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Empresas de apostas reestruturam investimentos um ano após regulação do governo

Debate na São Paulo Innovation Week analisa o equilíbrio entre tributação e  combate ao mercado ilegal

Alvaro Garcia (Flutter Brazil), Marcelo Damato (Pequi Consultoria) e Bernardo Freire (BetLaw) - Adalberto Leister Filho/Máquina do Esporte

Alvaro Garcia (Flutter Brazil), Marcelo Damato (Pequi Consultoria) e Bernardo Freire (BetLaw) - Adalberto Leister Filho/Máquina do Esporte

⚡ Máquina Fast
  • Seis clubes brasileiros iniciam o Brasileirão 2026 sem patrocínio máster de apostas esportivas, refletindo retração do mercado após regulamentação.
  • Executivos alertam que aumento de impostos pode favorecer apostas ilegais, que ainda representam 40% a 50% do faturamento no Brasil.
  • Críticas à pequena estrutura estatal para fiscalizar o mercado legal e combater o ilegal, considerada insuficiente diante do crescimento do setor.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

O mercado de apostas esportivas no Brasil passa por um período de readequação de investimentos um ano após a implementação da regulamentação pelo governo federal.

O cenário atual apresenta uma retração no volume de patrocínios máster, com seis clubes iniciando o Campeonato Brasileiro 2026 sem esse tipo de aporte: Athletico, Bahia, Coritiba, Grêmio, Internacional e Vasco.

O Bahia foi o único que conseguiu um acordo tampão por três meses com a Esportiva Bet. Os demais permanecem sem parceiro para a propriedade.

Durante o painel “A bolha das apostas vai estourar?”, realizado na São Paulo Innovation Week, executivos e consultores discutiram a sustentabilidade do setor e os riscos da carga tributária, se amentada, dificultar a operação do mercado legal.

Álvaro Garcia, diretor de marketing da Flutter Brazil (detentora das marcas Betnacional e Betfair), avaliou que a segurança jurídica trazida pelas novas regras é fundamental, mas ressaltou a necessidade de foco na repressão a operadores irregulares.

“A regulamentação foi muito boa. Na Flutter, nossa visão é que é uma das melhores do mundo. O objetivo é consolidar esse mercado de entretenimento. É uma grande segurança para as operadoras ter essa regulamentação”, comenta.

“Agora precisamos combater as bets ilegais. Dentro da regulamentação, no ano passado, as bets tiveram R$ 37 bilhões de faturamento, pagaram R$10 bilhões em impostos e investiram mais R$ 10 bilhões em publicidade e patrocínio”, lista o executivo.

Para ele, é um setor que corre riscos com o aumento de impostos, o que beneficiaria o mercado ilegal. “O objetivo hoje é garantir que o mercado funcione e é preciso combater o mercado ilegal”, afirma ele.

Mercado

A experiência internacional, especialmente a britânica, foi utilizada como parâmetro para a análise do momento brasileiro. Na Premier League, restam poucos meses para a proibição definitiva de patrocínios másteres de empresas de apostas, embora a publicidade ainda seja permitida em outras partes do uniforme.

Especialistas estimam que clubes menores da liga inglesa possam enfrentar uma perda coletiva de £ 80 milhões com o fim desses contratos.

Bernardo Cavalcanti Freire, sócio da BetLaw, destacou que o aumento excessivo de impostos em países como Holanda e Portugal resultou em perda de arrecadação, pois os apostadores migraram para plataformas ilegais, que se tornam mais atrativas.

Para ele, a solução também não é a proibição das bets de operarem legalmente no Brasil. Ele afirma que hoje os dois maiores mercados do planeta são China e Índia, impulsionados pela superpopulação de cada país. Em ambos, as casas de apostas não são regulamentadas, o que não impediu que haja apostadores.

“No Brasil, mesmo com a regulamentação, as bets ilegais ainda são responsáveis por 40% a 50% do faturamento do mercado”, aponta.

Regulação

A estrutura de fiscalização do governo brasileiro também foi alvo de críticas. Marcelo Damato, diretor-presidente da Pequi Consultoria de Regulação e Negócios e ex-assessor da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, apontou a desproporção entre o tamanho do mercado e o efetivo estatal disponível para monitorá-lo.

“Para combater o ilegal e manter o mercado legal na linha, a SPA tem dois funcionários. Para você comparar, a autoridade pública de proteção de dados no Brasil virou agência neste mês. Eles têm 300 pessoas”, compara.  

“Se a estrutura [da SPA] fosse maior, poderia combater o mercado ilegal e fiscalizar o mercado legal”, completa.

Damato ainda classificou a legislação brasileira como uma “colcha de retalhos” e “obsoleta”, mencionando que a proibição de apostas em eventos não esportivos.

Entretenimento

A diferenciação entre aposta como forma de lazer e como suposto investimento é um dos pilares defendidos pelas empresas legalizadas. Garcia, da Flutter, reforçou o papel pedagógico das marcas no combate à ludopatia (vício em apostas).

“Quero trazer papel de protagonismo das bets que é promover aposta como entretenimento, não como investimento. É nosso papel ter ferramentas de controle e lançar campanhas educativas”, afirma o executivo.

Garcia lembra de campanha recente da Betnacional em que utilizou a imagem de Vini Jr., embaixador da marca, transformado em Vini Sr., para ressaltar a importância do consumo consciente nas apostas.

Manipulação

Freire complementou que um dos principais motores para a regulamentação foi o combate à manipulação de resultados. Ele pontuou que o mercado de previsões, recentemente proibido no Brasil após portaria do Ministério da Fazenda, operava fora da legislação de apostas. Para o executivo, a permissão desse tipo de serviço deve ser feita com amparo legal adequado.

“Um dos maiores impulsos da regulamentação foi manipulação de resultados. Mercado de predições não estava obedecendo à regulamentação. Se quer fazer predição, precisa fazer uma alteração legal. Hoje a autorização do mercado de previsão está restrita a  derivativos sob normas da  (CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. Aprovamos eles , desde que paguem a conta”, afirma Freire.