmou.

Mais do que a existência de Clairefontaine, talvez o verdadeiro diferencial francês esteja justamente nessa capacidade de sustentar, por décadas, um mesmo projeto de desenvolvimento.
“No Brasil, conseguimos formar jogadores delegando muito dessa responsabilidade aos clubes. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e as federações locais fazem muito pouco para contribuir diretamente com o desenvolvimento de talentos. O que falta é replicar um modelo estruturado e organizado, em que a entidade nacional [no caso brasileiro, a CBF] tenha um papel preponderante dentro de um plano de longo prazo, sem delegar integralmente essa responsabilidade aos clubes”, observou Pedro Oliveira.
Mas sistemas não são feitos apenas de estruturas. São feitos de pessoas.
Raquel Rosa, fundadora e CEO da Raquel Rosa International Football, sediada em Mônaco, destacou que talento, sozinho, não é suficiente.
“Um grande talento não significa que ele vá se tornar um grande jogador. São várias etapas. Cada vez mais, a parte mental faz uma grande diferença. O jogador pode ter um talento incrível, mas, se a força mental não estiver presente, será difícil esse grande talento se transformar em um grande jogador no longo prazo”, enfatizou.

Segundo ela, força mental, motivação e a qualidade das pessoas ao redor fazem diferença.
“É fundamental ter boas pessoas ao lado. Uma boa família, um bom acompanhamento, uma boa rede de suporte e um empresário fazem diferença. Ninguém está sempre 100%”, salientou.
Talvez por isso seja interessante observar como a formação francesa parece se preocupar menos em formar posições e mais em formar jogadores.
Raquel ainda comentou que muitos atletas passam por diferentes funções durante a formação.
“É difícil um jogador começar em uma posição e chegar ao profissional exatamente nela. Isso traz experiência e amplia a visão de jogo. Por exemplo, se um jogador foi atacante e depois virou defensor, ele entende melhor o que o adversário está pensando”, disse.
Talvez seja justamente essa a diferença entre revelar talentos e desenvolver jogadores. Porque, por mais extraordinário que seja Mbappé, o maior ativo do futebol francês não parece estar restrito ao seu principal astro, mas sim em um sistema capaz de produzir, geração após geração, atletas extraordinários e transformar talento em desempenho esportivo e valor econômico.
Essa, inclusive, pode ser uma boa notícia para o Brasil, já que o nosso problema nunca foi falta de talento.
Por isso, ao observar a França nesta Copa do Mundo e, principalmente, o sistema que a sustenta para além da competição, a pergunta que proponho é: como transformar talento em valor?
Essa reflexão é essencial, porque o valor não nasce apenas dos pés. Nasce dos ambientes, da qualidade dos treinadores, da participação das famílias, da educação, da organização e profissionalização dos clubes e ainda da capacidade de desenvolver pessoas.
As estrelas da Copa são visíveis. Os ambientes que as produzem, não.
As Copas são disputadas em pouco mais de 30 dias, no entanto, são construídas em décadas.
Acredito que o maior desafio do futebol brasileiro não seja produzir o próximo Neymar. Seja construir ambientes que formarão os jogadores da Copa de 2042.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva
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