A Cork Gully, empresa britânica responsável pela reestruturação financeira da Eagle Football Holdings Bidco Limited, anunciou a colocação à venda da SAF do Botafogo através de anúncio no jornal britânico Financial Times.
Além do Botafogo, a oferta inclui também as participações majoritárias no Lyon, equipe da Ligue 1 da França, e no RWDM Brussels, que disputa a segunda divisão da Bélgica. A medida ocorre após a nomeação de administradores judiciais independentes pelos credores da holding, retirando os poderes de gestão de John Textor.
A intervenção da Ares Management, principal credora da Eagle, fundamentou-se em inadimplência severa da empresa. O objetivo da venda é estabilizar a operação da holding e sanar obrigações financeiras pendentes, como as que resultaram no impedimento de registro de novos jogadores (transfer ban) pela Fifa ao Botafogo, em março.
Dívidas
A situação financeiras dos clubes que integram a Eagle é para lá de perigosa. Na última sexta-feira (10), o Botafogo divulgou um laudo de avaliação, assinado pela Meden Consultoria, mostrando que, ao final de 2025, o clube acumulava um passivo expressivo.
As dívidas de curto prazo somavam R$ 1,643 bilhão, compostas principalmente por fornecedores e contas a pagar (R$ 880,7 milhões), empréstimos e financiamentos (R$ 88,3 milhões), além de obrigações trabalhistas (R$ 31,9 milhões) e tributárias (R$ 196,6 milhões).
Esses números mostram a pressão imediata sobre o caixa do clube, que precisa lidar com compromissos elevados com apenas 12 meses para serem quitados.
No longo prazo, o chamado passivo não circulante, atingia R$ 1,110 bilhão, com destaque para fornecedores e contas a pagar (R$ 286,8 milhões), obrigações tributárias (R$ 201,1 milhões) e dívidas com partes relacionadas (R$ 447,5 milhões).
Somando curto e longo prazo, a dívida total do Botafogo, ao final do último ano, alcançava aproximadamente R$ 2,753 bilhões, valor que explica o patrimônio líquido negativo de R$ 427 milhões.
Esse cenário reforça a necessidade de renegociação de dívidas e de capital externo para sustentar as operações da SAF, já que o crescimento das receitas não tem sido suficiente para compensar o peso de tantas obrigações financeiras
Lyon
No caso do Lyon, a venda parece mais próxima de uma conclusão. Em comunicado divulgado nesta terça-feira (f14), o Eagle Football Group anunciou a criação de um comitê ad hoc independente para gerenciar um conflito de interesse. Fazem parte do comitê o financista Gilbert Saada, que será o presidente, a ex-tenista Nathalie Dechy e Victoria Wescott.
“Este comitê será responsável por acompanhar o processo administrativo em nome da empresa e, quando apropriado, por propor ao conselho de administração a nomeação de um especialista independente, monitorar o trabalho do referido especialista e emitir uma recomendação ao conselho de administração sobre os benefícios de uma possível oferta pública inicial para a empresa, seus acionistas e seus funcionários”, informou o comunicado da Eagle.
A Ares Management e a executiva Michele Kang, atuais donos da equipe, manifestaram interesse na aquisição e já assinaram um acordo de confidencialidade para as negociações. Apesar disso, com o anúncio da Cork, é possível que apareçam outros grupos interessados no negócio.
De acordo com o balanço consolidado simplificado apresentado pelo Eagle Football Group em junho de 2025, o Lyon apresentava dívida financeira de € 517,9 milhões. Além disso, havia dívidas relacionadas a contratos de jogadores no valor de € 145,1 milhões.
O relatório também destaca que o endividamento líquido, considerando recebíveis e obrigações de jogadores, atingiu € 576,6 milhões no último balanço financeiro, refletindo as dificuldades de fluxo de caixa enfrentadas pelo clube naquele período.
O Lyon chegou até a ser punido pela Direção Nacional de Controle e Gestão (DNCG) da Liga de Futebol Profissional da França (LFP) com o rebaixamento à segunda divisão. A pena posteriormente foi revogada pelo Comitê Federal de Apelações, após recurso apresentado pelo clube.
Assembleia
Em meio ao processo de venda conduzido pela administradora britânica, John Textor convocou uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para a próxima segunda-feira (20). A reunião presencial tem como objetivo analisar as necessidades urgentes de capitalização da SAF.
A proposta central do empresário norte-americano consiste no aporte imediato de R$ 125 milhões, por meio de um aumento de capital, embora Textor não detenha mais o controle da holding controladora. A Cork Gully estará presente na assembleia como parte interessada no tema.
A situação é tão grave, que o clube busca até outras soluções. “A assembleia também abre espaço para que todos os acionistas apresentem outras alternativas, sejam isoladas ou em conjunto com o aporte proposto por Textor, de modo a resolver a situação financeira do Botafogo no curto prazo”, informou o Botafogo.
