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Como falências de Boavista e Bordeaux podem servir de alerta para SAFs no Brasil

Os dois tradicionais clubes europeus entraram em colapso financeiro por conta da má gestão e de dívidas impagáveis

Torcedores do Boavista acompanham o clube em campo - Reprodução / Instagram (@boavistafutebolclube)

⚡ Máquina Fast
  • Boavista foi oficialmente declarado extinto devido a dívidas impagáveis da sua SAD e passivos relacionados ao estádio.
  • Bordeaux foi excluído do Campeonato Francês por falta de garantias financeiras e pode ser liquidado pela Justiça da França.
  • Casos de falência europeus alertam para os riscos das SAFs no Brasil, evidenciando complexidades na gestão de clubes tradicionais.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Enquanto a Copa do Mundo de 2026 se encaminhava para seus momentos decisivos, dois tradicionais clubes europeus davam seus suspiros derradeiros.

Do alto de seus 123 anos de história, com direito à conquista de um título nacional na temporada 2000/2001 e cinco Taças de Portugal, o Boavista foi oficialmente declarado extinto nesta quarta-feira (15).

No mesmo dia, a Direção Nacional de Controle de Gestão (DNCG), da Liga Francesa de Futebol (LFF), decidiu excluir o Bordeaux do Campeonato Francês, após o clube não conseguir arrecadar os € 10 milhões para permanecer na 4ª divisão, na próxima temporada.

Nos próximos dias, a tendência é que a Justiça decida pela liquidação do time, que já conquistou seis edições da Ligue 1, além de três Copas da França.

Nos dois casos (tanto o já consumado quanto o que está em vias de se confirmar), as falências estão relacionadas à má gestão de clubes que, numa determinada fase de suas respectivas trajetórias, optaram por abrir seu capital a investidores, mas acabaram sucumbindo às dívidas.

Situações dramáticas que podem servir de alerta para as Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) do Brasil.

Boavista

A falência do Boavista tem a ver com as dívidas acumuladas de sua Sociedade Anônima Desportiva (SAD), que totalizavam € 166 milhões e eram consideradas impagáveis.

Para agravar essa situação, o clube associativo (que detinha 40% do capital da SAD) também possuía um passivo de € 85 milhões, decorrente dos juros relativos às obras de adequação do Estádio Bessa, no Porto, para a Euro 2004, realizada em Portugal.

Similares às SAFs brasileiras, as SADs surgiram no país europeu em 1997 e se tornaram obrigatórias no futebol profissional de lá em 2013 (exigência que foi derrubada em 2023).

O Boavista adotou esse modelo de gestão no início da temporada 2000/2001, que seria premiada com a conquista do título nacional.

O capital inicial dessa sociedade foi fixado em 200 milhões de escudos (ou 200 mil contos, como se costumava dizer em Portugal), o que seria equivalente a € 1 milhão. O clube associativo detinha 40% das ações da SAD, enquanto as 60% restantes foram negociadas com BFC investimentos.

Apesar dessa arrancada promissora logo em sua estreia, a SAD do Boavista passou a acumular passivos referentes a processos judiciais, dívidas trabalhistas e disputas comerciais, que acabaram por criar um efeito “bola de neve”.

A situação se agravaria ainda mais a partir de 2020, quando o investidor hispano-luxemburguês Gérard Lopez adquiriu a maioria do capital social da SAD. Guardem esse nome, pois ele tem relação direta com a derrocada do Bordeaux.

O empresário, que acumulava passagens desastrosas por outras equipes europeias, chegou prometendo retirar o Boavista da crise.

Sob sua gestão, porém, o clube se afundou ainda mais nas dívidas trabalhistas, fiscais e com fornecedores, passando a ser alvo de recorrentes transfer bans impostos pela Federação Internacional de Futebol (Fifa), por calotes em atletas e em outras equipes.

Na temporada 2024/2025, o Boavista terminou na lanterna e foi rebaixado no Campeonato Português.

Em 2025, a Polícia Judiciária de Portugal realizou buscas no Estádio do Bessa, num inquérito que apurou suspeitas de fraude fiscal e em créditos, além de suposta lavagem de capital, que teriam sido cometidos por executivos da SAD.

Em meio a um processo de insolvência e sem ser capaz de apresentar as certidões exigidas pelas organizações esportivas profissionais, o Boavista acabou sendo rebaixado para as divisões distritais amadoras do Porto.

A liquidação do clube, oficializada nesta semana, ocorreu após a SAD falhar no pagamento de débitos com os credores e não depositar na conta da massa insolvente os recursos necessários para cobrir as despesas estruturais e o déficit do mês de junho.

Bens que integram o patrimônio do Boavista, incluindo o Estádio do Bessa, passarão por avaliação judicial e deverão ir a leilão, para saldar os compromissos com os credores.

Bordeaux

Antes de complicar a situação do Boavista, Gérard Lopez já havia levado o caos financeiro a duas equipes tradicionais da França.

A primeira delas foi o Lille, que ele assumiu em 2017, com o plano de contratar jovens talentos por preços baixos, valorizá-los e vendê-los por grandes somas.

Apesar de os investimentos de Lopez terem resultado na conquista da Ligue 1 na temporada 2020/2021, ele foi forçado a se desfazer do clube, por conta de uma dívida de € 300 milhões contraída sob sua gestão.

No ano seguinte, ele resolveu adquirir o Bordeaux, prometendo livrar o clube do atoleiro financeiro.

Sob o seu comando, no entanto, o time fracassou em campo, caiu de divisão e viu sua dívida disparar. Sem alternativa, ele tentou ainda negociar o controle acionário da equipe com o Fenway Sports Group, dono do Liverpool.

Mas, em julho de 2024, as negociações foram encerradas e o Bordeaux precisou entrar com pedido de recuperação judicial, abrindo mão de seu status de clube profissional, após ser excluído em definitivo pela DNCG das ligas nacionais francesas, por falta de garantias financeiras.

Recentemente, a direção do Bordeaux apresentou novo pedido de falência à Justiça da França, que pode decretar a qualquer momento a liquidação da equipe criada em 1881 e que se dedica ao futebol desde 1919.

Alerta para o Brasil

Casos como os dos clubes comandados por Lopez servem de alerta para equipes brasileiras que constituíram SAFs.

Em geral, esse foi o caminho escolhido por alguns times tradicionais, com grandes torcidas e que se encontravam em sérias dificuldades financeiras, por conta do elevado enividamento.

Atrair investidores externos com promessas de grandes investimentos no futebol parecia ser a receita certa para a recuperação dos gigantes e a retomada do passado de glórias.

Casos como o do Vasco, com a 777 Partners, e do Botafogo, com a Eagle Football Holdings de John Textor, parecem demonstrar que a situação é mais complexa do que aparenta.

O Vasco, por exemplo, sequer chegou a receber todos os aportes prometidos pela investidora norte-americana, que faliu antes de integralizar o capital da SAF. Desde que separou o futebol do clube associativo o Gigante da Colina tem colecionado fracassos em campo.

O Botafogo até teve alguns momentos melhores, chegando a conquistar a Copa Libertadores e o Brasileirão na temporada 2024.

Atualmente, porém, a SAF passa por recuperação judicial e está sob o comando de um interventor, desde que Textor foi afastado da gestão, numa cenário que lembra, em vários aspectos, o roteiro vivido pelos clubes europeus comprados por Lopez.