Pular para o conteúdo

“Ressuscitada” na Copa do Mundo, polêmica sobre Malvinas segue viva com clubes argentinos

Chacarita Juniors incluiu frase usada por jogadores da seleção após vitória sobre a Inglaterra, no Mundial, em sua nova camisa comemorativa

Chacarita lançou camisa nas cores da seleção argentina e frase sobre Malvinas - Reprodução / Instagram (@chacaoficial)

⚡ Máquina Fast
  • Chacarita Juniors lançou camisa comemorativa com a frase 'Las Malvinas son Argentinas', reacendendo a polêmica sobre a soberania das Ilhas Malvinas durante a Copa do Mundo de 2026.
  • A disputa pelas Ilhas Malvinas entre Argentina e Reino Unido tem raízes históricas e resultou na Guerra das Malvinas em 1982, com reivindicações territoriais ainda não resolvidas.
  • A Associação de Futebol Argentino enfrenta processo disciplinar da Fifa por manifestações políticas e discriminação, enquanto o clube Chacarita expressa sua posição ideológica contra o imperialismo britânico.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Depois de haver sido “ressuscitada” pelos jogadores Lisandro Martínez e Giovani Lo Celso após a vitória da seleção argentina sobre a Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo de 2026, a polêmica em torno de quem seria o real dono das Ilhas Malvinas (ou Falkland, para os britânicos) segue viva com os clubes da nação sul-americana.

No último fim de semana, o Chacarita Juniors, clube de Buenos Aires conhecido por sua forte relação com setores operários e progressistas do país, lançou uma camisa comemorativa nas cores da seleção argentina, no lugar dos tradicionais vermelho, preto e branco, e que traz a frase “Las Malvinas son Argentinas”, que fora utilizada na faixa exposta por Lisandro e Lo Celso na Copa do Mundo.

O caso despertou polêmica, já que as regras da Federação Internacional de Futebol (Fifa) costumam barrar manifestações políticas durante suas competições oficiais.

Por conta dessa norma, seleções europeias como Alemanha e Inglaterra foram proibidas de usar a braçadeira One Love, com a bandeira do arco-íris em apoio à causa LGBTQIA+, durante a Copa do Mundo de 2022. O objetivo da iniciativa era denunciar a perseguição a esse grupo social, promovida pelo governo do Catar, país-sede do torneio.

LEIA MAIS: Fifa mantém proibição à braçadeira “One Love” na Copa do Mundo Feminina 2023

A Argentina, porém, ficou inicialmente livre de punição após tocar nessa velha disputa territorial com o Reino Unido, em plena semifinal da última Copa do Mundo. O que não significa que as sanções não possam ocorrer em breve.

Como surgiu a polêmica

Situada a 460 quilômetros da costa da Argentina e a 12 mil quilômetros do Reino Unido, as Malvinas são um arquipélago formado por mais de 700 ilhas, com área ligeiramente superior a 12 mil quilômetros quadrados (um pouco maior que o estado brasileiro de Sergipe).

O local tem sido objeto de disputa entre britânicos e argentinos desde o século 19. Por milênios, o que hoje conhecemos por Malvinas ou Falkland não passavam de rochedos desabitados, em uma região fria e inóspita do Atlântico Sul.

As tentativas mais antigas de ocupação do local datam do século 18. Atualmente, a versão mais aceita é de que a França foi a primeira a estabelecer uma base no local, em 1764. No ano seguinte, uma esquadra britânica reivindicou o arquipélago como território da Inglaterra, fundando a colônia de Port Egmont.

Em 1770, porém, uma esquadra espanhola que levava 1,4 mil soldados partiu de Buenos Aires rumo às ilhas, expulsando os ingleses.

O caso quase provocou uma guerra entre os dois países, mas, naquele período a Inglaterra optou por deixar várias de suas possessões menos lucrativas no exterior.

Dessa forma, a Espanha manteve na Malvina Oriental a guarnição de Puerto Soledad, que era administrada a partir de Montevidéu, onde hoje é o Uruguai, mas que à época integrava o antigo Vice-Reinado do Rio da Prata (guardem essa informação, pois ela é importante). Em 1811, os militares europeus tiveram de deixar o local, por conta da invasão napoleônica e da Guerra de Independência da Argentina.

Mais tarde, o próprio território hoje conhecido como Uruguai cairia sob o domínio do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, conquistando sua independência do império brasileiro apenas em 1825 (o que contrariou as pretensões do governo argentino da época, que desejava que a área fosse incorporada ao país).

Após se consolidar como nação independente, a Argentina passou a reivindicar o direito de administrar os antigos territórios do Vice-Reinado do Rio da Prata.

Com o Uruguai essa pretensão naufragou, já que o governo britânico não desejava que uma única nação controlasse o estuário do Prata, importante rota comercial da região.

A Argentina (então conhecida como Províncias Unidas do Rio da Prata), porém, tentou fazer valer seus pretensos direitos onde foi possível. E assim em 1823 o país concedeu ao francês Luís Vernet o direito de pesca na região.

Passados cinco anos, ele resolveu criar uma colônia no local, contando com apoio do governo argentino. Seu objetivo era explorar a caça às focas no arquipélago. Como, à época, os britânicos já vinham reivindicando o território, Vernet buscou também o aval do país europeus para seguir com a empreitada.

Ao fim daquela década, a colônia já estava estabelecida, mas em 1833 o Reino Unido envia uma esquadra ao território e passa a exercer a soberania sobre o local.

À essa altura, duas versões conflitantes costumam ser contadas. Os argentinos alegam que os moradores do assentamento regular criado por Vernet, que seriam centenas de pessoas, teriam sido expulsos do arquipélago, ao passo que os ingleses contestam essa hipótese (só as antigas autoridades teriam sido convidadas a se retirar, sem uso de força letal).

De base estratégica a fardo econômico

No século 19, exercer a soberania sobre esse rochedo inóspito tinha uma relevância fundamental para os britânicos, que viviam uma fase de expansão de seu império e buscavam controlar as principais rotas comerciais do planeta.

Nesse sentido, inicialmente era irrelevante para os ingleses que as Falkland reunissem alguns milhares de habitantes e dependesse completamente do governo central para existir (cenário econômico que mudaria por completo em décadas recentes, depois da descoberta de petróleo nas águas ao redor das ilhas).

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, porém, o país foi aos poucos abrindo mão de suas possessões ultramarinas, com as independências das colônias na Ásia e na África.

Em 1960, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a resolução 1514, que previa o fim do colonialismo no mundo. Com base nesse documento, a Argentina passou a intensificar suas reivindicações pela posse das Malvinas, até conseguir, em 1965, que a entidade reconhecesse oficialmente que o arquipélago era um território em disputa com o Reino Unido.

Isso obrigaria as duas nações a se sentarem para negociar a soberania das ilhas. Recentemente, a imprensa britânica divulgou documentos secretos mostrando que o país manteve conversações secretas com a Argentina, chegando a assinar um Memorando de Entendimentos em 1968, no qual o Reino Unido se comprometia a transferir o arquipélago para os sul-americanos, desde que estes prometessem resguardar os interesses dos moradores locais.

As negociações, porém, ocasionaram revolta nos habitantes das ilhas, conhecidos como kelpers. Eles enviaram representante a Londres e conseguiram mobilizar imprensa e parlamentares conservadores, que acabaram por barrar os planos de devolução.

Leaseback

Depois disso, a partir de 1974 os países buscaram uma nova saída conhecida como leaseback, que era inspirada no acordo firmado com a China e que culminou com a devolução de Hong Kong à nação asiática, em 1997, com a adoção do modelo conhecido como “um país, dois regimes”.

Basicamente, a Argentina pagaria um aluguel pelas Malvinas por um período de 50 a 99 anos e poderia hastear sua bandeira no arquipélago, que seguiria como sua rotina como se nada tivesse mudado. O idioma continuaria a ser o inglês, as leis seriam britânicas, a polícia seria local e o estilo de vida seria preservado.

Em 1980, o ministro das Relações Exteriores do Governo Margareth Tatcher, Nicholas Ridley, viajou secretamente a Buenos Aires para propor o leaseback à ditadura militar argentina, então liderada pelo general Jorge Videla, que aceitou a ideia com entusiasmo.

Para que o plano se concretizasse, Ridley precisava que os moradores das ilhas aceitassem os termos, o que não ocorreu, já que os kelpers consideravam os generais da ditadura argentina assassinos e violadores de direitos humanos. O ministro foi chamado de traidor e, em 1981, sob fortes críticas dos partidos Conservador (governista) e Trabalhista (oposição), o leaseback foi sepultado.

Guerra e “La mano de Dios”

Com o fracasso das negociações do leaseback, os militares argentinos se convenceram de que os britânicos nunca devolveriam as Malvinas por vias pacíficas, já que os planos sempre esbarrariam no Parlamento e nos moradores locais.

Afundado numa grave crise econômica e cada vez mais impopular, o governo da junta militar liderada pelo general Leopoldo Galtieri decidiu invadir as ilhas.

Apesar do êxito inicial em ocupar o território reivindicado, as forças argentinas (mal preparadas e com tecnologia obsoleta frente ao poderio britânico) foram rapidamente sobrepujadas, com o conflito sendo concluído em 74 dias, resultando em 907 mortes (sendo 649 da Argentina e 258 do Reino Unido, incluindo três vítimas civis).

Aos sul-americanos restou a chance de se “vingarem” desse fracasso militar nas quartas de final da Copa de 1986, quando Diego Maradona usou a mão para marcar o gol da classificação argentina diante dos ingleses.

O episódio ficou conhecido como “La Mano de Dios”, pois o craque atribuiu o gol feito de maneira ilegal à intervenção divina.

Apesar de representar um caso notório de erro de arbitragem, o lance acabou por ser aplaudido ao redor do mundo, especialmente por países que foram colônias europeias, por ser lido uma espécie de “roubo justo”, em que o mais fraco economicamente consegue sobrepujar o mais forte.

Sem Malvinas, sem Copa e com reputação arranhada

A atitude de Lisandro e Lo Celso pode ter servido para avivar o fervor patriótico de uma parcela do povo argentino, mas teve poucos efeitos práticos.

O país continua sem exercer soberania sobre as Ilhas Falkland, perdeu a Copa do Mundo para a Espanha e ainda viu sua imagem ser arranhada ao redor do mundo, inicialmente pelos diversos erros de arbitragem a seu favor, ocorridos durante o Mundial.

As redes sociais também destacaram episódios de racismo praticados por torcedores e por alguns dos próprios jogadores da seleção, recordando especialmente a polêmica comemoração pela Copa América de 2024, quando Enzo Fernández transmitiu ao vivo o momento em que ele e seus colegas entoavam um canto repleto de termos racistas, xenófobos e transfóbicos.

A própria Associação de Futebol Argentino (AFA) tornou-se alvo de processo disciplinar na Fifa, por conta da faixa sobre as Malvinas e de cânticos e gestos discriminatórios, atrasos no início das partidas, descumprimento de protocolos de segurança, mensagens inapropriadas e objetos arremessados por torcedores, além dos incidentes após a final contra a Espanha.

LEIA MAIS: Fifa abre processo disciplinar contra a AFA por faixa sobre as Ilhas Malvinas

Para piorar, o alto comando da entidade passou a ser investigado pelo FBI ainda durante o Mundial, por supostas irregularidades em seus acordos comerciais, que teriam movimentado US$ 300 milhões no sistema financeiro dos Estados Unidos.

LEIA MAIS: FBI investiga atividades comerciais da AFA nos Estados Unidos

Em meio a essas graves denúncias, o executivo Leandro Petersen apresentou sua demissão como diretor de marketing da AFA, após nove anos de cargo.

Segundo a imprensa argentina, ele era cotado como uma possível testemunha no inquérito conduzido pela Justiça norte-americana

Ao deixar o cargo, o executivo garantiu que sua decisão estava planejada há meses, por conta de novos projetos pessoais, e negou que seu afastamento esteja relacionado à investigação.

Durante sua gestão, a área comercial da AFA saltou de cinco patrocinadores para mais de 120 parceiros comerciais associados à seleção argentina.

Tradição de esquerda

Ao que tudo indica, o Chacarita Juniors preferiu não levar esses “poréns” em conta, ao lançar o novo uniforme.

O clube é conhecido por adotar posturas mais à esquerda, estando em um campo ideológico completamente oposto ao do presidente da Argentina, Javier Milei (que, aliás, alega existir uma espécie de campanha global contra seu país).

Enquanto no caso de Milei a postura diante das críticas à seleção tem mais a ver com a instrumentalização do patriotismo – similar à ocorrida durante a ditadura (especialmente na conquista da Copa do Mundo de 1978) -, no caso do Chacarita o posicionamento pode ser encarado como uma crítica ao imperialismo britânico.

O clube foi fundado em 1º de maio de 1906, Dia Internacional do Trabalhador, dentro do comitê do Partido Socialista em Buenos Aires, reunindo simpatizantes de diversas correntes de esquerda.

Isso acabou por se refletir no uniforme da equipe, que leva o vermelho do socialismo, o branco associado à ideia do progresso e o preto do anarquismo, que por vezes também é lido como uma referência ao universo fúnebre, por conta da proximidade ao Cemitério da Chacarita (daí o apelido de Funebrero).

Mais tarde, o clube iria se aproximar de setores mais à esquerda do peronismo, chegando a ser presidido por dirigentes sindicais como Luis Barrionuevo e Néstor Di Pierro.

Sua barra brava “La Famosa Banda de San Martín” mantém forte conexão com o movimento sindical argentino. Além disso, o Chacarita é opositor ferrenho do modelo de Sociedades Anônimas Desportivo (SADs) defendido por Milei.

O novo uniforme, que faz referência às Malvinas, celebra os 120 anos de fundação da equipe.