A seleção da Noruega divulgou uma imagem dos jogadores trajados como vikings à beira de um fiorde, em uma produção assinada pelo renomado fotógrafo David Yarrow. A foto, que já se tornou uma das mais icônicas às vésperas da Copa do Mundo de 2026, terá cópias limitadas vendidas e revertidas para causas sociais. O registro, porém, já causa polêmica no país.
A foto da equipe, que está de volta ao Mundial da Fifa após 28 anos, terá 250 cópias vendidas por valores que variam de 100 mil a 250 mil coroas norueguesas, dependendo do tamanho da impressão.
Se todos os itens forem comercializados, serão arrecadados 39 milhões de coroas norueguesas (R$ 21,32 milhões). Parte da renda será destinada à Associação de Combate ao Câncer Infantil.
Críticas
Internamente, porém, o registro gerou críticas sobre a imagem que a população local quer passar do país ao mundo. A imagem de guerreiros propagada pelos vikings não é a que mais agrada parte significativa dos noruegueses, que preferem ser vistos como um povo pacifista e mediador de conflitos.
A campanha dividiu a opinião pública local entre críticas sobre machismo e defesas da identidade cultural da Escandinávia. Parte dos analistas locais apontou que a abordagem visual de teor agressivo não se alinha aos valores contemporâneos do país.
Janne Stigen Drangsholt, colunista do jornal Aftenposten, o principal do país, afirmou que a campanha cria uma imagem machista que destoa do pensamento pacifista do povo norueguês.
“Há uma espécie de estética masculina e uma vibração um tanto tóxica e infantil. Eles poderiam ter pensado em algo melhor”, criticou.
A rejeição da imagem ganhou o apoio de Hans Petter Sjoli, colunista político do jornal Verdens Gang, que defendeu a retirada desse conceito do esporte, avaliando que o tema está saturado.
“Está ficando um pouco exagerado e com cara de Disney para nós, noruegueses”, reclamou, em entrevista à emissora NRK.
“Acho que a imagem do futebol deveria ser realista, como os noruegueses são: pessoas um pouco cautelosas e decentes que se vestem com elegância quando estão prestes a vivenciar grandes momentos”, definiu o jornalista, que também é formado em História.
No jornal Klassekampen, a pesquisadora Jane Haug Skjoldli alertou para os riscos políticos de vincular o futebol nacional a idealizações masculinas do passado, apontando conexões com linguagens simbólicas neonazistas e fascistas.
Defesa

Por outro lado, integrantes do cenário político e especialistas em arqueologia defenderam o direito da seleção de utilizar os elementos do passado do país no uniforme e nos materiais de divulgação.
O deputado Mímir Kristjánsson, do Partido Vermelho, classificou as reações negativas como absurdas e ressaltou a importância de exibir traços locais em um torneio global.
“É uma Copa do Mundo de Futebol onde culturas de todo o mundo se encontrarão. A Noruega precisa trazer sua própria cultura para que a diversidade funcione”, afirmou Kristjánsson, em entrevista à NRK.
O parlamentar também contestou o monopólio da simbologia nórdica por facções extremistas.
“Os nazistas não são donos de Thor, Odin, da escrita rúnica ou de Valhalla”, acrescentou Kristjánsson, que atua em um partido de esquerda.
“Temos que retomar isso deles. Acho que a seleção nacional está dando um ótimo exemplo”, elogiou.
Cultura
A Federação Norueguesa de Futebol (FNF) endossou os argumentos culturais e negou que a intenção seja exaltar a violência do passado. A entidade foca no trabalho coletivo e no sentimento de união do elenco atual, que cumpre o período de treinamentos nos Estados Unidos.
“Usamos a história como uma imagem de algo que ainda hoje é forte no futebol norueguês: comunidade, voluntariado, coragem e a capacidade de se manter unido quando é preciso”, destacou Ragnhild Ask Connell, diretora de comunicação da FNF.
Alheia a essas divergências, a torcida adotou o mote nas arquibancadas. Durante a vitória por 3 a 1 sobre a Suécia em um amistoso de preparação, milhares de torcedores simularam movimentos de remada gritando ritmicamente “Ro! Ro!” (“Remem!”).
