Você se lembra do Vozinha? Em junho, o goleiro de Cabo Verde segurou a Espanha no 0 a 0 na estreia de sua seleção na Copa do Mundo, e o Brasil inteiro resolveu adotá-lo. Durante a transmissão, a CazéTV convidou o público a seguir o perfil dele no Instagram. Antes do Mundial, ele tinha cerca de 50 mil seguidores. Quando voltou para casa, passava dos 26 milhões e tinha se tornado o goleiro mais seguido do mundo. Hoje, tem mais de 28 milhões.
LEIA MAIS: Haaland e Vozinha lideram crescimento de seguidores no Instagram na Copa do Mundo de 2026
Bastou um convite, um personagem com uma boa história e milhões de brasileiros com um celular na mão. Foi a prova mais clara de que, quando a gente decide, a gente faz.
Então fica a pergunta: se fizemos isso por um goleiro de Cabo Verde, por que não fazer pelas nossas meninas?
Os amistosos da seleção feminina de futebol têm mostrado que dá para fazer ainda mais. No último dia 10 de outubro, por exemplo, o Beira-Rio recebeu pela primeira vez um jogo do time: foram 28.386 pagantes, gol de bicicleta da atacante Geyse e vitória por 3 a 1 sobre a Argentina. Nas arquibancadas desses jogos, há meninas, meninos e famílias inteiras, em um clima lindo de ver. Ou seja, esse público já existe. O que falta é levar essa energia do estádio para o dia a dia, para o feed, para a conversa de todo mundo.
O perfil da seleção feminina no Instagram tem mais de 3 milhões de seguidores e já é o maior do mundo entre as seleções femininas, à frente de Estados Unidos, Inglaterra, Austrália e França. Só em julho, ganhou 258 mil novos seguidores. A curva está subindo. Com um empurrão coletivo, pode disparar.
LEIA MAIS: Seleção brasileira feminina atinge 3,1 milhões de seguidores no Instagram e vira líder global
E seguidor importa. Para o mercado, é alcance, valor de mídia e argumento para atrair patrocínio. Mas é também o que tira o futebol feminino de um nicho e o coloca na conversa de todo mundo, em casa, no trabalho, na roda de amigos. Quanto mais gente acompanha, mais o esporte se torna comum. E quanto mais comum ele se torna, mais meninas encontram referências e se sentem à vontade para jogar.
A Bia que encontrou a Bia
Bia tem 10 anos, mora em Porto Alegre (RS) e joga futebol. Há poucas semanas, ela estava na plateia de um painel sobre futebol feminino promovido pela Hoc Sports, em que conversei com Mônica Esperidião, da FSports, agência que detém os direitos de comercialização do futebol feminino da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Bia levou um cartaz feito à mão com giz verde e amarelo, e uma foto da ídola colada no canto. Nós, então, a chamamos ao palco para mostrá-lo: “Bia Zaneratto, você é minha inspiração. Eu também jogo futebol e sigo jogando porque penso em você. Te amo”.

O cartaz e a paixão da pequena Bia chegaram até a jogadora. Na semana em que a seleção esteve concentrada na cidade, as duas Bias se encontraram. A foto desse encontro tem dois sorrisos do mesmo tamanho.

A frase do cartaz pesa ainda mais quando se conhece a trajetória da atacante Bia Zaneratto. Ela começou jogando bola com os meninos na hora do recreio, em Araraquara (SP). Aos 12 anos, depois de se destacar em um campeonato e virar notícia, ouviu tantos comentários machistas e homofóbicos que desistiu do futebol. Voltou e, aos 13, já estava na seleção Sub-17. Daí em diante, foram quatro Copas do Mundo, a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Paris e a camisa 10 do Palmeiras.
Uma quase parou aos 12. A outra, aos 10, escreve que segue jogando por causa dela.
Histórias assim estão por todo o elenco. Geyse, autora de um golaço no Beira-Rio, aprendeu a jogar com os meninos nas praias de Maragogi (AL). Em 2025, perdeu o irmão Geovanne, seu maior torcedor, e chegou a dizer que não queria mais jogar. Com o apoio da família e de acompanhamento psicológico, voltou e, no México, reencontrou o gol, e o gol a trouxe de volta à seleção. Depois da bicicleta em Porto Alegre, comemorou erguendo as mãos em homenagem ao irmão.
Imagine se histórias como essas circulassem com a mesma naturalidade que a do Vozinha. Que Lorena, a goleira que se profissionalizou no Grêmio e defendeu um pênalti contra a França a caminho da prata em Paris, é a única brasileira indicada à Bola de Ouro deste ano. Que Duda Sampaio, eleita a melhor jogadora do Brasileirão quando vestia a camisa do Internacional, voltou ao Beira-Rio e participou de dois gols. Que a zagueira Isa Haas tinha bolsa para jogar futsal e queria estudar, e só fez teste no Internacional porque o pai insistiu. Que Priscila saiu do interior do Rio Grande do Norte aos 17 anos, foi eleita a Rainha da América aos 19 e protagonizou, naquele momento, a maior venda da história do futebol feminino brasileiro.
E há histórias que deveriam estar nos livros da escola. Em 1941, um decreto da Era Vargas proibiu as mulheres de jogar futebol no Brasil. A proibição foi reforçada pela ditadura militar em 1965 e só caiu em 1979, com regulamentação em 1983. Foram quase quatro décadas em que elas jogaram mesmo assim, em campos de várzea, em times de bairro, em partidas que ninguém registrou. Durante muito tempo, o futebol delas ficou escondido. Hoje, ele está a um clique de distância.
Um mutirão de dez segundos
A proposta é simples, gratuita e ao alcance de qualquer pessoa: seguir a seleção feminina e pelo menos três jogadoras. Depois, passar a bola para três amigos fazerem o mesmo.
As marcas têm um papel enorme nessa conversa. Recentemente, participei do Falas WW, podcast oficial da plataforma Women to Watch, ao lado de Camila Nunes, diretora de marketing da Amazon, patrocinadora da seleção. Ela contou como a marca decidiu dar voz às jogadoras com uma série de pequenos documentários sobre a trajetória de cada uma.
Mas não são só as patrocinadoras da seleção ou da Copa que podem entrar nesse jogo. Clubes, campeonatos estaduais, categorias de base e projetos sociais estão cheios de atletas com trajetórias que merecem ser contadas, e também de meninas que se inspiram nelas. Quanto mais essas histórias aparecerem, mais a modalidade será valorizada, mais novas atletas surgirão e mais longe irá o futebol feminino brasileiro.
O momento é agora. Entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, o Brasil receberá a primeira Copa do Mundo Feminina na América do Sul, com 32 seleções e 64 jogos em oito cidades-sede. Quem ajudar a construir essa torcida agora, chegará à Copa como parte da história.
Agora, a bola está com você. Comece pelo @selecaofemininadefutebol.
A gente já mostrou do que é capaz.
Siga a seleção. Siga as meninas. Siga as futuras Martas.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Liana Bazanela é cofundadora da Hoc Sports
Conheça nossos colunistas