Opinião: EUA consegue igualdade salarial, mas será que essa é mesmo uma vitória?

Há cerca de um mês, fomos surpreendidos com uma notícia importante para o futebol feminino: a seleção de futebol feminino dos EUA chegou a um acordo por igualdade salarial. A manchete causou muita alegria e celebração, afinal essa decisão judicial representa um passo a mais em direção à valorização do futebol praticado pelas mulheres e à igualdade salarial das mulheres no esporte. Mas estamos comemorando cedo demais?

Para quem está perdido, basicamente o que aconteceu é que o time nacional americano moveu um processo contra a Federação de Futebol dos EUA (USSoccer), em que demandava várias coisas, das quais ressalto dois pontos. Primeiramente, foi solicitada uma reparação financeira por desigualdades históricas, já que mais de US$ 60 milhões foram investidos inicialmente no futebol masculino, e o mesmo não foi feito no feminino. Depois, houve um acordo coletivo para as mulheres ganharem mais dependendo dos resultados. É importante dizer que não foi pedido exatamente o mesmo acordo do masculino, mas sim uma adaptação ao contexto do feminino.

O que elas conseguiram foi receber o compromisso da USSoccer de alcançar um acordo coletivo igualitário e receber US$ 24 milhões em compensação às jogadoras, dos quais uma parcela irá para o crescimento do futebol feminino nos Estados Unidos.

SERÁ QUE ISSO É MESMO UMA VITÓRIA?

Nesta minha jornada pelo esporte feminino, conheci muitas mulheres atentas e críticas aos passos que damos para alcançar a equidade de gênero. Para falar desse assunto, troquei uma ideia com Victória Conde, uma amiga espanhola, ex-jogadora de futebol, treinadora e especialista em Ética e Integridade no Esporte.

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Victória Conde, ex-jogadora de futebol, é treinadora e mestre em Ética e Integridade no Esporte

Para começo de assunto, ela logo me disse: “Se estudarmos o caso por inteiro, sabemos que US$ 24 milhões está longe do valor que foi solicitado inicialmente à federação. E que a realização de um pagamento igual está sendo comemorada mesmo antes de a federação e as jogadoras chegarem a um acordo. Este é realmente um passo à frente, mas não é uma vitória, longe disso”.

No nosso papo, ela me disse que uma situação ideal seria uma colaboração com a liga nacional e com o crescimento do futebol no exterior, para que as jogadoras de futebol feminino, independentemente do país pelo qual competem, tenham salários dos quais possam viver sendo pagos pelos clubes. Uma vez alcançado isso, as jogadoras de futebol feminino poderiam negociar salários com suas federações, porque não dependeriam apenas do dinheiro que recebem da seleção nacional, que é a situação atual nos EUA.

Como este não é o caso, as jogadoras optaram por tentar melhorar seus salários advindos da seleção nacional. Portanto, o acordo almejado para o feminino seria receber um salário anual, mesmo que as jogadoras não sejam convocadas pela seleção nacional. Dessa forma, teriam maior estabilidade econômica, já que em seus clubes não recebem salários tão altos. Quando entendemos o contexto em que elas vivem, ou seja, salários de clube, licença-maternidade, mercado global de futebol feminino, etc., entendemos que elas não querem o mesmo que eles, e dar a elas exatamente a mesma coisa não é a melhor solução.

Em relação ao conceito de salários iguais, Victória ressaltou: "Acho que as pessoas que leem notícias sobre o caso não pararam para pensar: o que você considera um salário igual? Para algumas pessoas, a resposta é dar o mesmo a todos. Este seria um tratamento igualitário, mas não melhoraria a situação, pois as diferenças entre o desenvolvimento do futebol masculino e feminino ainda estariam lá. Os homens têm salários sólidos com seus clubes e podem se dar ao luxo de não serem convocados para a seleção nacional”.

PRÓXIMOS PASSOS

Partindo do princípio de que é preciso dar às mulheres os subsídios para que possam competir, ser mães, ter estabilidade econômica para si e suas famílias, além de poderem se aposentar em uma situação econômica estável, é razoável que elas recebam ainda mais do que os homens até que a igualdade seja alcançada.

“Esse problema não é apenas sobre igualdade salarial, mas também sobre como o dinheiro é investido no futebol de base no país, na promoção do futebol feminino e nas ligas femininas. Um ponto positivo é que mais mulheres assumiram cargos de tomada de decisão na federação recentemente, e isso ajuda na luta”, pontuou Victória.

“A redistribuição dos prêmios da FIFA nas Copas do Mundo também poderia ser um grande passo à frente. A FIFA não estabelece como o dinheiro deve ser distribuído pela federação que o ganha. Acho que é razoável haver uma conversa para que esse prêmio beneficie a equipe mais bem-sucedida, independentemente do gênero. Essa seria uma verdadeira vitória e mostraria o caminho para o resto do mundo. Talvez até consiga que a própria FIFA redefina a quantidade de seus prêmios progressivamente”, completou.

O PAPEL DE CADA INSTITUIÇÃO

A verdade é que o caminho é longo. Alguns passos já estão sendo dados, mas temos que tomar cuidado com comemorações precipitadas. As federações nacionais têm uma tarefa fundamental. Segundo a Vicky, elas devem trabalhar junto às ligas femininas, pois ter ligas nacionais competitivas é o próximo passo para o mercado nacional crescer e os espectadores consumirem o futebol feminino progressivamente.

Além disso, as confederações podem educar e exigir que suas federações gradualmente tomem certas medidas para alcançar a igualdade de condições de suas equipes nacionais. Já a FIFA pode orientar as federações apresentando propostas práticas e viáveis, compartilhando boas práticas de federações que já estão alcançando bons resultados, e até recompensando as federações mais bem-sucedidas. 

Finalmente, embora não sejam instituições oficiais de futebol, os veículos de mídia têm a responsabilidade e a capacidade de ajudar nessa transformação, de diversas maneiras, dando-lhes a importância que dão aos homens. Não esqueçamos o poder da mídia na educação dos consumidores.

Mônica Esperidião Hasenclever é especialista em gestão e marketing esportivo, cofundadora da WES, professora na SporTeach e escreve mensalmente na Máquina do Esporte, sempre com o propósito de promover a visibilidade da mulher e a inclusão da diversidade em todos os âmbitos e áreas de esporte