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Barcelona e Spotify construíram negócio que vai além do esporte

Parceria entre dois gigantes globais busca potencializar ações de entretenimento, uso de dados e experiências para os fãs

Atacante Raphinha e o ator Terry Crews, que protagonizou ação do Spotify - Reprodução / Instagram (@raphinha)

Neste domingo (11), o Barcelona derrotou o arquirrival Real Madrid por 4 a 3, naquela que foi a quarta vitória consecutiva em um El Clásico decisivo no decorrer da temporada, o que nunca havia acontecido.

O triunfo praticamente encaminhou a conquista da LaLiga 2024/2025 pelo clube catalão. Além disso, a partida serviu para evidenciar o lado inovador da parceria do Barcelona com seu patrocinador máster, o serviço de streaming de áudio Spotify.

Sim, inovação (essa palavra que alguns adoram utilizar sem critério nos dias atuais) serve bem para definir os termos desse acordo, que vai além da esfera esportiva.

Após o jogo, viralizaram no Brasil as imagens do ator norte-americano Terry Crews, conhecido por haver encarnado o personagem Julius no seriado “Todo Mundo Odeia o Chris”, trajando a camisa do Barcelona e posando de terno ao lado de jogadores do clube, como Raphinha e Lamine Yamal.

Esse “rolê” do eterno “Pai do Chris” nada teve de aleatório e integra ações mais amplas planejadas e executadas pelo Spotify para essa partida entre dois gigantes do futebol mundial.

O ator esteve ao lado do ex-jogador Thierry Henry e do músico Travis Scott, em um vídeo publicado antes do jogo.

O Barcelona foi a campo levando a marca da Cactus Jack Records (gravadora fundada por Travis Scott) no espaço do patrocínio máster, comumente ocupado pelo Spotify.

Esta foi mais uma “collab” feita entre o clube e um artista, com intermédio da plataforma de streaming, sempre no El Clásico.

Em ocasiões anteriores, porém, o resultado dentro de campo acabou não sendo dos melhores, como na vez em que o Barcelona colocou o símbolo da banda inglesa Rolling Stones na frente da camisa e terminou sendo derrotado pelo Real Madrid.

Como negócio, no entanto, as “collabs” musicais do Barcelona representam uma iniciativa bem-sucedida. A camisa com a logomarca da Cactus, por exemplo, esgotou em apenas uma hora. Um modelo que trazia a assinatura de Travis Scott foi arrematado por € 3 mil.

União global

Fundado em 2006, na Suécia, o Spotify é um pioneiro no streaming de áudio. Atualmente, conta com mais de 400 milhões de usuários no mundo e lidera o segmento.

Nos últimos anos, a empresa tem enfrentado forte concorrência de outras gigantes digitais, casos da Amazon, da Apple e do Google (com o YouTube Music), que passaram a abocanhar fatias expressivas do mercado.

Antes mesmo de verificar esse crescimento da concorrência, a empresa já buscava parcerias no futebol, como nos acordos firmados com Palmeiras, São Paulo e Santos, no Brasil, e com o Boca Juniors, na Argentina, entre 2016 e 2019.

Nesses casos, a parceria consistia em ter perfis oficiais dos clubes na plataforma e disponibilizar playlists criadas por seus jogadores.

O acordo com o Barcelona, firmado em julho de 2022, difere de tudo o que o Spotify havia feito até então.

A empresa passou a ocupar o espaço principal na camisa do clube (tanto no masculino quanto no feminino, sem contar as categorias de base) e ainda assumiu os naming rights do Estádio Camp Nou, que atualmente passa por uma reforma.

Este certamente não é o primeiro caso de uma marca global que se une a um grande clube europeu. Neste caso específico, porém, cada um dos lados ajuda a potencializar uma relação que ultrapassa o universo propriamente esportivo.

O objetivo principal da parceria, especialmente a que envolve o Camp Nou e seu entorno (em um projeto batizado de Espay Barça), é criar novas experiências de entretenimento para os fãs do clube.

“Um acordo dessa magnitude representa um passo à frente do sportainment [esporte + entretenimento]. Este negócio é o maior envolvendo esporte e música, embora tenhamos outros importantes, como mostrado na relação de Jay-Z com o futebol”, analisou Theodoro Montoto, publicitário e analista de marketing e conteúdo da Máquina do Esporte, em um artigo publicado à época em que o contrato foi firmado.

Dados estratégicos

Um aspecto estratégico nessa parceria consiste na imensa base de usuários do Spotify, aliada ao grande número de seguidores do Barcelona nas redes sociais. Em 2024, eram mais de 360 milhões de fãs do clube, na somatória de Instagram, Facebook, X e TikTok, segundo um levantamento feito pelo Observatório de Futebol do Centro Internacional de Estudos de Esporte (Cies).

O clube catalão é o segundo do mundo em matéria de fãs nas plataformas digitais, ficando atrás apenas do arquirrival Real Madrid.

“O que pode ter sido o principal fator deste acordo é o compartilhamento de dados. Ambos podem usar a base de dados um do outro, para conhecerem os hábitos de consumo de torcedores e usuários, aprimorarem seus produtos e ainda buscarem vendas cruzadas. Isso pode acontecer, por exemplo, através da geolocalização”, destacou Montoto.

Hub de entretenimento

As parcerias de Spotify e Barcelona com artistas famosos, que têm suas logomarcas estampadas na camisa do time, representam, na verdade, uma espécie de ensaio para um projeto maior, que tomará forma depois que a reforma do Camp Nou estiver concluída.

Só então a plataforma de streaming terá condições de explorar todo o potencial de suas propriedades de patrocínio, incluindo a possibilidade de realizar shows e outros eventos próprios.

Os primeiros passos, porém, já chamam a atenção pela repercussão global e mostram que Spotify e Barcelona caminham para criar um “hub” de entretenimento.

“O Spotify tem a possibilidade de não ficar mais restrito ao âmbito digital, mas, agora, pode ‘tangibilizar’ suas experiências em uma das principais cidades turísticas da Europa, ao ter o espaço físico do Camp Nou e seus entornos à sua disposição. É possível que vejamos a empresa sueca promovendo lançamentos, eventos ou até produzindo, ela mesma, shows”, afirmou Montoto.

Se a parceria seguir por essa rota, lembrou ele, o Barcelona também tende a ser beneficiado, com a participação na renda extra gerada pelos eventos em seu estádio.

O acordo com o Barcelona também abre espaço para o que o Spotify possa avançar pelo terreno das produções originais, caminho que já vem sendo trilhado por streamings de vídeo como Netflix e Amazon Prime Video.

Hoje, o principal produto da plataforma continua a ser a transmissão de músicas. Mas nesse negócio, lembra o publicitário, 70% do que o Spotify ganha é repassado para gravadoras, para pagar os royalties autorais.

Com a veiculação de produções originais, a plataforma fica com 100% do valor arrecadado.

Segundo relatórios divulgados pela própria empresa, ela repassou, em 2024, US$ 10 bilhões à indústria da música.

Os números apresentados pelo Spotify explicam a ênfase dada à “collab” do Barcelona com a Cactus Jack Records, de Travis Scott.

Em 2024, artistas e gravadoras independentes faturaram US$ 5 bilhões em royalties na plataforma. Um sinal de que, em breve, novos artistas da cena “indie” poderão dar o ar de sua graça na camisa do Barça, com as bênçãos do Spotify.