O futebol sempre foi movido a mecenas, fundos de investimento e, mais recentemente, petrodólares e private equity, mas uma nova classe de investidores chegou às diretorias: os criadores de conteúdo.
Na semana passada, KSI, megainfluenciador inglês e cofundador da bilionária marca Prime (que patrocina Arsenal e Bayern de Munique, por exemplo), comprou 20% do Dagenham & Redbridge, clube da 6ª divisão da Inglaterra.
Lembra muito um “Wrexham 2.0”, não? O sucesso de Ryan Reynolds e Rob McElhenney provou que aliar storytelling a um time de divisões inferiores atrai atenção, patrocínios globais (como TikTok e United Airlines) e, claro, dinheiro: a receita do clube galês cresceu mais de 15 vezes entre 2020 e 2024.
Apesar da semelhança, a entrada de KSI coloca a “creator economy” no centro do negócio, focando nas difíceis Gerações Z e Alpha, impulsionada por dois diferenciais práticos:
- Distribuição como ativo: O Dagenham & Redbridge (apelidado de “Daggers”) não tinha relevância global. Ao vender 20% para KSI, o clube herdou instantaneamente uma base de mais de 50 milhões de seguidores (somando-se apenas as contas oficiais de Instagram, TikTok, X e YouTube). E, além disso, não precisa vender uma série documental para o Disney+ ou o FX; ele é a própria emissora, com distribuição imediata.
- Storytelling “Full Circle”: Há mais de uma década, KSI ficou famoso no YouTube jogando Fifa. Sua série mais popular, a “Race to Division One”, consistia em pegar clubes no videogame e tentar levá-los ao topo. Agora, o roteiro virtual virou realidade no mercado.
Vale lembrar que a Inglaterra também abriga o pioneiro dessa fusão: o Hashtag United. Fundado em 2016 pelo youtuber Spencer FC como uma brincadeira entre amigos, o clube escalou a pirâmide inglesa com apoio de fãs e investimento do lateral César Azpilicueta (ex-Chelsea e atualmente no Sevilla). Hoje, em 2026, o time masculino disputa a 7ª divisão, o feminino está na 3ª, e eles mantêm uma operação robusta de e-Sports, tudo sustentado por quase 700 mil inscritos no YouTube.
E no Brasil?
Por aqui, a relação ainda se concentra de forma pontual. Influenciadores perceberam que patrocinar times custa menos e gera mais mídia espontânea que campanhas tradicionais. Em 2023, o Cartolouco pagou R$ 78.750 para estampar sua logomarca na bermuda do Maringá contra o Flamengo. Depois, em 2025, investiu R$ 80 mil na Inter de Limeira contra o Santos, aproveitando o “hype” do retorno de Neymar.
Na mesma esteira, “Gol do Rayo” se tornou o primeiro influenciador a ser patrocinador máster de um clube brasileiro, com o Bangu no Cariocão de 2025, repetindo a dose com o Brasil de Pelotas, e, em 2026, com o América-MG contra o Cruzeiro.
O que o mercado pode aprender?
O que podemos tirar destes movimentos talvez seja que a dinâmica de distribuição de conteúdo está mudando. Clubes pequenos lutam para pagar as contas porque não têm audiência (e, sem audiência, não atraem marcas). Por outro lado, influenciadores têm a audiência, mas precisam de ativos reais para monetizar fora das plataformas de vídeo. A união entre os dois é a combinação entre propriedade intelectual (o clube) e canais de distribuição locais/globais (o influenciador).
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