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Marcio "Zorza" Zorzella, especial para a Máquina do Esporte

Marcio Zorzella

9 min de leitura

Análise

O mistério das chuteiras cor-de-rosa

Cinco marcas concorrentes calçaram a Copa do Mundo com a mesma cor sem combinar; não foi cartel, não foi espionagem, não foi acaso, mas sim um relatório de tendências que todas compraram

Marcio "Zorza" Zorzella, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

02/08/2026 10h00

Chuteira rosa foi tendência na Copa do Mundo de 2026 - Reprodução / Instagram (@nikefootball)

⚡ Máquina Fast
  • Cinco marcas de chuteiras esportivas usaram o mesmo tom de rosa na Copa do Mundo de 2026, alinhando-se a uma previsão de tendência de cores do relatório Key Colours S/S 26.
  • A escolha do rosa não foi conspiratória nem fruto de espionagem industrial, mas resultado de um relatório comum comprado pelas empresas para antecipar tendências de mercado.
  • Apesar do destaque ao rosa pelas marcas, o gol da final foi marcado com uma chuteira verde, que se camuflou com a grama, mostrando a imprevisibilidade no uso da cor em campo.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Duas semanas sem Copa do Mundo e confesso: estou morrendo de saudade de assistir a uma partida. Não precisa ser final, não precisa ser decisão por pênaltis. Um Áustria x Argélia, em uma terça-feira à tarde, já resolvia.

Mas ficou uma coisa no ar, e ela não é sobre futebol.

No jogo de abertura, México x África do Sul, no Mexico City Stadium, dos 22 titulares, só três não entraram com chuteira rosa nos pés.

Durante um mês, Nike, Adidas, Puma, New Balance e Skechers colocaram em campo praticamente o mesmo produto, na mesma cor. Rosa, fúcsia, neon. Calendários de desenvolvimento independentes, times de design separados por continentes, um resultado só. E um detalhe: nenhuma das 48 seleções participantes do torneio usa rosa como cor predominante no uniforme.

Circularam quatro hipóteses, e vale olhar uma por uma.

  • Acordo entre as marcas

Seria cartel. Nike, Adidas e Puma alinhadas em cor de produto para um mesmo evento é o tipo de conversa que rende processo antitruste nos Estados Unidos e na Europa. A tese tem defensor de dentro da indústria: Ben Warren, da BW Boots UK, que fornece chuteiras para jogadores de Copa, disse ao The Athletic que dizem ser coincidência, mas que já aconteceu vezes demais. Ele pode estar certo sobre o padrão e errado sobre a causa. Nunca apareceu documento, e-mail, ata. A hipótese pede que cinco concorrentes globais assumam um risco regulatório enorme para vender chuteiras. Guarde essa hipótese assim mesmo, porque ela volta.

  • Espionagem industrial

Cai no calendário. Chuteira de Copa entra em desenvolvimento com anos de antecedência. Espionagem explica uma marca copiar outra. Não explica cinco chegarem juntas.

  • Teaser da Copa Feminina de 2027 no Brasil

Essa tem autoria, e é a melhor das quatro. Juliana Cury, diretora de marketing do Itaú, falou sobre a teoria em entrevista a Josette Goulart em junho. Ela disse que não acreditava em acaso, achava que alguma coisa tinha sido coordenada e que essa coordenação servia para anunciar a Copa Feminina do ano seguinte. Homenagem antecipada, chamada de audiência. Ela batizou de teoria da conspiração, ou não, da inspiração.

É a única leitura que dá propósito ao alinhamento. Faz todo sentido no papel, mas não sobrevive ao teste da marca.

A Fifa lançou a identidade visual da Copa de 2027 em janeiro, em Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ). A marca une as letras M e W, tem um losango que remete à bandeira brasileira e o slogan “Go Epic”. Verde, amarelo e azul. Não tem rosa. Se era teaser, ninguém avisou quem fez a marca.

Dito isso, a parte forte da teoria continua de pé. Cor não tem gênero, mas o mercado insiste que tem: outubro continua rosa, novembro continua azul. A hipótese do teaser só nasce porque a indústria treinou o mercado a ler rosa como código de gênero. O rosa da Copa era código de contraste.

  • Coincidência

Um executivo da Puma alocado na Alemanha disse ao Sport Insider que a escolha idêntica foi obra do acaso, que poderia ter sido laranja, amarelo ou azul-claro. É a resposta oficial, mas também é a menos convincente, porque acaso não acontece cinco vezes no mesmo mês.

Circulou ainda uma quinta explicação: as marcas perguntaram para a inteligência artificial (IA), e a IA respondeu a mesma coisa. Não há prova disso. Mas a WGSN, consultoria que vende previsão de tendência para moda e varejo, não trabalha só com analista humano; ela roda modelo proprietário de previsão de tendência. A resposta comum não veio de uma IA consultada por cinco marcas, mas sim de um relatório que cinco marcas compraram, e esse relatório tem uma máquina dentro.

A razão real

A razão real foi publicada em junho. E não pegou.

Em 21 de maio de 2024, a Coloro e a WGSN publicaram o “Key Colours S/S 26”. Cinco cores para 2026, escolhidas com dois anos de antecedência, por método. O “Transformative Teal” levou o título de cor do ano. Em segundo, veio o “Electric Fuchsia”, descrito como uma evolução mais agressiva do “Rosa Barbie”.

As grandes fabricantes de material esportivo compram esse serviço. Cada uma leu, cada uma decidiu sozinha, cada uma achou que fazia uma escolha própria. Mas todas fizeram a mesma.

Não houve conspiração; houve fonte comum. A previsão não descreveu 2026; ela construiu 2026.

Vale reparar no que aconteceu depois. A explicação estava disponível, em veículo grande, em português e em inglês, ainda durante a fase de grupos. E o que continuou circulando foi a versão conspiratória.

Conspiração viaja. Relatório de tendência, não.

Uma nota pessoal

Rosa em chuteira não é novidade. Em novembro de 2008, a Nike lançou a “Mercurial Vapor IV” em uma cor que batizou de “Berry” e que o mundo chamou de rosa. Edição ultralimitada, escândalo imediato, estreia nos pés do dinamarquês Nicklas Bendtner, do Arsenal. O francês Franck Ribéry fez o vídeo da Pantera Cor-de-Rosa e viralizou.

No ano seguinte, eu trabalhava na Nike, na preparação para a Copa do Mundo de 2010. E o que a empresa fez ali é o oposto do que aconteceu agora: montou o “Elite Series”, com “Mercurial Vapor Superfly II”, “CTR360 Maestri”, “Total90 Laser III” e “Tiempo Legend III”. Quatro modelos com promessas de performance diferentes: velocidade, controle, precisão e toque. E uma única combinação de cores para a linha inteira: roxo metálico da metade para a frente, laranja da metade para trás. Na transmissão, o roxo lia como prata, e é assim que quase todo mundo lembra até hoje.

A cor não era decoração. O Nike Sports Research Lab tinha quase quatro anos de análise de jogo, estudo biomecânico e teste com atleta em cima daquilo. O argumento: a visão humana é mais do que 99% periférica, ou seja, menos de 1% é visão focada. Duas cores de alto contraste juntas, em movimento, criam um efeito de cintilação que dispara a atenção periférica. O jogador localiza o pé do companheiro antes de virar a cabeça para ele. Passe longo, contra-ataque.

Discutível, testável, mas existia. Um argumento de performance em campo, não de vitrine.

E tinha uma segunda coisa, que hoje me parece a mais importante: a uniformidade era intencional, e de uma marca só. Todo atleta Nike entrou naquela Copa com o mesmo par de cores nos pés. Você identificava a marca de qualquer ângulo da arquibancada, e era esse o ponto.

Agora, 16 anos depois, cinco marcas chegaram à mesma cor sem combinar e sem argumento de performance. A uniformidade de 2010 foi projetada e assinada, enquanto a de 2026 foi terceirizada para um relatório.

Agora a parte que interessa a quem trabalha com mídia

A chuteira não é escolha do jogador, é patrocínio individual. Camisa, calção, meião, tudo fechado pela federação com o fornecedor. O pé é negociado à parte, atleta por atleta. É o último metro quadrado vendido separado no corpo do jogador, e ele vale porque aparece em transmissão de alta definição para bilhões de pessoas.

O rosa maximiza o contraste contra o gramado verde. Rosa e verde ficam em pontos quase opostos do círculo cromático, um realça o outro, e o efeito faz a chuteira saltar da imagem. Assim, cinco marcas otimizaram para ser vistas.

O que sobrou na tela foi a cor, não a marca. Quem assistiu à Copa viu rosa. As poucas chuteiras identificáveis a distância foram a de Lionel Messi, uma edição especial da Adidas em branco e azul-claro inspirada na bandeira argentina, e a de Christian Pulisic, feita pela Puma com estrelas azuis em referência à bandeira dos Estados Unidos. Quem quis ser reconhecido fugiu da paleta comum.

Alcance, todas tiveram. Atenção, quase nenhuma.

E a cor já nasceu com prazo de validade. Paleta de grande evento é trocada no começo da temporada europeia, por volta de julho, para manter o interesse do consumidor e a sensação de novidade. O ativo mais visível do torneio foi projetado para durar um mês.

E não só ele. A relva da final também era descartável. Nova Jersey gastou mais de US$ 13 milhões para instalar grama natural por cima do sintético do Nova York/Nova Jersey Stadium, cultivada na Carolina do Norte e trazida de caminhão. Dias depois do apito final, o gramado já estava à venda em pedaços dentro de embalagens de acrílico, custando de US$ 450 a US$ 3 mil.

Nada daquilo era para durar. Nem a cor, nem o chão.

Verde e laranja

Em 2010, a aposta segura pagou. A Nike calçava a maioria dos melhores jogadores do torneio, todos no mesmo par de cores. O gol do título saiu de uma “CTR360 Maestri Elite”, roxa e laranja, no pé de Andrés Iniesta, aos 116 minutos, com assistência de Cesc Fàbregas, que usava o mesmo modelo. Era o resultado que a matemática pedia.

Em 2026, a aposta segura era o rosa. O gol do título veio do pé de Ferran Torres, aos 106 minutos, atleta da Under Armour. Apenas uma das nove chuteiras da marca em toda a Copa e que não seguiu o “Key Colours S/S 26”. No dia seguinte, a empresa postou, orgulhosa, a foto do instante do chute, enquadrada no pé, com uma legenda só: “as chuteiras de um campeão não são cor-de-rosa.

Repare na cor. O verde na parte interna da chuteira do atacante espanhol é mimético, a mesma cor do chão que ela pisa.

Cinco marcas compraram contraste em nome da visibilidade. Mas, por capricho dos deuses do futebol, a chuteira eternizada no momento mais visto da Copa do Mundo se camuflou na relva de Nova Jersey.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Marcio “Zorza” Zorzella é fundador da consultoria de mídia e crescimento Zorza&Co. Com passagem pela Nike no ciclo da Copa do Mundo de 2010, atualmente escreve a newsletter media:pov sobre economia da atenção e seu impacto nas indústrias culturais, além de assinar uma coluna mensal na Fast Company Brasil, na editoria de Martech

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