Opinião: Quatro campeões

A temporada 2021/2022 da Liga Nacional de Basquete (LNB) teve quatro times campeões diferentes. Mas como assim?

Ao longo de uma temporada, os times da LNB disputam até cinco torneios, sendo três internacionais e dois nacionais. A Federação Internacional de Basquete (FIBA) organiza, anualmente, a Copa Intercontinental, correspondente ao Mundial de Clubes, a Basketball Champions League Americas (BCLA), principal competição de clubes do continente americano, e a Sul-Americana. A LNB, por sua vez, realiza o Novo Basquete Brasil (NBB), que corresponde ao Campeonato Brasileiro de Basquete masculino, e a Copa Super 8.

Neste cenário de cinco eventos por temporada, vale observar que a Sul-Americana não foi realizada no segundo semestre de 2021 devido à pandemia, portanto a temporada 2021/2022 teve apenas quatro competições disponíveis para os times brasileiros.

Em janeiro de 2022, o 123 Minas sagrou-se campeão da Copa Super 8 ao vencer o São Paulo na final. Em fevereiro, foi a vez de o Flamengo tornar-se campeão mundial derrotando o San Pablo Burgos, da Espanha, na Copa Intercontinental, realizada no Egito. Em abril, o São Paulo conquistou sua primeira BCLA, no Rio de Janeiro, com uma vitória sobre o Biguá, do Uruguai. E, por fim, o Sesi Franca sagrou-se campeão brasileiro pela primeira vez, ao levantar o troféu do NBB na final contra o rubro-negro carioca.

Quatro campeões diferentes em uma temporada é um fato inédito para a história da Liga Nacional de Basquete, fundada em 2008. Fazendo uma avaliação mais profunda desse momento, vale destacar alguns pontos interessantes para o futuro do basquete nacional.

  • Competitividade e equilíbrio: quatro equipes distintas conquistando as principais competições da temporada sinaliza equilíbrio técnico e um crescimento na competitividade das equipes do NBB. Naturalmente, o equilíbrio advém de diversos fatores, entre eles melhor planejamento das equipes na montagem dos seus elencos, distribuição de investimentos entre os times de ponta e surgimento de novos atletas;
  • Amadurecimento de uma nova geração de talentos: apesar de serem nomes conhecidos no sistema do NBB, os títulos dessa temporada consolidaram o protagonismo de algumas estrelas do basquete nacional: Gui Deodato, Alexey e Gui Santos, do 123 Minas; Yago, do Flamengo; Elinho e Caboclo, do São Paulo; e Georginho, Lucas Dias e Lucas Mariano, do Franca;
  • Maior investimento entre as equipes de ponta: o fortalecimento do NBB atraiu mais investimentos de clubes e novos patrocinadores que permitiram às equipes reforçarem seus elencos. Com isso, pode-se observar movimentações importantes, como a ida do ala Marquinhos para o São Paulo. A presença de marcas relevantes nas equipes também contribuiu para uma maior sustentabilidade financeira, casos da 123 Milhas no Minas, Sportsbet.io no São Paulo, BRB no Flamengo, Magalu/Netshoes no Sesi Franca e muitos outros;
  • Surgimento de novos talentos: a continuidade e o crescimento da Liga de Desenvolvimento (LDB) têm sido fundamentais para o surgimento de jovens atletas com capacidade de assumir mais espaço nas equipes do NBB. Nesta temporada, dezenas de jogadores com menos de 22 anos se destacaram em quadra e aumentaram o nível técnico das suas equipes, casos de Márcio e Adyel, no Sesi Franca; Scheuer, no Pato Basquete; Gabi Campos, Buffat e Munford, no Pinheiros; Mãozinha, no Fortaleza; Sergio, no Cerrado; e Bruno, Anderson e Andrezão, no Paulistano;
  • Planejamento e sustentabilidade: ao longo dos anos, percebe-se uma boa evolução na gestão das equipes do NBB. Apesar do enorme impacto financeiro da pandemia, os clubes têm conseguido implementar uma visão de médio e longo prazos. Essa tendência é consequência das regras de governança, da responsabilidade financeira dos clubes e do planejamento antecipado a cada nova temporada. Apesar da instabilidade econômica trazer desafios ano após ano, sete clubes do NBB estão desde a primeira edição, em 2008, e outros três já completaram pelo menos oito temporadas.

Por fim, vale salientar outros pontos relevantes que confirmam as expectativas de crescimento do basquete brasileiro. A consolidação dos projetos no Nordeste, com o Unifacisa e o Basquete Cearense/Fortaleza; a transformação da experiência dos fãs na Arena BRB promovida pelo Brasília Basquete; a estabilidade das equipes Cerrado, Pato Branco e Caxias do Sul; a presença do público nos jogos; a distribuição dos conteúdos em multiplataforma; e o aumento do engajamento do público com o NBB e o basquete no Brasil.

O recém-anunciado projeto da LNB com a EY para desenvolver um modelo de gestão para os clubes do NBB será mais um instrumento de fortalecimento dos times e de transformação do entretenimento esportivo em um negócio sustentável ao longo dos anos.

Álvaro Cotta é diretor comercial da Liga Nacional de Basquete (LNB) e escreve mensalmente na Máquina do Esporte