Existem momentos em que uma jogadora deixa de disputar apenas uma partida; ela passa a disputar uma narrativa. Foi exatamente isso que aconteceu com Sophie Cunningham.
O que realmente chama atenção, no entanto, é outra coisa: a atleta do Indiana Fever, da WNBA, passou a ocupar um lugar muito diferente daquele reservado às atletas profissionais. Ela deixou de ser notícia apenas por aquilo que faz dentro da quadra e tornou-se personagem de uma discussão infinitamente maior. E aqui não cabe uma avaliação sobre quem está certo ou errado: independentemente da posição de cada um sobre esse tema, o que realmente importa é outra discussão.
Fato é que durante muitos anos, defender o crescimento do esporte feminino parecia uma causa consensual e muitas vezes até politicamente correta. Eu mesmo já escrevi algumas vezes sobre esse tema. Embora não vivencie essa realidade como mulher, ela sempre esteve presente na minha trajetória profissional e pessoal, e vocês que me acompanham e leem meus artigos sabem que, como pai de meninas e alguém que sempre acreditou na expansão do protagonismo feminino, sempre que posso ouso debater assuntos dessa natureza.
Quando mais jovem, era difícil encontrar alguém que apoiasse com clareza e um projeto estruturado o que vemos hoje em dia, principalmente no nosso futebol feminino às vésperas de uma Copa do Mundo de seleções no Brasil. Também era igualmente incomum alguém que dissesse publicamente que mulheres não deveriam receber mais investimento, melhores estruturas, maior visibilidade ou reconhecimento profissional. Pelo contrário: muitas empresas, marcas e, consequentemente, patrocinadores, bem como veículos de comunicação e até governos passaram a incorporar esse discurso como parte de uma agenda inevitável de evolução social. E que bom que isso aconteceu.
Nos últimos dias, Sophie Cunningham recebeu apoio, da mesma forma que recebeu críticas. Foi celebrada por uns e contestada por tantos outros. E assim ganhou os holofotes.
Há uma expressão que não uso há muito tempo, mas que, no meu ponto de vista, cabe como uma luva nesse assunto: prego que se destaca leva martelada.
Sophie foi acusada de transfobia por setores que entenderam suas declarações como uma tentativa de excluir atletas trans do esporte feminino. Ao mesmo tempo, tornou-se referência midiática para pessoas que defendem regras mais rígidas sobre a participação de atletas trans em competições femininas.
Toda vez que isso acontece o mercado presta atenção, já que a gente sabe muito bem como se movimenta o ponteiro na era da atenção: as marcas não patrocinam apenas resultados; elas buscam significado e, consequentemente, retorno de mídia e consumo sobre aquilo que decidem investir.
Billie Jean King
Esse embate (ou debate) me fez resgatar uma história com enorme simbolismo (e sem juízo de valor), que me fez refletir sobre o lugar de cada um de nós no mundo e as brigas que de fato transformam o esporte. Billie Jean King lutou contra a desigualdade salarial e de direitos no tênis ao fundar a Women’s Tennis Association (WTA) em 1973 e ameaçar boicotar o US Open. Isso levou o torneio a pagar prêmios iguais a homens e mulheres pela primeira vez.
No mesmo ano, ela venceu Bobby Riggs na famosa “Batalha dos Sexos”, partida histórica que virou filme. Riggs se autoproclamava machista e dizia que o tênis feminino era inferior e que qualquer homem velho venceria as melhores mulheres. No dia 20 de setembro de 1973, no Astrodome, em Houston, a tenista de 29 anos enfrentou Riggs diante de mais de 30 mil pessoas no local e outras dezenas de milhões pela TV. King venceu por 3 sets a 0 (parciais de 6/4, 6/3 e 6/3), provando o valor do esporte feminino e impulsionando os direitos das mulheres na sociedade.
Ironicamente ou não, aqui há um exemplo claro de luta por igualdade, sem que se discuta tomar o lugar do(a) outro(a) no mundo. A vitória contra Bobby Riggs foi muito mais do que um resultado esportivo; foi a demonstração de que o esporte feminino poderia mobilizar audiência, patrocinadores e atenção global.
Serena Williams
Outro fato relevante se deu com Serena Williams ao redefinir padrões estéticos, técnicos e culturais dentro do esporte mais tradicional do mundo. A norte-americana conquistou incríveis 23 títulos de Grand Slam em simples, reescreveu definitivamente o patamar de excelência competitiva e abriu portas para novas gerações, substituindo o estilo puramente estratégico por golpes explosivos, saques avassaladores e força dominante.
Serena igualmente impôs a força e a musculatura da mulher negra como o padrão máximo de eficiência e sucesso nas quadras. Ela não apenas venceu partidas, mas realmente mudou a forma como patrocinadores, mídia e público passaram a enxergar a potência do esporte feminino.
Esporte feminino
Nos dois exemplos, há demonstrações claras de força, sejam elas políticas, sociais ou físicas, e se a história de Sophie Cunningham simboliza o momento em que uma atleta passa a representar uma ideia, a evolução econômica da WNBA demonstra que essa transformação está longe de ser um episódio isolado. Na verdade, é consequência de uma mudança muito mais profunda na forma como o mercado enxerga o esporte feminino.
Poucos mercados ilustram tais transformações de maneira tão evidente quanto o basquete. Não por acaso, a WNBA atravessa o período de maior crescimento de sua história, impulsionada por recordes de audiência, aumento do interesse de patrocinadores, valorização das franquias e expansão dos direitos de transmissão. O que antes era visto como um produto complementar dentro do calendário esportivo tornou-se um ativo estratégico para investidores e marcas globais.
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Esse crescimento não aconteceu por acaso; ele é resultado da construção de um ecossistema em que os atletas deixaram de ser apenas protagonistas de partidas para se tornarem plataformas de comunicação capazes de influenciar comportamento, consumo e cultura. Isso ficou ainda mais evidente com esse episódio que, mesmo dividindo opiniões, concentrou a atenção do mundo.
NBA e WNBA
Talvez o exemplo mais emblemático dessa transformação esteja nos pés dos próprios jogadores da NBA. Durante décadas, a indústria de artigos esportivos seguiu uma lógica relativamente previsível: atletas masculinos excepcionais construíam carreiras vencedoras, conquistavam títulos e, como consequência, recebiam uma linha exclusiva de calçados. Foi assim com Michael Jordan, Kobe Bryant, LeBron James, Kevin Durant e tantas outras estrelas que ajudaram a consolidar o mercado global de tênis de basquete. Parecia uma regra inquestionável. Até que Sabrina Ionescu começou a reescrevê-la.
Quando a Nike lançou uma linha assinada pela armadora da WNBA, muitos enxergaram apenas mais uma iniciativa de fortalecimento do esporte feminino. O tempo, porém, mostrou que a estratégia era muito maior. Não demorou para que Sabrina passasse a figurar entre os modelos mais utilizados também por atletas da NBA, aparecendo com frequência em levantamentos especializados sobre os calçados mais usados da temporada. Esse dado, aparentemente simples, representa uma mudança histórica: pela primeira vez, um produto desenvolvido em parceria com uma atleta da WNBA passou a competir de igual para igual com linhas tradicionais assinadas por algumas das maiores estrelas masculinas do esporte.
Essa escolha revela algo importante sobre a dinâmica do mercado: jogadores profissionais não escolhem seus equipamentos por questões ideológicas nem por simpatia à história de quem os assina, mas sim por conta de desempenho, conforto, prevenção de lesões e, muitas vezes, a própria longevidade da carreira.
Esse talvez seja o aspecto mais simbólico de toda essa transformação. Durante muito tempo, imaginou-se que mulheres precisariam conquistar espaço consumindo produtos desenvolvidos para homens. Hoje, assistimos ao movimento inverso. Homens escolhem um produto concebido a partir da experiência de uma atleta porque reconhecem nele excelência técnica. A performance tornou-se um idioma universal capaz de dissolver barreiras que durante décadas pareciam intransponíveis.
E não parou por aí. Ao mesmo tempo em que Sabrina Ionescu consolidou sua marca como referência dentro e fora da WNBA, outras atletas passaram a ocupar espaços semelhantes. Caitlin Clark transformou-se em um fenômeno de audiência antes mesmo de estrear na liga profissional. Angel Reese compreendeu como poucas a importância da construção de uma marca pessoal em um ambiente cada vez mais conectado às redes sociais. A’ja Wilson consolidou sua imagem como símbolo de excelência esportiva.
Cada uma delas representa algo diferente para públicos distintos, mas todas compartilham uma característica comum: deixaram de vender apenas desempenho esportivo para comercializar identidade.
Essa talvez seja a principal diferença entre o esporte feminino de dez anos atrás e o que vemos hoje. O crescimento da modalidade já não depende exclusivamente da realização de grandes competições ou da conquista de medalhas. Ele também é impulsionado pela capacidade de transformar atletas em marcas capazes de estabelecer conexões emocionais profundas com diferentes comunidades.
Os números confirmam essa mudança. Segundo a consultoria britânica Deloitte, o esporte feminino deve atingir US$ 3 bilhões em receitas globais em 2026, impulsionado principalmente por mídia, patrocínios e licenciamentos. Não se trata mais de uma promessa. Trata-se de uma indústria em franca expansão. O esporte feminino se consolidou como um dos segmentos de maior crescimento dentro da indústria esportiva, e vale destacar que poucas indústrias conseguem gerar tanto engajamento quanto aquelas que produzem personagens capazes de despertar admiração, identificação e, inevitavelmente, controvérsia.
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É nesse contexto que casos como o de Sophie Cunningham deixam de ser apenas episódios esportivos para se tornarem sintomas de uma indústria que finalmente alcançou um patamar em que o verdadeiro legado não começa ou termina quando passa a faturar bilhões, mas sim quando deixa de pedir licença.
É exatamente nesse lugar que o esporte feminino chegou. Elas não disputam mais partidas ou campeonatos, mas sim audiência, influência e atenção.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Reginaldo Diniz é cofundador e CEO do Grupo End to End
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