Max Holloway estreou no UFC em fevereiro de 2012, aos 20 anos, numa derrota por finalização para Dustin Poirier no UFC 143. Quatorze anos depois, é o lutador com mais tempo total de permanência no octógono na história da organização, com 8 horas, 52 minutos e 43 segundos de combate, o maior nocauteador da história da divisão peso-pena com nove nocautes dentro do UFC, e o nome escolhido pela organização para receber Conor McGregor de volta ao octógono no UFC 329, neste sábado (11/7), na T-Mobile Arena em Las Vegas. A trajetória entre esses dois pontos é a história de um lutador que transformou cada derrota em um degrau e cada vitória em um marco da organização.
O segundo parágrafo desta história começa em agosto de 2013, quando Holloway perdeu para McGregor por decisão unânime no UFC Fight Night 26, em Boston. Era a terceira luta do havaiano no UFC, McGregor estava construindo o nome na organização, e o resultado foi menos relevante do que o contexto: Holloway aplicou quatro das cinco quedas sofridas por McGregor em toda a carreira profissional naquele confronto, dado que o próprio havaiano trouxe à tona com bom humor na entrevista com Max Holloway pré-UFC 329, concedida à Stake na semana do evento: “Acho que o McGregor tem cinco quedas no UFC e eu sou responsável por quatro delas, o que é bem engraçado.”
Nos três anos seguintes à derrota para McGregor, Holloway venceu 12 lutas consecutivas e se tornou o desafiante número um dos penas. O volume de apostas gerado pelo UFC 329 já supera o de qualquer evento da organização nos últimos três anos, reflexo do poder comercial dos dois nomes envolvidos, e quem quiser acompanhar as odds em tempo real pode conferir os palpites UFC na plataforma, com mercados abertos até o momento em que a porta do octógono fecha no sábado.
A sequência de 12 vitórias abriu caminho para a luta mais importante da carreira até aquele momento: o confronto com José Aldo pelo cinturão unificado dos penas, no UFC 212, em junho de 2017 no Rio de Janeiro. Aldo havia defendido o cinturão por seis anos consecutivos, acumulando vitórias sobre Urijah Faber, Kenny Florian, Chad Mendes e Frankie Edgar. A única derrota no cartel havia sido o nocaute em 13 segundos para McGregor no UFC 194, resultado que muitos no meio consideravam uma anomalia estatística. Holloway foi ao Rio e encerrou o reinado de Aldo com um nocaute técnico no terceiro round que ninguém havia conseguido antes. Na entrevista à Stake, 14 anos depois de sua estreia na organização, o havaiano foi claro sobre o peso daquela noite: “Pra mim, pessoalmente, nada nunca vai superar eu ter enfrentado o José Aldo, o Rei do Rio, e ter tirado o cinturão unificado dele no Rio.”
O reinado, a trilogia com Volkanovski e a reinvenção
O reinado de Holloway nos penas durou até dezembro de 2019, quando perdeu o cinturão para Alexander Volkanovski por decisão unânime no UFC 245. As duas revanches seguintes, em julho de 2020 e julho de 2022, também foram para o australiano, por decisão dividida e por decisão unânime, respectivamente. A trilogia com Volkanovski definiu Holloway como um dos maiores da divisão sem que os resultados conseguissem ofuscar a qualidade das atuações: nas três lutas, o havaiano acumulou 363 golpes significativos conectados, contra 493 do australiano, numa série que elevou o nível técnico da divisão por anos.
Em abril de 2024, Holloway enfrentou Justin Gaethje pelo cinturão BMF no UFC 300, depois de reerguer o cartel com vitórias sobre Arnold Allen, o Zumbi Coreano e Yair Rodriguez. A luta chegou ao quinto round com Gaethje à frente nos cartões da maioria dos analistas. Nos segundos finais daquele quinto round, com o tempo praticamente esgotado, Holloway acertou uma sequência de socos que nocauteou o adversário. A cena foi transmitida ao vivo para mais de 2,5 milhões de assinantes do pay-per-view nos Estados Unidos e se tornou um dos momentos mais reproduzidos da história da organização.
Gaethje revelou mais tarde ao podcast de Joe Rogan que não estava mentalmente preparado para o que Holloway representava naquele octógono. O americano disse que, em determinado momento da luta, sentiu que não conseguiria vencer independentemente do que fizesse. Holloway, ao ser questionado sobre a declaração na entrevista à Stake, respondeu com a objetividade de quem prefere fatos a interpretações: “Só ele sabe, saca? E, sabe, é chato ele ter se sentido assim, mas é uma luta, saca? Eu fui lá, fiz o meu corre, e aí aconteceu o grande momento. Então, não tenho como te dizer.”
O nocaute rendeu a Holloway o cinturão BMF e recolocou o havaiano no centro das conversas sobre o título dos penas e leves. A derrota por nocaute para Ilia Topuria no UFC 308, em outubro de 2024, abriu uma nova rodada de questionamentos sobre o futuro de Holloway: Topuria foi o único lutador a nocauteá-lo na carreira profissional, no terceiro round. Para quem já havia declarado Holloway acabado após as derrotas para Volkanovski, a queda para Topuria parecia confirmar o diagnóstico. Mas Topuria depois subiu de categoria e perdeu o cinturão dos leves para Gaethje no UFC na Casa Branca, evento que registrou 17 milhões de espectadores no Paramount+ e se tornou o maior evento exclusivo da plataforma.
A vitória de Gaethje reabriu para Holloway um caminho que ele mesmo citou na entrevista à Stake: “Eu tenho uma história com o campeão dos 70 kg e todo mundo está dizendo que o Conor pode lutar pelo cinturão nos 77 kg. Então, se eu conseguir me colocar nessa conversa, seria muito bom.” Em outras palavras: vencer McGregor no sábado pode abrir a porta para Holloway disputar o cinturão dos leves contra o mesmo homem que ele nocauteou no UFC 300.
A derrota para Oliveira e o retorno à International Fight Week
Em março de 2026, Holloway defendeu o cinturão BMF conquistado no UFC 300 contra Charles Oliveira, o melhor finalizador da história dos leves. A luta foi uma das mais frustrantes da carreira do havaiano: Oliveira dominou no chão por longos períodos, acumulou cinco tentativas de finalização e venceu por decisão unânime. A derrota parecia encaminhar Holloway para uma posição secundária no ranking dos penas e leves.
Quatro meses depois, o telefone tocou de novo. O UFC precisava de alguém para receber McGregor de volta ao octógono e escolheu Holloway. O havaiano soube da possibilidade ainda durante férias no Japão com a esposa: “Eles meio que jogaram a ideia pra gente antes de eu viajar, tipo, ‘ó, você pode pegar o Conor McGregor’. E eu, tipo, caramba, fechou! Mas o detalhe é que era nos 170. E eu, tipo, não tô nem aí se for no peso-pesado, saca? Uma luta contra o Conor McGregor é uma luta grande, então pode assinar aqui.”
A disposição de aceitar a luta num peso acima do habitual diz algo sobre o perfil de Holloway. Lutadores que chegaram ao patamar que ele ocupa costumam proteger o cartel com mais cuidado. Holloway faz o oposto: busca as lutas que definem carreiras. “É sempre uma sensação boa saber que o UFC pode confiar em você pra esse tipo de luta grande. No fim das contas é ótimo saber que eu sou um dos caras do UFC, e que eles sabem que eu levo público.”
O adversário e os 14 anos de espera
McGregor não compete desde julho de 2021, quando sofreu uma fraatura no tornozelo contra Dustin Poirier no UFC 264. O irlandês chega ao UFC 329 com 22 vitórias e seis derrotas no cartel profissional, 19 delas por nocaute, e com uma sequência de derrotas que incluiu Nate Diaz, Khabib Nurmagomedov e duas para Poirier. A última vitória foi sobre Donald Cerrone em janeiro de 2020, por nocaute técnico em 40 segundos nos meio-médios, a mesma categoria do confronto com Holloway neste sábado.
José Aldo, que conhece os dois adversários de dentro, foi consultado pelo portal O Dia na semana do evento e ofereceu a perspectiva de quem foi nocauteado por ambos ao longo da carreira: “O favorito é o Max Holloway. Não porque ele é muito superior, mas porque ele ainda está ativo, lutando com frequência, com performances fortes e competitivas. Conor é uma incógnita. Não o vemos lutar há muito tempo. Por isso coloco o Max um passo à frente. Mas isso não significa que o Conor não pode ir até lá e nocauteá-lo. Isso pode acontecer. E não seria uma tragédia para o Max, porque o Conor ainda é um striker de elite.”
A avaliação de Aldo é representativa do consenso entre analistas. Belal Muhammad, ex-campeão dos meio-médios, foi além na análise ao MMA Fighting: “Cinco anos de afastamento, cinco anos de vida pesada, de recuperação, é muito para McGregor superar. Holloway está em forma, motivado depois da derrota, e ainda mais motivado agora sabendo que uma luta maior está no horizonte. Meu palpite é Holloway por TKO.”
Dricus du Plessis, ex-campeão dos médios, foi o único nome de peso a declarar apoio ao irlandês, mas com uma ressalva que resume bem o dilema de quem aposta em McGregor: “O Conor tem aquele timing assustador. Todo mundo que lutou contra ele diz isso. E basta um. Ilia nocauteou o Max, então é possível. Mas eu nunca vou contra o Conor.” A frase é uma declaração de fé, não de análise técnica.
A motivação e o que vem depois
Holloway foi explícito sobre o que o mobiliza para o UFC 329, além do adversário. Na entrevista à Stake, falou sobre a derrota para Oliveira com uma clareza que desarmou qualquer tentativa de interpretar o resultado como um sinal de declínio: “Muita gente me encheu o saco por causa daquela luta. Cara, eu tive o cara mais perigoso do mundo, o melhor lutador de agarrada da divisão, nas minhas costas por um bom tempo, e ele não conseguiu terminar o serviço. Tem umas coisas que a gente tinha que trabalhar, e eu acredito que a gente trabalhou.”
A preparação para o UFC 329 se beneficiou da mudança de categoria. Sem necessidade de corte de peso para as 170 libras, o treinamento passou a ser inteiramente orientado para performance: “Agora a gente tá comendo pra performar. Toda vez que eu tinha que cortar peso, era sempre tipo, a gente tinha que pensar em performance, mas também tinha que tirar um pouco disso porque precisava perder peso. Então aqui nos 170 é tudo sobre performance, mano.” A mudança de categoria tem uma contrapartida: McGregor, que compete naturalmente próximo às 170 libras, pode chegar ao confronto com mais força do que Holloway, que está competindo nos meio-médios pela primeira vez na carreira, categoria acima dos leves (155 libras) onde construiu boa parte de seu histórico recente.
Uma vitória sobre McGregor abriria dois caminhos: a disputa pelo cinturão dos penas, hoje nas mãos de Ilia Topuria, e a possibilidade de disputar o cinturão dos meio-médios pela primeira vez. “O pessoal já tá falando de como o vencedor dessa luta pega a disputa por aquele cinturão, e de como o vencedor dessa luta também pode disputar o cinturão dos 170. Quem sabe, saca? Então, no fim das contas, eu só tenho que ir lá e fazer o serviço.”
O card do UFC 329 inclui ainda três brasileiros no card preliminar: Cesar Almeida (Cesinha), ex-campeão de kickboxing com cartel de 7 vitórias e 2 derrotas que enfrenta Damian Pinas no peso-médio; Ryan Gandra, mineiro de Betim com cartel de 9 a 1 que nocauteou seu primeiro adversário no UFC em 41 segundos e agora enfrenta Zachary Reese; e Alessandro Costa (Nonô), paraense de Alenquer com cartel de 16 a 5, embalado por duas vitórias consecutivas, que aceitou chamado de última hora para enfrentar Cody Durden no peso-mosca.
Holloway chegou ao confronto com McGregor classificando a luta como a maior da carreira em outras entrevistas da semana do evento, mas na conversa com a Stake foi mais específico sobre a hierarquia pessoal. A noite de sábado vai dizer se o reencontro com McGregor supera Aldo no Rio, o UFC 300 ou qualquer outra coisa que veio antes. Por ora, a única certeza é que o UFC voltou a ligar para o homem certo, e ele atendeu.
