Patrocinadora da Copa do Mundo de 2026, a Michelob Ultra, cerveja do grupo AB Inbev, garantiu o direito de promover uma das ativações de maior visibilidade do torneio.
Ela oferece o troféu de melhor do jogo para os atletas que se destacam em cada confronto do Mundial.
A taça do “Superior Player of the Match” traz a logomarca da Michelob Ultra, que também aparece no backdrop, diante do qual é realizada a entrega da premiação.
No entanto, na Copa do Mundo com o maior número de seleções na história (48 no total), é grande a presença de jogadores islâmicos, especialmente em seleções do norte da África, como Marrocos, Egito, Senegal e Argélia, e da Ásia, como Jordânia, Iraque, Catar, Irã, Arábia Saudita e Uzbequistão.
Mesmo entre as seleções da União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) há dois times de nações de maioria muçulmana, que são Turquia e Bósnia e Herzegovina.
O Islã tem como um dos preceitos principais a proibição ao álcool, prevista no livro sagrado Alcorão e nos hádices, que são transcrições de relatos orais feitos pelo profeta Maomé.
O Alcorão se refere ao álcool e aos jogos de azar (duas das principais fontes de patrocínio do futebol nos dias atuais) como “ferramentas de Satanás”, criadas para semear a discórdia, o ódio e afastar as pessoas do caminho espiritual.
Em um dos ensinamentos mais conhecidos de Maomé, ele afirma que a maldição relacionada ao álcool recai não apenas sobre o indivíduo que consome a bebida, mas sobre outras dez pessoas envolvidas no processo, desde quem produz, passando por quem transporta e até quem comercializa, e assim por diante.
Portanto, exibir para milhões de pessoas um troféu trazendo uma marca de cerveja poderia ser considerado o mesmo que anunciar bebida alcoólica, o que representa um haram, termo em árabe para descrever o que é proibido ou ilícito pela lei islâmica.
Incorrer nessa prática poderia sujeitar atletas muçulmanos não apenas a constrangimento em seus países de origem, como também a sanções severas, em alguns casos.
Como a regra é aplicada nos países islâmicos
No Irã, que desde 1979 adota um regime teocrático, o consumo de álcool por qualquer indivíduo (iraniano ou turista) é punido com 80 chibatadas. Estrangeiros que são flagrados portando, contrabandeando ou consumindo bebidas em praça pública enfrentam prisão, multas pesadas e deportação imediata.
As leis do país preveem ainda pena de morte para pessoas que reincidem na prática, por três ou quatro vezes.
Na Arábia Saudita, embora o regime também seja teocrático, a venda de bebidas com teor alcoólico de até 20% é tolerada em alguns hotéis de luxo, apenas para turistas não islâmicos. Quem é pego consumindo a substância fora das zonas de exclusão pode sofrer multas elevadas, além de prisões prolongadas e deportação. Para a população local, a proibição total continua em vigor.
Outras nações como Turquia e Senegal não vetam a venda e o consumo de álcool, pois são estados laicos, apesar da população de maioria muçulmana.
Nesse ambiente tão diverso, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) optou por entregar uma versão do troféu sem a logomarca da Michelob Ultra para os atletas de origem islâmica.
Caso de Mohamed Salah, que recebeu a homenagem de melhor jogador na vitória do Egito sobre a Nova Zelândia por 3 a 1, no último domingo (21), diante de um backdrop que não trazia o símbolo da marca de cerveja.
Vale lembrar que o Egito, apesar de ser de maioria islâmica, possui leis mais flexíveis quanto às bebidas alcoólicas.
O produto pode ser consumidor em hotéis, resorts, bares, restaurantes e baladas, até mesmo por cidadãos locais (exceto no mês sagrado do Ramadã).
Porém, a venda não ocorre em supermercados e mercearias, e as pessoas não podem ingerir em locais públicos.
Constrangimento
Os jogadores de origem islâmica não são a única dor de cabeça para a Michelob Ultra e outras marcas de cerveja, que atualmente precisam se defrontar com uma geração de jovens atletas que rejeitam o consumo de álcool por escolha própria.
Um exemplo que chamou a atenção foi o do atacante brasileiro Vinicius Júnior, escolhido melhor jogador do confronto entre Brasil e Haiti, na sexta-feira passada (19).
Após receber o troféu com a logomarca da Michelob, o atleta foi questionado sobre qual sua comida preferida para acompanhar uma cerveja.
“Não tomo cerveja. Então, é mais complicado para mim. Sempre que a gente vai encontrar os amigos, a gente come arroz, feijão, carne com batata frita, que é o prato típico do Brasil”, respondeu o jogador.
Apesar desse constrangimento, Vinicius Júnior voltou a ganhar o troféu de melhor do jogo oferecido pela Michelob, desta vez das mãos do ex-lateral-direito Cafu, por sua atuação na vitória do Brasil diante da Escócia, por 3 a 0, nesta quarta-feira (24).
