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Sem bets, e agora? O que Caixa, Premier League e até o tabaco indicam sobre o “buraco” deixado pelas apostas

Casos anteriores mostram como grandes espaços de patrocínio foram redistribuídos após a saída de uma categoria

Histórico de Caixa, tabaco e Premier League pode ajudar a mostrar o que ocorrerá no futebol brasileiro com a saída das bets - Reprodução

⚡ Máquina Fast
  • A proibição das apostas pelo Governo Federal deixa uma lacuna de R$ 1,143 bilhão em patrocínios para clubes de futebol brasileiros em 2025.
  • Exemplos internacionais, como a Fórmula 1 e Premier League, mostram que saídas de grandes patrocinadores podem diversificar o mercado e migrar investimentos para outros setores.
  • Setores como financeiro, montadoras e tecnologia devem ser os principais candidatos a ocupar o espaço deixado pelas casas de apostas no futebol brasileiro.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

A proibição das apostas pelo Governo Federal na semana passada tirou do futebol brasileiro a maior fonte de patrocínio que um único setor já ofereceu ao esporte no país. Com uma lacuna desse tamanho, o mercado começa a procurar referências para entender o que pode acontecer daqui para frente, desde o socorro do poder público, como no caso de Minas Gerais, até a entrada de novas categorias de patrocinadores.

LEIA MAIS: Proibição das apostas abre caminho para outros setores patrocinarem o futebol

Para isso, a Máquina do Esporte separou alguns casos que ajudam a projetar o que pode acontecer nos próximos meses com preços, contratos e setores interessados em ocupar esse espaço.

O tamanho do que sai de campo

Em 2025, as bets pagaram R$ 1,143 bilhão aos 20 clubes de maior receita do país, o equivalente a cerca de 36% das receitas de marketing desses times (das receitas totais seria algo próximo de 7%). Em 2026, 14 dos 20 clubes da Série A têm uma casa de apostas como patrocinadora máster, enquanto a televisão concentrou outros 74% do investimento feito pelas bets no ano passado, levando o impacto da saída do setor também para emissoras e produtores de conteúdo esportivo.

O que a MP determina e o que segue em aberto

A Medida Provisória (MP) 1.394/2026, assinada na última sexta-feira (25 de setembro), proíbe a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa e de cassinos on-line. As empresas têm até as 23h59 da próxima segunda-feira (5 de outubro) para retirar peças e sinais de patrocínio e, a partir da terça (6), não podem mais operar no país.

Os contratos com clubes, estádios, criadores de conteúdo e emissoras entram em uma zona cinzenta, com dúvidas sobre interrupção, rescisão ou renegociação. O Flamengo, por exemplo, chegou a projetar um impacto de cerca de R$ 400 milhões.

Existe, portanto, um enorme espaço comercial potencialmente livre, mas ninguém sabe ainda se ele ficará efetivamente livre nem por quanto tempo. O primeiro turno das eleições presidenciais acontecerá no próximo domingo (4), às vésperas do prazo, e o resultado pode alterar o destino da MP, mantendo os clubes diante de uma incerteza que também dificulta a negociação de novos contratos.

Tabaco foi proibido na F1 em 2006: O que aconteceu?

No ano de 2000, 6 das 11 equipes da Fórmula 1 tinham uma marca de cigarro como patrocinadora principal, e o setor chegava a injetar cerca de US$ 350 milhões por ano na principal categoria do automobilismo mundial. A pressão da saúde pública e as restrições da União Europeia e da Organização Mundial da Saúde (OMS) levaram ao banimento completo da publicidade de tabaco em 2006, e especialmente as equipes menores sentiram a perda dessa receita.

Com menos dinheiro e uma crise financeira no caminho, as equipes buscaram empresas de tecnologia, que passaram a oferecer conectividade, armazenamento e análise de dados. A F1 virou um ambiente interessante para testar essas soluções, já que um carro gera mais de 3 terabytes de dados por corrida. A McLaren se tornou um dos exemplos dessa mudança, construindo uma carteira de parcerias que combinava tecnologia, lifestyle, conteúdo e experiências.

A lição para o futebol brasileiro é que a saída de uma grande categoria pode mudar o perfil comercial de uma propriedade, com novas empresas entrando e clubes precisando diversificar suas fontes de receita.

Marlboro esteve presente na F1 até o começo dos anos 2000 – Reprodução

Saída da Caixa em 2019: Sobra máster e falta comprador

Ao longo de 7 anos, a Caixa investiu R$ 663,7 milhões em 25 clubes das Séries A e B do Brasileirão. Em 2018, era patrocinadora máster de 12 times da Série A, mas decidiu não renovar os contratos em 2019.

A consequência mais direta apareceu nos preços. Vários clubes passaram a procurar patrocinador máster ao mesmo tempo, enquanto poucas empresas estavam dispostas a pagar valores semelhantes. A consequência óbvia: os contratos caíram.

A reposição veio em boa parte do próprio setor financeiro, especialmente das fintechs, que já vinham ganhando espaço no futebol, com Banco Inter, Crefisa e Bmg. Veja matéria da ESPN na época.

Mercado de cripto serve como exemplo?

O colapso da FTX, uma das maiores corretoras centralizadas de criptomoedas, em 2022, ocupou grandes propriedades do mercado no começo da década, setor relativamente correlato ao das bets em termos de forte adoção, especulações de bolhas e grandes valores envolvidos, além, claro, de dividir a opinião pública em determinada medida.

A corretora tinha comprometido mais de US$ 375 milhões em diversos patrocínios esportivos, incluindo os naming rights da arena do Miami Heat, da NBA, e acordos com a TSM e a Universidade de Berkeley. Como no caso das bets, em poucos dias, quase tudo foi suspenso ou encerrado.

FTX deu nome à arena do Miami Heat – Reprodução

Premier League contornou a proibição das bets

A liga inglesa vive atualmente a primeira temporada sob a nova regra que proíbe marcas de jogos de azar na frente das camisas, resultado de um acordo coletivo de 2023. Segundo a Nielsen, o espaço passou a ser ocupado por fintechs, fundos soberanos e empresas de software, como Temporal no Crystal Palace; Visit Rwanda no Aston Villa; e CMC Markets no Everton. O relatório aponta uma dinâmica parecida com a da F1 e prevê uma nova corrida comercial, agora entre empresas de tecnologia e infraestrutura.

Ao mesmo tempo, um levantamento do jornal The Guardian mostra que 10 dos 20 clubes têm acordos com operadores não licenciados no Reino Unido, contra 6 na temporada anterior. O Everton fechou três anos de patrocínio de manga com a Stake, o Fulham levou a Sbotop para o uniforme de treino, e outros clubes mantêm publicidade de perímetro e ações com jogadores. Uma das hipóteses para esse aumento é a própria proibição do patrocínio máster, que empurrou parte do dinheiro das bets para lugares que a nova regra não cobre.

O peso dessa receita muda conforme o clube. Manchester United, Manchester City, Liverpool e Arsenal conseguem buscar marcas globais de setores mais diversos, enquanto equipes menores, com menos projeção internacional, dependem mais das casas de apostas sediadas fora do país.

Perfil da mudança de patrocínio máster na Premier League após a proibição das bets – Reprodução / BBC

Quem pode ocupar o espaço no Brasil

Com a saída repentina das bets, os precedentes ajudam a desenhar quem pode ocupar esse espaço. O caminho mais conhecido vem do próprio setor financeiro, que reabasteceu o máster depois da saída da Caixa em 2019.

As montadoras também chegam a esse momento com uma presença maior no futebol. Pressionadas pela expansão das chinesas, que chegaram a 14,8% do mercado em março e precisam ganhar reconhecimento, GAC, Leapmotor e BYD passaram a ocupar propriedades de Flamengo (GAC), Palmeiras (Leapmotor), Corinthians (BYD) e Bahia (BYD), enquanto Volkswagen e Hyundai ampliaram sua presença com a seleção brasileira e o futebol feminino, respectivamente. Como alguns desses clubes têm bets no máster, as montadoras estão entre as categorias que já conhecem o mercado e podem disputar uma área mais nobre da camisa.

A inteligência artificial (IA) tem um paralelo direto com o que aconteceu na Fórmula 1, já que a tecnologia foi uma das categorias que ajudaram a ocupar o espaço deixado pelo tabaco. Em seis meses, a F1 fechou 8 parcerias de IA, segundo a Ampere Analysis, entre elas Williams com Claude; Red Bull com Oracle; e McLaren com Gemini. O Google também intensificou sua atuação com Pixel e Gemini na NBA e em clubes e seleções de futebol. O futebol brasileiro, porém, ainda está alguns degraus abaixo da F1 em reputação e alcance global, o que limita a comparação.

Duas marcas já demonstraram interesse publicamente em patrocinar clubes neste novo contexto. A Cimed, presente em Palmeiras, Cruzeiro e também na seleção brasileira, tem o interesse mais concreto, com um vídeo do CEO João Adibe Marques sinalizando os lugares vagos tendo viralizado nos últimos dias.

A Fatal Model, plataforma de anúncios de acompanhantes, apareceu como suposta interessada em Flamengo e Corinthians. O time carioca negou o contato. E vale lembrar também que a empresa repete esse movimento desde 2023, sem contrato assinado, colocando os clubes diante de uma discussão de segurança de marca (brand safety).

O Assaí é outra empresa com atuação no futebol brasileiro, incluindo Brasileirão, Copa do Brasil e campeonatos regionais e estaduais, mas sem histórico de patrocínio a clubes.

O que os precedentes indicam para o Brasil

Juntos, os casos apontam algumas tendências para o mercado brasileiro. No curto prazo, a Caixa sugere perda imediata de receita, renegociações e pressão sobre o preço do máster. A F1 mostra como a saída de uma categoria pode diversificar o perfil dos patrocinadores, enquanto a FTX lembra que preencher rapidamente um espaço também pode trazer risco quando o dinheiro vem de setores em forte euforia. A Premier League, por sua vez, mostra que parte da verba pode migrar para outros ativos quando uma propriedade deixa de estar disponível.

Há também uma diferença importante. Na F1 e na Premier League, o banimento foi gradual, e na Caixa a decisão partiu do patrocinador. No Brasil, a restrição veio por meio de uma MP, com prazo de dias e possibilidade de mudança de rumo depois das eleições. Isso torna o cenário mais incerto e pode abrir espaço para contratos mais curtos e com cláusulas de saída nas próximas negociações.

Os precedentes indicam que o espaço deixado pelas bets pode ser ocupado, mas dificilmente por uma única categoria ou pelos mesmos valores.

O conteúdo desta publicação foi retirado da newsletter semanal Engrenagem da Máquina, da Máquina do Esporte, feita para profissionais do mercado, marcas e agências. Para receber mais análises deste tipo, além de casos do mercado, indicações de eventos, empregos e mais, inscreva-se gratuitamente por meio deste link.

A Engrenagem é produzida por Theodoro Montoto, profissional de marketing, com foco em planejamento estratégico, dados e inteligência de mercado na interseção entre marcas e esporte, e conta com uma nova edição todas as quintas-feiras, às 9h09.