A temporada 2026 da Série A do Brasileirão será marcada pelos cinco anos de vigência da lei que instituiu as Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) no país.
Vistas como a salvação para clubes que estavam, em sua maioria, endividados e sem capacidade de investimento, o modelo de gestão recebeu um impulso inicial, com a adesão de clubes tradicionais como Vasco, Botafogo, Cruzeiro e Atlético-MG.
Hoje, porém, apesar das grandes expectativas criadas em torno das SAFs, elas continuam a ser minoria na primeira divisão nacional.
Dos 20 clubes que disputarão a Série A em 2026, 12 continuam no formato associativo, incluindo as quatro maiores torcidas do país: Flamengo, Corinthians, Palmeiras e São Paulo.
Além deles, estão estruturados enquanto associações: Fluminense, Internacional, Grêmio, Santos, Remo, Mirassol e Vitória. Isto sem contar o Athletico-PR, que, nos últimos anos, tratou abertamente da criação de uma SAF, mas nunca chegou a constituir uma de fato.
Dos oito restantes, o Red Bull Bragantino funciona como clube-empresa, cujo capital é inteiramente controlado pela empresa fabricante de bebidas energéticas, sediada na Áustria.
Em 2026, a Série A do Brasileirão contará com as seguintes SAFs: Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Chapecoense, Coritiba, Cruzeiro e Vasco.
A maioria delas conta com um grande investidor, como no caso de Pedro Lourenço, o Pedrinho BH, no Cruzeiro ou John Textor no Botafogo.
Há também exemplos em que o clube criou a SAF, mas manteve o capital nas mãos da associação, como a Chapecoense, que aprovou a mudança em dezembro de 2021.
Mesmo sem investidor, a adoção desse modelo de gestão serviu para que o clube pudesse recorrer à recuperação judicial, instrumento que é previsto na Lei das SAFs (para times que aderiram a esse formato) e que garante prazos maiores e condições facilitadas para a quitação de dívidas.
Associações dominam dentro de campo
De 2021 até agora, em apenas uma ocasião a Série A foi vencida por uma SAF. Isso ocorreu em 2024, quando o Botafogo venceu tanto a competição nacional quanto a Copa Libertadores, embalado por contratações milionárias feitas por Textor, mas que geraram polêmica na França, com direito a uma crise que resultou em seu afastamento do comando do Lyon.
Lembrando que no ano de aprovação da Lei das SAFs o Atlético-MG, campeão daquela edição, ainda estava estruturado como clube associativo.
Nas demais ocasiões, o título ficou nas mãos de Flamengo (2025) e Palmeiras (2022 e 2023). Os dois clubes associativos iniciam a competição deste ano como favoritos a ficar a taça, não apenas por conta do retrospecto em campo, mas pela ampla vantagem financeira que levam sobre os concorrentes.
O fato é que, atualmente, apesar de não poderem receber investimentos externos como nos casos de Cruzeiro e Botafogo, Flamengo e Palmeiras estão com as finanças organizadas e podem direcionar seus recursos para contratações mais vultuosas.
O Relatório Convocados/Outfield 2025 mostra que a dupla mais vitoriosa do futebol brasileiro na última década figura no seleto grupo dos três únicos clubes do país a faturarem acima de R$ 1 bilhão em 2024.
As receitas brutas do Flamengo naquele ano foram de R$ 1,287 bilhão, enquanto as do Palmeiras atingiram R$ 1,128 bilhão. O terceiro a alcançar a marca bilionária foi o Corinthians, com R$ 1,12 bilhão, mas com uma dívida que hoje se aproxima de R$ 2,8 bilhões.
No Corinthians, a relação entre dívida líquida e receitas totais alcançou o preocupante índice 2,1, ao passo que no Palmeiras ela ficou em 0,7 e no Flamengo ela chegou a 0,5, números considerados administráveis e que permitem às duas equipes se planejarem com eficiência e honrarem seus compromissos financeiros.
Dívidas
De um modo geral, o formato adotado por uma equipe não determina se ela irá faturar ou dever menos ou mais.
O São Paulo, que é associativo e possui a quarta maior receita bruta do futebol brasileiro (R$ 732 milhões em 2024), está com salários do elenco atrasados e convive com uma dívida acumulada que beira R$ 1 bilhão.
Por outro lado, o Atlético-MG, que adota o modelo de SAF, soma passivos de mais de R$ 1,3 bilhão (o valor chegaria a R$ 2,3 bilhões, segundo o Convocados/Outfield) e precisou pedir socorro ao investidor Rubens Menin (cuja família é detém 41,8% das ações da equipe) para quitar salários atrasados dos jogadores, no ano passado.
Um fato recorrente é que boa parte dos times tradicionais, grandes ou pequenos, que aderiram às SAFs tomaram essa decisão como último recurso para evitarem a falência.
Em muitos casos, os investimentos de centenas de milhões de reais anunciados na venda dessas sociedades anônimas contemplou a amortização das dívidas contraídas pelos clubes associativos.
Nesse cenário, é possível que em dezembro de 2026 número de SAFs na Série A seja maior do que no início do campeonato.
Desde o fim do ano passado, por exemplo, o Fluminense debate a proposta de criação de uma SAF, que seria controlada por um fundo de investimentos com a participação de 40 torcedores ilustres, incluindo André Esteves, dono do BTG Pactual.
Com a vitória de Mattheus Montenegro na última eleição presidencial, com 70% dos votos, a tendência é de que a proposta avance no Tricolor das Laranjeiras.
Um dos objetivos da ideia é justamente equalizar as dívidas do clube associativo, que chegaram a R$ 865,7 milhões em 2024.
Segundo o GE, outro clube que estaria cogitando a ideia de SAF é o Santos, cujo presidente Marcelo Teixeira teria se reunido com representantes do grupo norte-americano Saint Dominique, na última semana, para avaliar uma proposta não vinculante de R$ 1 bilhão pela compra de 80% do futebol do clube. Os investidores, nesse caso, também assumiriam as dívidas do clube.
O Vitória é outro que vem debatendo abertamente o tema SAF. O presidente Fábio Mota já deixou claro que o clube pode em breve aderir a esse modelo de gestão.
